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Gestão do patrimônio cultural em Minas Gerais: novas dimensões e paradoxos

Documento informativo

Flávia de Assis Lage A GESTÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL EM MINAS GERAIS: NOVAS DIMENSÕES E PARADOXOS Belo Horizonte Escola de Arquitetura da UFMG 2014 Flávia de Assis Lage A GESTÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL EM MINAS GERAIS: NOVAS DIMENSÕES E PARADOXOS Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Arquitetura e Urbanismo da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo. Área de concentração: Teoria; Produção e experiência do espaço. Orientador: Professor Doutor Guilherme Dornelles Dangelo Escola de Arquitetura da UFMG. André Belo Horizonte Escola de Arquitetura da UFMG 2014 FICHA CATALOGRÁFICA L174g Lage, Flávia de Assis. A Gestão do patrimônio cultural em Minas Gerais [manuscrito] : novas dimensões e paradoxos / Flávia de Assis Lage. - 2014. 273f. : il. Orientador: André Guilherme Dornelles Dangelo. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Arquitetura. 1. Patrimônio cultural – Minas Gerais - Teses. 2. Patrimônio cultural – Preservação e conservação - Teses. 3. Patrimônio cultural - Gestão. 4. Patrimônio cultural - Proteção. I. Dangelo, André Guilherme Dornelles. II. Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de Arquitetura. III. Título. CDD 350.85 AGRADECIMENTOS Gostaria de agradecer a todos que me apoiaram ao longo do percurso desse trabalho. Ao meu orientador, Professor André Guilherme Dornelles Dangelo, por me conduzir no universo da pesquisa cientifica. Às Professoras Celina Borges Lemos e Vanessa Borges Brasileiro, pelas valiosas contribuições ao longo do processo, na banca de qualificação e em discussões sobre a questão da preservação do patrimônio cultural no Brasil. À pesquisadora Mônica Starling por gentilmente disponibilizar sua tese de doutorado. Aos professores da banca examinadora pela disposição para leitura e avaliação do trabalho. Á minha irmã, Luciana de Assis Lage, por me incentivar ao retorno da vida acadêmica, por me liberar parcialmente das tarefas do escritório de arquitetura, por me suportar, tanto nos momentos de empolgação, quanto nos momentos de angústia ao longo de toda a pesquisa. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pelo apoio financeiro através da Bolsa de Pesquisa. A todos os entrevistados que, gentilmente, cederam seu conhecimento e seu tempo para me ajudarem a compor esse trabalho. Aos amigos que compartilharam comigo as dores e alegrias nessa trajetória. Aos Baiacus que, mesmo a distância, me apoiaram na vida acadêmica, na corrida e na vida! E, finalmente, aos meus pais, que me proporcionaram uma sólida base emocional, que cultivaram em mim, desde cedo, o gosto pelo conhecimento e pelos estudos. RESUMO Essa pesquisa tem por objetivo compreender a participação dos diversos atores sociais na gestão da preservação do patrimônio cultural, nos âmbitos federal, estadual e municipal. Tomou-se como referência para essa análise a política de patrimônio cultural do estado de Minas Gerais – ICMS Patrimônio Cultural – política essa que foi numa iniciativa pioneira no País. Essa política se constitui como uma indução à municipalização da proteção do patrimônio cultural, resultando num processo de descentralização, em consonância com as diretrizes da Constituição Brasileira de 1988. Neste estudo, o método de pesquisa enfocado foi o das entrevistas com os atores sociais, justamente para buscar compreender a participação destes atores na gestão da preservação do patrimônio cultural. Os resultados desse estudo apontam para a importância da integração entre os diversos níveis institucionais – federal, estadual e municipal – da proteção do patrimônio cultural, além da importância da participação efetiva da sociedade civil. Palavras-chave: Patrimônio Cultural; Preservação; Gestão. ABSTRACT This research aims at understanding the participation of different social actors in the management of cultural heritage protection at the federal, state and municipal levels. The policy of cultural heritage of the state of Minas Gerais – ICMS Patrimônio Cultural – was taken as reference for that review. This policy was a pioneer action in the country. This policy is constituted as an induction to the municipalization of protection of cultural heritage initiative, resulting in decentralization, according with the guidelines of the Brazilian Constitution of 1988. On this study, one of the research methods focused was the method of interviews with social actors, just to try to understand the involvement of them in conservation management cultural heritage. The results of this research point to the importance of integration between the various institutional levels - federal, state and municipal - the protection of cultural heritage and the importance of effective participation of civil society. Key words: Cultural Heritage; Preservation; Management RÉSUMÉ Cette recherche a l’objectif de comprendre la participation des diverses acteurs sociaux dans le management de la préservation du patrimoine culturel, dans les champs d’action de la féderation, de l’états et des municipes. Il est pris comme reférance pour cette analyse la politique de patrimoine culturel dans l’état de Minas Gerais – ICMS Patrimônio Cultural – considéré une politique pionière au Brésil. Cette politique met en relief les municipalités dans la question de la prótetion du patrimoine culturel dont le résultat est un affaire plus descentralisé en allant selon les lignes directrices de la Constitution Brésilienne de 1988. Parmi les métodes de recherche abordés dans le travail, l’interview des acteurs culturels a gagné importance puis que cette participation est considéré central pour le management de la preservation du patrimoine culturel. De maniére general les résultats du travail signalent l’importance de l’intégration des niveaux intitucionnels – féderale, de l’état et minicipale – chargés de la protétion du patrimoine culturel aussi que l’importance de la participation efetive de la société civile. Mots-clés: Patrimoine culturel; Preservation; Management LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – 1º Modelo de Intervenção sobre o Patrimônio Urbano. 28 Figura 2 – 2º e 3º Modelos de Intervenção sobre o Patrimônio Urbano. 29 Figura 3 – 4º Modelo de Intervenção sobre o Patrimônio Urbano. 30 Figura 4 – Quadro comparativo da ampliação da recepção/consumo e dos beneficiários nos quatro modelos de intervenção sobre o Patrimônio Urbano. Gráfico 1 – Municípios participantes do ICMS Patrimônio Cultural (1996-2013). 31 77 Gráfico 2 – Valores repassados pelo ICMS no critério patrimônio cultural. 127 Gráfico 3 – Valores repassados pelo ICMS no critério patrimônio cultural. 139 Quadro 1 – Resoluções e Deliberações Normativas (1996-2012). 63 Quadro 2 – Resoluções e Deliberações Normativas (1995-2005). 65 Tabela 1 – Pesos de distribuição do ICMS aos municípios – Minas Gerais, 1996-2005. 55 Tabela 2 – Órgão responsável pela Cultura em municípios de Minas Gerais - 2005. 122 Tabela 3 – Período de instituição de leis de proteção do patrimônio cultural pelos municípios mineiros. 122 Tabela 4 – Pontuação ICMS Patrimônio Cultural. 126 Tabela 5 – Valores repassados pelo ICMS no critério patrimônio cultural. 139 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO. 10 1.1 A pesquisa. 12 2 A PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA. 22 2.1 O tombamento. 33 2.2 Inventário e registro dos Bens Culturais de Natureza Imaterial. 37 2.3 Chancela da Paisagem Cultural Brasileira. 41 3 A PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL EM MINAS GERAIS - O ICMS PATRIMÔNIO CULTURAL, UM DOS INSTRUMENTOS. 48 4 OS AGENTES NA PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL. 93 4.1 A gestão do Patrimônio Cultural. 95 4.2 Estudo de casos. 124 4.2.1 Administração Municipal – Ouro Preto e Matozinhos. 125 4.2.2 Conselhos de Patrimônio – Mariana, Santa Luzia e São João Del Rei. 140 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS. 151 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. 157 ANEXOS Anexo 1 Lei Nº 18.030, de 12 de Janeiro de 2009. 163 Anexo 2 Decreto lei N° 25, de 30 de Novembro de 1937. 179 Anexo 3 Decreto lei N° 3.551, de 04 de Agosto de 2000. 186 Anexo 4 Portaria N° 127 de 30 de Abril de 2009. 189 Anexo 5 Ouro Preto e Matozinhos – Dados. 193 Anexo 6 Entrevista Anasthácia da Silva Silveira. 195 Anexo 7 Entrevista Carlos Henrique Rangel. 200 Anexo 8 Entrevista Catherine Fonseca Horta Salgarello. 212 Anexo 9 Entrevista Debora da Costa Queiroz. 219 Anexo 10 Entrevista Flávio de Lemos Carsalade. 229 Anexo 11 Entrevista José Maurício de Carvalho. 234 Anexo 12 Entrevista Leonardo Barci Castriota. 237 Anexo 13 Entrevista Leonardo Bernardo Maciel. 242 Anexo 14 Entrevista Marilia Palhares Machado. 244 Anexo 15 Entrevista Michelle Abreu Arroyo. 258 Anexo 16 Entrevista com Olga Tukoff. 267 Anexo 17 Entrevista com Tatiana da Silva Gomes. 269 10 1 INTRODUÇÃO O estudo do tema patrimônio cultural deve ser considerado relevante, não somente pelos objetos materiais ou imateriais que o constituem, mas principalmente por se constituir, nas palavras de Françoise Choay, “num elemento revelador, negligenciado, mas brilhante, de uma condição da sociedade e das questões que ela encerra”1. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, no artigo 216, faz a opção de empregar o termo patrimônio cultural, em substituição ao termo patrimônio histórico e artístico que era o utilizado na legislação internacional acerca do assunto desde o século XIX. Essa alteração do termo utilizado caracteriza a superação da consideração exclusiva da dimensão histórica do patrimônio “em favor de uma concepção abrangente de todas as expressões simbólicas da memória coletivas, constituídas da identidade de um lugar, uma região e uma comunidade”2, entrando em consonância com a concepção antropológica de cultural. Ainda na década de 1990 é introduzido o termo paisagem cultural, que combina os aspectos materiais e imateriais do conceito de patrimônio, valorizando interrelações entre o homem e o meio ambiente, entre o natural e o cultural, entre os componentes materiais e imateriais. Num outro ponto de vista, o estudo da gestão da preservação do patrimônio cultural pode também revelar a forma que um povo – sejam o poder institucional, seja a comunidade – encara a relevância do patrimônio cultural na constituição da identidade da cultural local. Ao longo dos tempos e nas diferentes culturas, a definição do que se denomina patrimônio histórico apresentou e apresenta modificações. Choay cita como exemplo dessas modificações o que ocorreu com o patrimônio histórico representado pelas edificações. Em 1837, a primeira Comissão dos Monumentos Históricos estabeleceu três categorias de monumentos: edifícios remanescentes da Antiguidade, edifícios religiosos da Idade Média e alguns castelos. Essas categorias permaneceram basicamente as mesmas até logo depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). 1 CHOAY, 2006, p.12. 2 RODRIGUES, Franscico Luciano Lima. Conceito de Patrimônio Cultural no Brasil: do Conde de Galvéias à Constituição Federal de 1988. In: MARTINS, 2006, p. 12. 11 A partir daí, todas as formas de construir e todas as categorias de edifícios foram anexadas ao rol de edificações de caráter histórico. Passaram a serem valorizadas outras tipologias que não as monumentais, como a arquitetura vernacular3. Dessa ampliação das tipologias a serem conservadas resulta um foco nos conjuntos urbanos e no tecido urbano, que nas palavras de Monica Starling, “oferecem o testemunho de uma civilização particular ou de uma fase representativa da história”.4 Na questão cronológica da identificação do que se considerava como patrimônio histórico cabe ressaltar que, até a década de 1960, Choay destaca que, o que se considerava como patrimônio histórico, não ultrapassava o limite do século XIX. A autora cita como exemplo de perdas irreparáveis resultantes dessa limitação cronológica “o desaparecimento da Maison du Peuple (1896), obra prima de Horta, demolida em 1968; e os franceses, Les Halles, de Baltrand, destruído em 1970, apesar dos vigorosos protestos que se levantaram em toda a França e no mundo inteiro”.5 Por fim, a noção de monumentos históricos e de práticas de conservação, inicialmente circunscrita à Europa, se expande para além desse universo geográfico. Se na primeira Conferencia Internacional para a Conservação de Monumentos Históricos, que aconteceu em Atenas, em 1931, participaram somente países europeus, na Convenção do Patrimônio Mundial, em 1972, participaram oitenta e cinco países dos cinco continentes. Nesse sentido, Choay destaca que “a tripla extensão – tipológica, cronológica e geográfica – dos bens patrimoniais é acompanhada pelo crescimento exponencial do seu público”.6 A preservação do patrimônio cultural se articula de forma diferenciada em diferentes contextos nacionais, mas as políticas sempre têm em comum o fato de trabalhar com “a dialética do lembrar-esquecer: para criar uma memória nacional privilegiam 3 O termo vernacular é utilizado para se referir à arquitetura que emprega materiais e técnicas da região onde a obra é construída. 4 STARLING, 2011a, p. 34. 5 CHOAY, 2006, p.13. 6 Ibidem, p.15. 12 certos aspectos em detrimento de outros, iluminam-se certos momentos da história, enquanto outros permanecem na obscuridade”.7 Como exemplos dessas formas diferenciadas de se articular a preservação do patrimônio em diversos contextos nacionais podemos citar o caso do países anglosaxônicos: “diferentemente dos países latino-americanos, onde o Estado vai ter um papel preponderante, nos Estados Unidos e nos países anglo-saxônicos em geral, vamos encontrar o protagonismo, desde os primórdios, na sociedade civil organizada”.8 No Brasil, ao contrário, a articulação da preservação do patrimônio começou por iniciativa do Estado – a busca da identidade nacional fez com que o Estado se envolvesse na questão da preservação do patrimônio. Um grupo de intelectuais modernistas foram os responsáveis pela elaboração e implementação das políticas de preservação. Cabe ressaltar que “os modernistas brasileiros desenvolveram uma peculiar relação com a tradição, recusando a ideia do rompimento radical com o passado”9 e, justamente por isso, a busca da identidade nacional se fez através da busca da identificação das raízes da civilização brasileira, identificando no barroco a síntese da cultura genuinamente nacional, cultura essa “esboçada por uma sociedade no interior do país, que, isolada retrabalhara à sua maneira as diversas influências culturais”10. Nesse sentido, a preservação do acervo colonial passa a ser vista como essencial para o processo de construção da identidade nacional. 1.1 A Pesquisa Justamente por essa origem da preservação do patrimônio cultural ligada ao Estado, quando pensamos no tema preservação do patrimônio cultural logo vem à mente a ideia das cidades setecentistas mineiras, seus casarões, suas igrejas e os órgãos de 7 CASTRIOTA, 2009, p. 65. 8 CASTRIOTA, 2009, p. 65. 9 Ibidem, p. 71. 10 Ibidem, p. 71. 13 preservação, IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a nível federal e IEPHA _Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico, ou seja, pensamos no período colonial, no patrimônio material e nos agentes estatais envolvidos na temática da preservação do patrimônio cultural. Ao longo desse estudo, no entanto, vamos perceber que essa temática é muito mais ampla que isso, seja pela abrangência do conceito de patrimônio cultural, seja pela presença de outros atores sociais, além dos órgãos de preservação, no processo de preservação do patrimônio cultural. Neste estudo o enfoque será nos atores sociais de alguma forma envolvidos na preservação do patrimônio cultural: os órgãos de preservação do patrimônio, os profissionais Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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