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Formação de agendas governamentais e políticas de segurança pública com cidadania: o caso de Contagem

Documento informativo

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADEDE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA POLÍTICA FORMAÇÃO DE AGENDAS GOVERNAMENTAIS E POLÍTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA COM CIDADANIA: O CASO DE CONTAGEM Filipe Galgani Gomes Belo Horizonte 2011 Filipe Galgani Gomes FORMAÇÃO DE AGENDAS GOVERNAMENTAIS E POLÍTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA COM CIDADANIA: O CASO DE CONTAGEM Dissertação de mestrado apresentada ao Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ciência Política. Orientadora: Profa. Dra. Telma Maria Gonçalves Menicucci Belo Horizonte 2011 Filipe Galgani Gomes FORMAÇÃO DE AGENDAS GOVERNAMENTAIS E POLÍTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA COM CIDADANIA: O CASO DE CONTAGEM BANCA EXAMINADORA Prfa. Dra. Telma Maria Gonçalves Menicucci (Orientadora/ UFMG) Prof. Dr. Carlos Aurélio Pimenta de Faria (PUC-MG) Prof. Dr. José Angêlo Machado (UFMG) Belo Horizonte 2011 AGRADECIMENTOS Agradeço à Dra. Telma Menicucci pela leitura incansável e orientação precisa deste trabalho. Além de minha orientadora em dose dupla (graduação e mestrado), a professora Telma é uma grande amiga a quem agradeço pelas críticas sempre construtivas, pelos cafezinhos e pelas palavras de incentivo. Agradeço aos colegas da Secretaria de Estado de Defesa Social (SEDS) pela compreensão e pelo apoio. Meus especiais agradecimentos a Soraia Ghader, Fabiana Leite, Dr. José Francisco, Geórgia Ribeiro Rocha, Scheilla Cardoso Andrade e Sílvia Caroline Listgarten Dias. Agradeço aos funcionários da prefeitura municipal de Contagem, do governo do estado de Minas Gerais, do governo federal e do PNUD entrevistados nesta dissertação por terem colaborado com esta pesquisa. Agradeço aos meus amigos pela compreensão dos momentos de ausência e pela força para continuar neste longo processo de pesquisa. Entre tantos nomes como me atrever a citar alguns pouco em detrimento de todos aqueles que foram fundamentais na construção do sentido deste mestrado em minha vida. Esta dissertação traz em suas entrelinhas uma infinidade de estórias contadas por amigos que comigo compartilharam cada etapa da construção deste texto. A todos os meus sinceros agradecimentos. Agradeço aos meus familiares, de forma especial aos meus pais, William e Petrina, por me fazer crer que todo esforço seria recompensado pelo prazer de aprender. Agradeço ao André, Mariana, Paula e Airles pelo companheirismo e apoio imprescindíveis nesta caminhada. RESUMO Essa dissertação de mestrado desenvolve uma análise sobre a influência do processo de consolidação de uma nova imagem de política, representada pela concepção de Segurança Pública com Cidadania, na geração de mudanças ou na introdução de novas temáticas em agendas governamentais. Para esta análise foram sintetizados três modelos analíticos que ressaltam a importância das ideias e do conhecimento em processos de formação de agendas governamentais e elaboração de políticas públicas; Em seguida, buscou-se compreender em que medida a consolidação de uma nova imagem de política contribuiu para participação de governos municipais em políticas de segurança e para reorientação de papéis assumidos por outros atores institucionais, com destaque para União, governo estadual e agências internacionais; Na seqüência, buscou-se analisar em que medida a consolidação desta nova imagem de política se somou a um arranjo institucional previamente existente impactando em uma nova distribuição de responsabilidade entre os atores institucionais supracitados. Por fim, buscou-se analisar em que medida a imagem de política de Segurança Pública com Cidadania se consolidou como um sistema de crenças compartilhado por atores institucionais de diferentes origens presentes em um subsistema de política, influenciando o processo de inserção de temáticas de segurança na agenda do governo municipal de Contagem (MG). PALAVRAS-CHAVES Formação de Agendas Governamentais, Elaboração de Políticas Públicas, Segurança Pública com Cidadania ABSTRACT This dissertation develops an analysis of the influence of the consolidation process of a new image of policy, represented by the concept of Public Security with Citizenship, promoting changes or introduction of new themes in government agendas. For this proposal, were synthesized three analytical models that emphasize the importance of ideas and knowledge in processes of agenda setting and policy-making. Then, sought to understand how the consolidation of this new image of policy contributed to the participation of municipal governments on security policies and to the reorientation of roles assumed by other institutional actors, highlighting Union, the state government and international agencies. Following, sought to examine how the consolidation of this new image of policy was added to a previously existing institutional arrangement impacting on a new distribution of responsibility among the institutional actors above. Finally, sought to examine how the concept of Public Security with Citizenship established as a belief system shared by institutional actors from different backgrounds present in a policy subsystem, influencing the process of inserting security issues on the agenda of the municipal government of Contagem (MG). KEY WORDS Agenda setting, Policy-making and Public Security with Citizenship SUMÁRIO INTRODUÇÃO.01 1 – IMAGENS, IDEIAS E CRENCAS E O PROCESSO POLÍTICO DE FORMAÇÃO DE AGENDAS GOVERNAMENTAIS.05 1.1- O MODELO DE EQUILÍBRIO PONTUADO DE BAUMGARTNER E JONES.05 1.2 - O MODELO DE MÚLTIPLOS FLUXOS DE JOHN KINGDON.09 1.3 - O ADVOCACY COALITION FRAMEWORK (ACF) DE PAUL SABATIER E JENKINS-SMITH .18 1.4- SÍNTESE E PRINCIPAIS ARGUMENTOS.25 2 – TRAJETÓRIA DAS POLÍTICAS DE SEGURANÇA NO BRASIL: IMAGENS DE POLÍTICA, SISTEMA DE CRENÇAS E DISTRIBUIÇÃO DE ATRIBUIÇÕES.29 2.1 – SEGURANÇA NACIONAL E SEGURANÇA PÚBLICA: TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA E A CENTRALIDADE DE AÇÕES MILITARIZADAS E REPRESSIVAS.31 2.2 – A IMAGEM DE POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA COM CIDADANIA E AGENDAS DE GOVERNOS MUNICIPAIS.36 2.3 – SÍNTESE .40 3 – ARRANJOS INSTITUCIONAIS E SUBSISTEMAS DE POLÍTICAS DE SEGURANÇA: UNIÃO, ESTADO, MUNICÍPIOS E AGÊNCIAS INTERNACIONAIS.43 3.1 – A NOVA ORDEM DEMOCRÁTICA E A VALORIZAÇÃO DE GOVERNOS MUNICIPAIS.44 3.2 – UNIÃO: PARTICIPAÇÃO DO GOVERNO FEDERAL A PARTIR DOS NOVOS PARADIGMAS DE POLÍTICAS DE SEGURANÇA.51 3.2.1 – O PRONASCI E A PARTICIPAÇÃO DE GOVERNOS MUNICIPAIS EM POLÍTICAS DE SEGURANÇA.56 3.3 – A ATUAÇÃO DO GOVERNO DE MINAS GERAIS A PARTIR DOS NOVOS PARADIGMAS DAS POLÍTICAS DE SEGURANÇA.59 3.3.1 – POLÍTICA ESTADUAL DE PREVENÇÃO À CRIMINALIDADE E PARTICIPAÇÃO DE GOVERNOS MUNICIPAIS.61 3.4 – AGÊNCIAS INTERNACIONAIS E GOVERNOS MUNICIPAIS.64 3.5- SÍNTESE.68 4 - O PROCESSO DE INSERÇÃO DE TEMÁTICAS DE SEGURANÇA NA AGENDA GOVERNAMENTAL DO MUNICÍPIO DE CONTAGEM (MG).73 4.1 – GÊNESE DA POLÍTICA DE SEGURANÇA DE CONTAGEM.75 4.2-ENQUADRAMENTO DA POLÍTICA DE SEGURANÇA DE CONTAGEM.82 4.3 - SUBSISTEMA DE POLÍTICA DE SEGURANÇA EM CONTAGEM: AGÊNCIAS INTERNACIONAIS, UNIÃO, GOVERNO ESTADUAL E MUNICÍPIO.88 4.4 - SEGURANÇA PÚBLICA COM CIDADANIA COMO UM SISTEMA DE CRENÇAS .96 4.5 – SÍNTESE.100 5 – CONSIDERAÇÕES FINAIS.103 6 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.112 INTRODUÇÃO A transição entre três imagens de política marca a trajetória recente das políticas de segurança no Brasil: a concepção de política de Segurança Interna vigente a partir do Golpe Militar de 1964; o paradigma de política de Segurança Pública celebrado pela promulgação da Constituição Federal de 1988 e a perspectiva de política de Segurança Pública com Cidadania desenvolvida a partir da segunda metade da década de 90. A formulação e a implementação das políticas de Segurança Interna e Segurança Pública se orientavam por ações de natureza militarizada e repressiva, centralizadas ora nas forças armadas, ora nas polícias estaduais, respectivamente. Esta referência atribuída a ações militarizadas e repressivas caracterizava uma espécie de “monopólio de política”, que, por sua vez, daria seus primeiros sinais de ruptura a partir da consolidação de uma nova imagem de política representada pela concepção de Segurança Pública com Cidadania, entendida, de forma mais abrangente, como “um conjunto de ações institucionais e sociais voltadas a resguardar e garantir efetivamente liberdades e direitos das pessoas por meio de prevenção, repressão, investigação dos delitos, das infrações e dos atos que ameaçam a ordem pública” (Alvarez, 2006:20). Segundo análises desenvolvidas pelo PNUD (2005), a incapacidade das instituições latino-americanas em gerar respostas à situação de insegurança desconstruiria, paulatinamente, a credibilidade da população nas instituições democráticas. As alternativas desenvolvidas pelo paradigma de política de Segurança Pública na região “neutralizaram” certos direitos humanos básicos, resultando em um enfraquecimento do Estado de Direito, destacando a importância de desenvolvimento de um novo paradigma de política mais amplo, capaz de articular ações desenvolvidas por diversos atores institucionais (PNUD, 2005: 10). A perspectiva de Segurança Pública com Cidadania se apresenta como este paradigma mais amplo, evidenciando aspectos como a importância de desenvolvimento de ações de cunho preventivo em parceria com novos atores institucionais, dentre eles os governos municipais que estariam mais próximos 1 aos cidadãos, favorecendo o desenvolvimento de ações mais democráticas e eficientes de controle e redução da incidência dos fenômenos de criminalidade e violência Esta dissertação buscou compreender em que medida a consolidação da concepção de Segurança Pública com Cidadania, em âmbito internacional e nacional, contribuiu para o processo de inserção de temáticas de segurança na agenda de governos municipais, lançando mão da literatura referente aos processos políticos de formação de agendas governamentais e elaboração de políticas públicas. Segundo Faria (2003), a Ciência Política, em uma fase inicial, analisava as políticas públicas como o resultado de um sistema político, assumindo como foco de análise as articulações de interesse que influenciavam tais resultados. Uma quantidade expressiva de teorias e vertentes analíticas incipientes se esforçariam para imprimir maior inteligibilidade à diversificação dos processos de elaboração de políticas públicas, com um excessivo enfoque nos processos decisórios, não conferindo a devida importância ao papel das idéias e do conhecimento no processo de formação de agendas governamentais. O autor indica a necessidade de incorporação do papel das idéias e do conhecimento como variável de análise, uma vez que “é a interação de valores, normas e diferentes formas de conhecimento que caracteriza o processo das políticas. (.) Os sistemas de idéias constroem os interesses dos tomadores de decisões” (John, 1999, apud, Faria, 2003:23). Este trabalho se insere nessa temática ao considerar as políticas públicas, entre elas a política de segurança, como um sistema de crenças (Sabatier), entendido como um conjunto partilhado de princípios normativos, enunciados causais e concepções operacionais sobre determinada intervenção governamental. A difusão dessas crenças configura o processo de construção de uma imagem de política pública (Baumgartner e Jones), que leva à produção de mudanças ou à introdução de novas temáticas nas agendas governamentais, entre elas as agendas municipais. Isso se dá a partir da confluência de vários processos (Kingdon), como a identificação e caracterização de um problema (no caso, a ampliação da criminalidade e da 2 violência), a produção de alternativas, baseadas na identificação dos fatores desencadeadores do problema, e o fluxo político, particularmente mudanças de governo e a introdução de incentivos externos que afetam as escolhas municipais. Partindo desses argumentos e tomando o caso do município de Contagem no estado de Minas Gerais, esta dissertação tem como objetivo analisar o processo de inserção de temáticas de segurança na agenda do governo municipal e de desenvolvimento de uma política municipal de segurança, orientada pela concepção de Segurança Pública com Cidadania, buscando identificar os atores e fatores que exercem influência nesse processo. Foi, assim, analisado o processo de construção e difusão da imagem de política de Segurança Pública com Cidadania e sua inserção em Contagem no qual se operou uma mudança na forma de atuação municipal, antes de ausência para depois de assunção de uma política de segurança. Para isso, percorreu-se a trajetória da política de segurança no país, concomitante a mudanças na concepção dessa política, e o papel de determinados atores nesse processo (internacionais, como o PNUD, e nacionais como o governo federal e o governo estadual de Minas Gerais). Para análise do caso de Contagem, foi feita uma pesquisa documental e entrevistas com esses atores estratégicos com atuação expressiva no município e com atores locais, com vistas a captar o percurso dessa idéia (Segurança Pública com Cidadania) e sua materialização em políticas inovadoras. O trabalho está estruturado da forma seguinte: No primeiro capítulo são sintetizados três modelos analíticos que ressaltam a importância das ideias e do conhecimento em processos de formação de agendas governamentais e de elaboração de políticas públicas com a intenção de reunir elementos teóricos e conceituais para a construção de um marco analítico que oriente a análise destes processos: a Teoria de Equilíbrio Pontuado de Baumgartner e Jones (1999), o Modelo de Múltiplos Fluxos desenvolvido de John Kingdon (1995) e o Advocacy Coalition Framework sistematizado inicialmente por Paul Sabatier (1999). 3 O segundo capítulo buscou compreender em que medida o desenvolvimento de uma nova imagem de política, representado pela concepção de Segurança Pública com Cidadania, contribuiu para inserção de temáticas de segurança em agendas de governos municipais e para reorientação de papéis e atribuições assumidos por outros atores institucionais, com destaque para União, governo estadual e agências internacionais. O terceiro capítulo assume como foco as relações estabelecidas entre estes atores institucionais de diferentes origens (governos federal, estadual, municipal e agências internacionais), presentes em um subsistema de política de segurança, analisando em que medida a consolidação de uma nova imagem de política se soma a um arranjo institucional previamente existente repercutindo em uma nova dinâmica de funcionamento e distribuição de responsabilidades entre estes atores institucionais. O quarto capítulo buscou reconstituir o processo de inserção de temáticas de segurança na agenda do município de Contagem, a luz de elementos teóricos e conceituais verificados na literatura atinente aos processos de formação de agendas governamentais e elaboração de políticas públicas, verificando em que medida a imagem de política de Segurança Pública com Cidadania se consolidou como um sistema de crenças compartilhado por atores institucionais de diferentes origens presentes em um subsistema de política, influenciando o processo inserção de temáticas de segurança na agenda do governo municipal de Contagem. Ao final, são feitas algumas considerações finais. 4 1 - IMAGENS, IDEIAS E CRENCAS E O PROCESSO POLÍTICO DE FORMAÇÃO DE AGENDAS GOVERNAMENTAIS Este capítulo busca sintetizar os principais argumentos presentes na literatura relativa à análise de políticas públicas que contribuem para o entendimento das razões que levam atores institucionais, vinculados às estruturas governamentais, a focar em determinadas questões em detrimento de outras, em processos de formação de agendas governamentais e mudanças de políticas públicas. Diversos estudos têm se desenvolvido em torno da importância de ideias, crenças e percepções nestes processos. Este capítulo se orienta, de forma especial, por três modelos desenvolvidos a partir de análises sobre a formação de agendas governamentais nos EUA: a Teoria de Equilíbrio Pontuado de Baumgartner e Jones (1999), o Modelo de Múltiplos Fluxos desenvolvido de John Kingdon (1995) e o Advocacy Coalition Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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