Avaliação econômica de tecnologias sociais aplicadas à promoção de saúde: abastecimento de água por sistema Sodis em comunidades ribeirinhas da Amazônia.

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TEMAS LIVRES FREE THEMES Avaliação econômica de tecnologias sociais aplicadas à promoção de saúde: abastecimento de água por sistema Sodis em comunidades ribeirinhas da Amazônia Economic evaluation of social technologies applied to health promotion: water supply by the SODIS System in riverside communities of the Brazilian Amazon 2119 Marco Aurélio Arbage Lobo 1 Dula Maria Bento de Lima 1 Cezarina Maria Nobre Souza 2 Waddle Almeida Nascimento 2 Leiliane Cristina Cardoso Araújo 2 Neucy Barreto dos Santos 2 1 Programa de PósGraduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente Urbano, Universidade da Amazônia (UNAMA). Av. Alcindo Cacela 287, Umarizal. 66060-902 Belém PA. lobo2502@yahoo.com.br 2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará. Abstract The so-called social technologies have been widely used in many places around the world as a viable alternative for low-income populations to gain access to opportunities for employment and income and other aspects related to quality of life, including basic sanitation. This paper conducts a cost-benefit analysis of using a low cost technology for drinking water used in several countries, namely the SODIS system. The study was conducted in riverside communities living in the island area of Belem municipality, located in the Brazilian Amazon. Data were collected through questionnaires answered by families living on three islands: Jutuba, Nova and Urubuoca. The results were positive, considering the cost-benefit analysis of the project, which demonstrates the economic viability of using the SODIS system in the situation investigated. Key words Low cost technology, Water supply, Health promotion, Cost-benefit analysis Resumo As chamadas tecnologias sociais vêm sendo largamente usadas em muitos lugares do mundo como alternativa viável para que populações de baixa renda tenham acesso a oportunidades de ocupação e renda e outros aspectos relacionados à qualidade de vida, inclusive o saneamento básico. O presente trabalho realiza uma avaliação custo-benefício do uso de uma tecnologia de baixo custo para abastecimento de água potável utilizada em vários países, o sistema SODIS. O estudo foi realizado em comunidades ribeirinhas que vivem na área insular do município de Belém (PA), localizado na Amazônia brasileira. Os dados foram obtidos por meio de questionários respondidos por famílias moradoras de três ilhas: Jutuba, Nova e Urubuoca. Os resultados mostraram-se positivos, considerando a análise de custo-benefício do projeto, o que comprova a viabilidade econômica do uso do sistema SODIS na situação investigada. Palavras-chave Tecnologia de baixo custo, Abastecimento de água, Promoção da saúde, Análise custo-benefício 2120 Lobo MAA et al. Introdução O desenvolvimento econômico foi tradicionalmente visto pelas sociedades de muitos países não desenvolvidos como o caminho mais rápido para melhorar as condições materiais de vida dos seus povos. Ainda que esse objetivo tenha sido alcançado para uma parcela da população desses países, maior ou menor, conforme o lugar, uma expressiva parte dos seus habitantes não usufruiu dos benefícios trazidos pelo desenvolvimento. Essa população permaneceu vivendo em condições bastante adversas, tanto no campo quanto na cidade, sendo privada, muitas vezes, de requisitos básicos para uma vida adequada. As razões para isso são complexas e diversas. Uma delas é a incapacidade de acesso dessa massa de excluídos às tecnologias convencionalmente aplicadas no processo produtivo capitalista. Essa incapacidade pode se dar tanto pela falta de acesso à tecnologia para o processo produtivo, quanto, na esfera do consumo, pela impossibilidade de adquirir os bens e serviços oferecidos pelas empresas. Nesse contexto, os estudos sobre tecnologia e sociedade vêm ganhando importância crescente no debate sobre o desenvolvimento econômico e social, especialmente no sentido da viabilização de novas possibilidades tecnológicas voltadas à melhoria das condições de vida dos grupos mais vulneráveis da população. Nesse campo de estudos, o conceito de tecnologias sociais (TS) começou a ganhar corpo nas discussões sobre o tema. Um dos conceitos de TS mais aceitos atualmente é o relacionado a “produtos, técnicas ou metodologias replicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social”1. As TS apresentam as seguintes características2: adaptação a produtores e consumidores de baixa renda; negação das formas de controle presentes na produção capitalista; objetivo prioritário é a satisfação das necessidades humanas (ênfase no valor de uso e não no valor de troca); incentivo ao potencial e à criatividade de produtores e usuários; viabilidade econômica a formas alternativas de organização produtiva, como cooperativas populares, assentamentos de reforma agrária e agricultura familiar e pequenas empresas. O conceito de tecnologia social é o resultado de um processo evolutivo cujo marco inicial pode ser encontrado na Índia do final século XIX, através de iniciativas voltadas ao aperfeiçoamento das tecnologias dos produtores tradicionais, particularmente a roca de fiar manual, como estratégia de luta contra a entrada dos produtos industrializados britânicos e, num contexto mais geral, contra o próprio colonialismo. Na década de 1920, Mahatma Ghandi participou ativamente desse processo, no âmbito do movimento de independência hindu3. No ocidente, o conceito ganhou grande difusão com Ernst Friedrich Schumacher, um economista nascido na Alemanha, mas com carreira profissional desenvolvida na Inglaterra, com a obra “O Negócio é Ser Pequeno”, publicado no Brasil em 1983. Nesse processo evolutivo, destaca-se também a discussão sobre o tema das “tecnologias apropriadas”, nas décadas de 1960 e 1980, além de diversos outros que conceitos que precederam a noção de tecnologias sociais1. É importante ressaltar que as TS não estão comprometidas apenas com a inclusão social, mas também com o ideário da sustentabilidade ambiental4,5. No conjunto de iniciativas relacionadas à inclusão social e à sustentabilidade ambiental, encontra-se a reciclagem e a reutilização de resíduos sólidos6, além do abastecimento de água potável7. Apesar de ser um tema com amplo debate nacional e internacional, ainda são poucos os estudos relacionados à avaliação econômica das iniciativas de TS. O presente artigo tem como objetivo realizar uma avaliação econômica do projeto “Água em Casa, Limpa e Saudável”, realizado pela organização não governamental Cáritas de Belém, ligada à Igreja Católica, em moradias ribeirinhas de baixa renda, localizadas na área insular do município de Belém: as ilhas Nova, Jutuba e Urubuoca. Este trabalho é parte de um esforço de pesquisa mais amplo, que envolveu diversos pesquisadores e abrangeu, além do aspecto econômico, mais cinco eixos de investigação: epidemiológico; antropológico; tecnológico (avaliação das etapas de planejamento, implantação e gestão da tecnologia e da qualidade da água produzida pela tecnologia implantada); efetividade para a promoção da saúde; e contribuição para o alcance dos Objetivos do Milênio (ODM)8. Área de estudo A despeito de ter uma taxa de urbanização bastante elevada – 99,14%, segundo o Censo Demográfico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)9 –, a capital paraense possui uma área insular de expressiva extensão territorial onde reside grande parte da população rural belenense, quase sempre em locais banhados por cursos d’água. O IBGE não disponibiliza ao público informações censitárias de cada uma das três ilhas onde o projeto foi implantado. O dado com menor nível de desagregação é o setor censitário em que elas se situam, que também engloba outras localidades da área insular de Belém com características físicas e socioeconômicas semelhantes. O setor censitário em questão contava com 1.045 habitantes em 2010, dos quais 568 eram homens e 477 mulheres, que residiam em 281 domicílios particulares permanentes. Ainda que sejam moradores com acesso direto a grande quantidade de água doce – as três ilhas situam-se na Baía do Guajará, que é vizinha à grande Baía do Marajó –, o aproveitamento dessa água para consumo humano é inviável sem o uso de tecnologia de alto custo, em razão da contaminação pelo lançamento in natura de esgotos provenientes do continente, onde está a quase totalidade da área urbana do município de Belém. O uso de aquíferos subterrâneos locais também não é viável, uma vez que o solo sofre inundações diárias em decorrência do movimento das marés, formando uma camada de lama na maior parte do ano. Somente nos curtos períodos de chuvas menos intensas e frequentes e de marés mais baixas é que o solo se torna mais firme. Isso compromete a qualidade dos mananciais situados em menores profundidades, justamente aqueles que possuem viabilidade econô- mica para serem utilizados em razão da baixa renda da população local. Dessa forma, a relevância social da iniciativa é evidente, tendo em vista o papel fundamental da água para a promoção da saúde humana. Considerando a já citada limitação dos dados existentes sobre as ilhas em questão, foram realizadas pesquisas de campo adicionais para identificar as características do perfil demográfico, habitacional, educacional, socioeconômico, epidemiológico e de saneamento de cada uma das ilhas, que está resumido na Tabela 1. A ocupação mais comum em ambos os sexos é a de pescador, com exceção da ilha de Jutuba, onde predomina entre as mulheres a função de dona de casa. Outras características importantes são o longo tempo de moradia no local, a baixa renda, a reduzida escolaridade e as condições deficientes de saneamento básico. Os dados mostram que se trata de uma população rural tipicamente encontrada nas áreas ribeirinhas da Amazônia, ainda que residente num município altamente urbanizado como a capital paraense. Exames clínicos realizados na população local detectaram dor abdominal (registrada em 28,30% dos pacientes), diarreia (em 7,55%) e palidez cutâneo-mucosa (em 16,98%), o que revela uma possível ocorrência de enteroparasitismo em função das precárias condições de saneamento básico. Também se promoveram exames laboratoriais, que identificaram os seguintes parasitas pa- Tabela 1. Principais indicadores sociais das ilhas Jutuba, Nova e Urubuoca8,10 JUTUBA NOVA URUBUOCA População (habitantes) Gênero predominante Faixas etárias predominantes por sexo *(anos) Ocupação predominante por sexo Faixa de renda familiar predominante (salário mínimo) Tempo médio de residência no domicílio (anos) Nível de escolaridade predominante Agravos prevalentes ** Destinação dos dejetos Destinação do lixo 182 Masculino (58%) 15 a 36 (homens) 15 a 36 (mulheres) Dona de casa (46%) pescador (78%) Menos de 1 (62%) 25,75 Fundamental (77%) Hipertensão arterial Fossa negra (58 %) Queima (81%) 45 Masculino (55%) 5 a 25 (homens) 15 a 36 (mulheres) Pescadora (46%) pescador (80%) 2 a 3 (38%) 136 Feminino (60%) 5 a 10 e 15 a 25 (homens) 1 a 4 e 15 a 25 (mulheres) Pescadora (32%) pescador (76%) 1 a 2 (72%) 29,11 24,68 Fundamental (79%) Fundamental (82%) Hipertensão arterial Hipertensão arterial Fossa negra (100%) Fossa negra (81%) Queima (100%) Queima (91%) * Percentuais correlatos não informados na fonte de consulta. **Percentual agregado para as três ilhas : 5%. 2121 Ciência & Saúde Coletiva, 18(7):2119-2127, 2013 2122 Lobo MAA et al. togênicos do organismo humano: a Giardia lamblia, o Ascaris lumbricoides, o Tricocephalus trichiurus e a Entamoeba histolytica. Esses parasitas são responsáveis por 115 ocorrências de parasitoses, o que significa dizer que, dos 156 moradores examinados, os quais estão na faixa de zero a 77 anos de idade, mais de 73% estão contaminados. As parasitoses com maior incidência foram a giardíase (53,91%), a amebíase (30,43%) e a ascaridíase (12,17%). Tais resultados constatam, mais uma vez, os efeitos danosos do saneamento básico deficiente sobre a saúde humana8,10. Antes da implantação do sistema SODIS, os moradores das ilhas estudadas obtinham a água potável para o seu consumo em mananciais situados em ilhas vizinhas, o que os obrigava a realizar frequentes viagens de barco a estas, envolvendo uma ou duas pessoas da família em cada viagem. captadas em calhas instaladas no telhado das casas e armazenadas em reservatórios de fibra de vidro com capacidade para mil litros. Por meio de torneira existente nas caixas, a água captada é envasada em garrafas plásticas (do tipo PET) pintadas de preto à meia cana (Figura 1). Essas garrafas são expostas ao sol por seis horas consecutivas com o objetivo de eliminar os organismos patogênicos existentes. Trata-se de uma tecnologia simples, mas que requer certos cuidados para seu bom e correto funcionamento. Por exemplo, para evitar a penetração de detritos no reservatório, deve-se manter os telhados e as calhas sempre limpos, livres de folhas, dejetos de pássaros, etc., e descartar a primeira água coletada; deve-se ainda manter as garrafas plásticas sempre limpas e sob exposição direta ao sol durante o tempo necessário à desinfecção. Características do projeto O projeto em questão representa uma experiência que usa uma tecnologia social para viabilizar o abastecimento de água em comunidades de baixa renda. Seu objetivo foi disponibilizar água potável para a população local por meio de um sistema de captação e tratamento de água de chuva, denominado SODIS (acrônimo de Solar Water Disinfection). O sistema SODIS é uma tecnologia empregada para desinfecção de água por meio da radiação solar, referendada por órgãos internacionais como a Organização Mundial de Saúde11 e o Fundo das Nações Unidas para a Infância12. Essa tecnologia utiliza duas componentes da radiação: os raios UV-A (responsáveis pela modificação do DNA dos microrganismos) e os infravermelhos (que promovem a elevação da temperatura da água para aniquilar os microrganismos sensíveis ao aquecimento). Quando corretamente implantado, trata-se de um sistema que pode prover, de forma segura, a demanda por água potável de famílias de baixa renda, tanto no meio rural quanto no urbano13. No sítio do Swiss Federal Institute of Aquatic Science and Technology, na web14, encontram-se mencionados diversos estudos internacionais que avaliam vários aspectos do método. No caso das ilhas aqui estudadas, como já mencionado, não há possibilidade de uso das águas superficiais e nem das subterrâneas. Então, o único manancial disponível são as águas meteóricas (provenientes da chuva). Estas são Materiais e métodos A metodologia consistiu em mensurar a relação entre os custos que envolveram a implantação do projeto “Água em Casa, Limpa e Saudável” e a estimativa monetária dos seus benefícios às famílias contempladas, a fim de medir sua eficiência e verificar se os benefícios decorrentes compensam os custos envolvidos. Tomou-se como ponto de partida a proposta metodológica apresentada por trabalho desenvolvido pelo Ministério da Saúde e a Organização Pan-americana de Saúde15, para quem um Figura 1. Sistema SODIS implantado16 dos objetivos da avaliação econômica é verificar “[.] se os recursos sociais estão sendo bem aplicados, [.] no sentido de que a sociedade recebe em benefícios mais do que os recursos que sacrifica no empreendimento”. Considerando a indisponibilidade de dados oficiais, não foi possível investigar todos os aspectos apresentados na metodologia citada, como, por exemplo, a provável redução de despesas do sistema oficial de saúde no tratamento de doenças de veiculação hídrica (denominados pela fonte citada de “custos institucionais”). Com isso, a avaliação do impacto econômico, aqui apresentada, limitou-se aos custos diretos e indiretos das famílias, que foram evitados com a viabilização do novo sistema, e aos dispêndios decorrentes da implantação do mesmo. O levantamento das informações realizou-se mediante pesquisa de campo. Foram respondidos 22 questionários por moradores da ilha de Jutuba, aplicados no dia 12/5/2011; nove da ilha de Urubuoca e oito da ilha Nova, respondidos em 17/6/2011, totalizando 39 questionários. O questionário teve o propósito de levantar ou imputar custos relacionados aos três componentes investigados das despesas familiares relacionadas ao abastecimento de água pelo antigo sistema: para obter a água; aqueles oriundos da incidência de doenças de veiculação hídrica; e os provenientes de óbitos relacionados aos mesmos agravos. Dos questionários respondidos, três foram descartados por apresentarem informações incompletas, sendo efetivamente considerados 36 nesta pesquisa. As entrevistas foram desenvolvidas com moradores residentes em diferentes domicílios da área de estudos, com idade igual ou superior a 18 anos, por meio de seleção não aleatória. O levantamento de campo somente se concretizou após a aprovação dos aspectos éticos da pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisas em Seres Humanos do Instituto Evandro Chagas. Os resultados do trabalho não têm representatividade estatística em razão do número de casos e do método de seleção dos respondentes, o que confere um caráter exploratório à pesquisa. Pode-se obter, contudo, uma razoável indicação dos custos envolvidos e benefícios estimados da iniciativa, tendo em vista que essa amostra responde por 38% do total dos 94 domicílios onde houve a implantação do sistema SODIS. Em relação aos custos de implantação dos sistemas SODIS nas residências, foram consultados notas fiscais e recibos relativos às despesas decorrentes da aquisição de material hidráulico e madeira e da contratação de mão-de-obra, realizadas pela Cáritas, para a implantação da tecnologia. Resultados Custos das famílias O primeiro item considerado das despesas familiares, a obtenção da água potável em ilhas vizinhas, teve três componentes: 1) o pagamento direto pela água; 2) os custos relativos ao específico para essa finalidade, sendo utilizado o método da membrana filtrante. As metodologias utilizadas nas análises físico-químicas e microbiológicas foram as preconizadas no Standard Methods for the Examination ofWater andWastewater, publicação da American Public Health Association – APHA (1998). Os dados coletados dos mananciais de superfícies e subterrâneos possibilitaram montar uma pequena série com as principais variáveis das águas analisadas e, foram comparadas com os Valores Máximos Permitidos (VMP) preconizados pela Portaria n.º 518/2004 do Ministério da Saúde (BRASIL, 2004), que estabelece os procedimentos e responsabilidades relativos ao controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade. LITOLOGIA LOCAL E CARACTERÍSTICAS CONSTRUTIVAS DO POÇO TUBULAR A litologia local inicialmente apresenta uma camada vegetal com espessura de 0,80 metro, seguida de argilas cinza-escuras com marcante presença de matéria orgânica até a profundidade de 26 metros. Na seqüência apresenta siltes e areia fina de cor cinza-escura até 80 metros de profundidade, onde encontra uma argila compacta com 2 metros de espessura. A partir dos 82 metros aparecem os aqüíferos, com ocorrência de areias de coloração amarela e branca, friáveis, heterogêneas de granulação média e de boa importância hidrogeológica, sendo intercaladas por argilas até 130 metros. O poço tubular foi construído em 1999, atende a mais quatro comunidades vizinhas e suas principais características construtivas são: „ a profundidade da sondagem foi de 130 metros no diâmetro de 12 1/4"; Figura 2 - Perfil construtivo do poço tubular da comunidade de Santo Antônio. Município de Urucará - AM. Brasil. 3 1 6 VOL. 36(3) 2006: 313 - 320 „ AZEVEDO USO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA EM SISTEMA DE ABASTECIMENTO PÚBLICO DE COMUNIDADES NA VÁRZEA DA AMAZÔNIA CENTRAL „ no revestimento foram utilizados tubos de PVC (Polyvinyl chloride ou Policloreto de vinila) aditivado reforçado no diâmetro de 8". O filtro utilizado também foi de PVC aditivado no diâmetro de 8" e com abertura das ranhuras de 0,5 mm. Os filtros permitem a passagem da água subterrânea para o poço e o posicionamento deles ocorreu nos intervalos de 82 a 90, de 96 a 116 e de 118 a 122 metros; „ como pré-filtro, foi utilizado seixo selecionado com granulometria de 3 a 5 mm e constituição mineralógica composta por 95% de material quartzoso de grãos de morfologia subarredondados a arredondados. „ a cimentação (previne riscos de contaminação ou mineralização isolando as camadas julgadas indesejadas para explotação de água subterrânea) não ultrapassou a 20 metros de profundidade; „ a laje de proteção sanitária foi construída no nível do terreno, com espessura 15cm e área de 2,0m2; „ a boca do poço ficou 1,7 metro acima do nível do terreno, ou seja, mais de 0,5 metro acima da cota de maior cheia ocorrida na localidade. Externamente foi revestida com concreto para resistir às tensões provocadas por banzeiro e por possíveis choques com troncos de árvores durante as cheias; A figura 2 mostra o perfil construtivo do poço tubular e detalha a litologia local. Sobre o poço foi construído um abrigo de proteção dos equipamentos elétricos, com laje de piso construída a 1,2 metro acima do nível do terreno. As figuras 3 e 4 mostram o poço na seca (vazante) e na cheia respectivamente; RESULTADOS E DISCUSSÃO MANANCIAL DE SUPERFÍCIE: SEU APROVEITAMENTO PARA CONSUMO HUMANO Na área estudada, ocorrem diversos mananciais de superfície como paranás, igarapés, lagos, além do próprio rio Amazonas. O aproveitamento do manancial de superfície como fonte de suprimento de água para abastecimento público na área de várzea é dificultado por pressões ambientais importantes como: elevada flutuação no nível das águas (superior a dez metros), surgimento de mosaicos formados por praias e bancos de areia, quedas de barrancos (fenômeno da terra caída), além da exigência do tratamento químico da água. Segundo Richter & Azevedo Netto (1991), a decisão mais importante para um projeto de abastecimento de água é a definição do manancial a ser utilizado como fonte de suprimento. Sempre que houver duas ou mais fontes possíveis, a sua seleção deve se apoiar em estudos amplos, que não se restrinjam exclusivamente a aspectos econômico-financeiros. A qualidade da água, as tendências futuras relativas à sua preservação e as condições de segurança devem, também, ser pesadas. A tabela 1 retrata as características físico-químicas das águas superficiais do rio Amazonas (principal manancial de superfície da comunidade) em dois períodos distintos (cheia máxima e seca ou vazante). Comparando esses resultados com os estudos de caracterização hidroquímica do rio Amazonas na vazante, realizados por Santos & Botelho (1988), em frente à cidade de Parintins – AM (distante 100 km jusante da área estudada), com água coletada no meio do rio a 30 cm de profundidade mostraram a cor com 51 mg/Pt/L, o pH 6,39, a condutividade 48,65 µS.cm-1, o cloro em forma de cloretos 1,7 mg/L, o ferro total aparece com 1,82 mg/L e o manganês 0,07 mg/L. Verifica-se que esses valores estão coerentes aos descritos na Tabela 1, exceto a cor aparente expressa em unidade de Hazen (mg/L Pt-Co) que apresentou um a grande discrepância nos dois períodos estudados. Em sistemas públicos de abastecimento de água, a cor é esteticamente indesejada para o consumidor, e pode ter origem mineral ou vegetal, causadas por substâncias metálicas como o ferro e o manganês (comuns nas águas do rio Amazonas), matérias húmicas, algas, plantas aquática e protozoários. Figura 3 – Abrigo de proteção para equipamentos elétricos do poço tubular na vazante. Comunidade de Santo Antônio. Município de Urucará - AM. Brasil. Figura 4 – Abrigo de proteção para equipamentos elétricos do poço tubular na cheia. Comunidade de Santo Antônio. Município de Urucará - AM. Brasil. 3 1 7 VOL. 36(3) 2006: 313 - 320 „ AZEVEDO USO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA EM SISTEMA DE ABASTECIMENTO PÚBLICO DE COMUNIDADES NA VÁRZEA DA AMAZÔNIA CENTRAL Tabela 1 - Características das águas do rio Amazonas. Estado do Amazonas. Brasil. Variável Cor aparente Unidade uH Data da coleta e nível das águas do rio Amazonas 24/06/2003 VMP (Cheia máxima) 20/11/2003 (Seca) 15 184 511 Turbidez uT 5 33 94 pH - 6 a 9,5 5,9 6,7 Condutividade μS.cm-1 - 50 66 Amônia mg/L NH3 1,5 0,3 0,4 Dureza Total mg/L CaCO3 500 24 26 Alumínio mg/L Al 0,2 0,01 0,05 Cobre mg/L Cu 0,2 0,02 0,03 Cloretos mg/L Cl 250 4,0 2,5 Ferro Total mg/L Fe 0,3 1,81 2,3 Manganês mg/L Mn 0,1 0,06 0,09 Nitratos mg/L N 10 nd (<0,01) 1 Nitritos mg/L N 1 nd (<0,001) nd (<0,001) Sulfato mg/L SO4 250 nr nr Zinco mg/L Zn 5 0,12 VMP = Valor Máximo Permissível pela Portaria n.º 518/2004 nd = Parâmetro com valor abaixo do limite de detecção do método nr = Parâmetro não realizado 0,3 É possível que a coleta realizada na margem do rio também tenha contribuído com o resultado elevado da cor aparente, pois estudos realizados por Furch & Junk (1997) no rio Solimões/ Amazonas, indicam haver uma grande diferença na característica físico-químicos da água, principalmente dos sólidos em suspensão que variam com a estação do ano, com a profundidade da coleta e com a distância ponto de coleta a margem. A turbidez é atribuída principalmente às partículas sólidas em suspensão (muito comum nas águas dos rios de várzea), sendo que na localidade ocorre um processo natural de erosão conhecido com “fenômeno da terra caída”. A turbidez foi expressa em unidade deTurbidez (Nefelométrica) e, sempre apresentou valores muito superiores aos valores máximos permissíveis pela Portaria n.º 518/2004. Na cheia máxima houve redução da condutividade elétrica e do pH, segundo Junk (1983), a água do rio Amazonas mostra uma condutividade elétrica entre 60 a 70 µS.cm-1/20 ºC, na várzea foram medidos valores entre 7 e acima de 700 µS.cm-1/20 ºC. Do mesmo modo varia o pH entre 4,5 perto da terra firme até acima de 8 durante o desenvolvimento de algas em grande quantidade nos lagos de várzea. Em relação aos metais, o ferro total apresentou nas duas análises valores superiores ao VMP da Portaria n.º 518/2004, já o manganês, o alumínio, o cobre e o zinco ficaram com valores inferiores aos limites estipulados na citada Portaria Os resultados das análises físico-químicas realizadas na água do rio Amazonas nesses dois períodos, confirmam que as mesmas são impróprias para o consumo humano em seu estado natural. Assim, por ocasião da escolha do manancial abastecedor da comunidade levou a desconsiderar-se o aproveitamento do manancial de superfície. QUALIDADE DA ÁGUA SUBTERRÂNEA A água subterrânea constitui-se uma importante fração dos recursos hídricos disponíveis. Apresenta normalmente opinião médica. Participaram treze profissionais à distância e cinco profissionais locais, totalizando onze especialidades. A equipe de saúde do NAPRA contou com 44 profissionais – oito formados e 36 estudantes de nove universidades diferentes, totalizando dezessete cursos. Foram realizadas, ainda, cinco aulas a distância para públicos diversos: . Duas sobre anti-inflamatórios com o Prof. Dr. Marcelo Mascará do ICB 1-USP para integrantes do NAPRA; . Uma sobre malária com o Dr. Franklin Si- mões do Centro de Telemedicina de Manaus; . Duas para estudantes da comunidade so- bre higiene básica com o Prof. Dr. Milton Yogi de São Paulo. A instalação desse sistema para telemedicina abre caminhos para uma série de outras melhorias nas comunidades ribeirinhas, como a ampliação do suporte a educadores locais –formando-os de forma constante e dialogando sobre as dificuldades cotidianas no processo de ensinoaprendizagem (teleducação) –, e a realização de reuniões para negociações de produtos florestais não madeireiros locais, inserindo esses produtos em outros mercados nacionais e internacionais. Além disso, a implantação de um sistema que funciona para a telemedicina pode funcionar também para a comunicação de crimes ambientais e monitoramento de indicadores de preservação da biodiversidade. Finalmente, a implementação desta ferramenta de comunicação, além de melhorar o atendimento à saúde, possibilitar diversas melhorias para as comunidades. Potencial inovador com marcas e diretrizes do participativo do SUS A utilização de um sistema tecnológico na promoção da saúde em regiões de difícil acesso se mostra promissora. Desenvolver tal sistema implica capacitar e integrar membros das comunidades para que continuem o trabalho, deixando de ser somente público-alvo. Além desta capacitação, a utilização dos recursos de áudio e vídeo possibilita a realização de aulas e palestras para a população, promovendo qualidade de vida, tornando-a protagonista de bons resultados. Um país de proporções continentais como o Brasil pode usufruir da tecnologia para comunicar-se de um extremo a outro. A atribuição da tecnologia em saúde garante maior abrangência e acesso, em lugares mais distantes, à saúde, edu- Discussão No Estado de Rondônia, existe uma grande dificuldade na assistência à saúde nas comunidades situadas em áreas geograficamente distantes. Esta assistência, muitas vezes, é baseada em centros urbanos, cuja demanda por atendimento especializado não justifica o custo da manutenção de profissionais e equipamentos específicos para a atenção médica terciária. No geral, essas comunidades contam somente com a assistência primária de saúde, oferecida pela rede pública através de unidades dotadas de profissionais generalistas em medicina, odontologia e enfermagem, além de agentes comunitários do PSF. Com o avanço das tecnologias de informação e telecomunicações, a possibilidade da inserção Ciência & Saúde Coletiva, 15(1):247-254, 2010 da telemedicina, como um dos instrumentos de acesso a populações isoladas, está cada vez mais próxima da realidade, possibilitando, além de outros benefícios, a expansão da assistência terciária em saúde. É imprescindível a continuidade do projeto, bem como a ampliação da sua praticidade, beneficiando ainda mais as comunidades ribeirinhas, por meio de novas políticas públicas que facilitem sua implantação e manutenção. Conclusão A aplicação da telemedicina na Amazônia encurta a distância geográfica no que se refere ao desenvolvimento sustentado de suas comunidades, melhorando a qualidade do atendimento e a efetividade de sistemas de saúde. Além disso, permite: . o contato direto e simultâneo com centros avançados em saúde; . a melhoria da orientação de suporte à vida frente a situações de risco; . a melhoria da resolubilidade do atendimento primário e secundário; . o acompanhamento de especialista, uma vez que o atendimento secundário é realizado apenas na zona urbana (Porto Velho-RO); . a prevenção em saúde, utilizando a teledu- cação e educação continuada favorecida pelos recursos audiovisuais. Desse modo, a implantação da telemedicina é uma alternativa para a melhor distribuição dos serviços de saúde, por que leva atendimento a quem necessita, reintegra à sociedade pessoas preteridas pelo isolamento geográfico, auxilia na difusão de informação, proporciona capacitação de moradores e futuros usuários do sistema, promove a prevenção em saúde e desenvolve, com isso, a responsabilidade da população para uma melhora da qualidade de vida da região. A telemedicina é uma ferramenta necessária para a complementar o sistema de saúde de regiões isoladas, uma vez que amplia a informação e o conhecimento, melhorando a saúde do individuo e da comunidade. 253 Colaboradores FSN Machado trabalhou na coordenação, atuação local na Amazônia, pesquisa e redação do texto. MAP Carvalho, ET Mendonça e A Mataresi colaboraram com a pesquisa, atuação local na Amazônia e redação do texto. LC Moraes trabalhou na pesquisa, metodologia e redação do texto. MS Yogi colaborou com o apoio técnico, desenho do sistema, orientação tecnológica e de pesquisa, atividades do sistema à distância (São Paulo). M Salazar idealizou o sistema e coordenou o projeto, participou da atuação local na Amazônia, sendo corresponsável pela logística, contratações e desenvolvimento das parcerias, redação de trechos e revisão final do presente artigo e HM Rigato foi um dos idealizadores do sistema e coordenador do projeto, participando da atuação local na Amazônia, sendo corresponsável pela logística, contratações e desenvolvimento das parcerias. Revisou o presente artigo. Todos os autores participaram ativamente das discussões para o planejamento, operação e resultados desta experiência. 254 Machado FSN et al. Agradecimentos Referências Em primeiro lugar, agradecemos à população da comunidade de Santa Catarina do baixo rio madeira (Porto Velho-RO), que confiou no projeto e nos recebeu com carinho, não poupando esforços para ajudar na implementação do sistema. A experiência com utilização da telemedicina para o diagnóstico de casos clínicos e de educação em saúde contou com apoio financeiro da Fundação Padre Albino (UNIFPA), da participação de alunos da Faculdade de Medicina de Catanduva (FAMECA) e Faculdade de Enfermagem de Catanduva (FEC), da disponibilização do corpo clínico dos hospitais Emilio Carlos e Hospital Escola Padre Albino. Além disso, contribuíram muito com sua experiência alguns médicos da Universidade Estadual do Amazonas, representantes do Conselho Federal de Medicina, integrantes do Pólo de Telemedicina da Amazônia baseado em Manaus. A empresa ITMS forneceu os equipamentos para a realização de eletrocardiograma de forma remota; a secretaria de saúde de Porto Velho autorizou a utilização dos postos de saúde locais; o IBAMA e Secretaria de Educação de Porto Velho deram apoio logístico. Agradecemos, ainda, a Telespazio, empresa contratada para o estabelecimento do link entre São Paulo, Manaus e a comunidade de Santa Catarina; a empresa GoDoctor, que prestou assistência e consultoria no dimensionamento da tecnologia, instalação e testes de software; além de uma rede de profissionais colaboradores que prestaram suporte remoto. Finalmente, agradecemos aos voluntários, profissionais e apoiadores que tornaram possível a atuação do NAPRA no ano de 2006. 1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão Estratégia e Participativa. Departamento de Apoio à Gestão Participativa. [acessado 2006 set 14]. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/sgp/ visualizar_texto.cfm?idtxt=22736 2. Mariotti ACH. Projeto NAPRA: núcleo de apoio à população ribeirinha da Amazônia X etapa. 2004. [acessado 2006 mar 17]. Disponível em: http:// www.napra.org.br 3. Núcleo de Apoio à População Ribeirinha da Amazônia. [acessado 2006 set 18]. Disponível em: http:/ /www.napra.org.br 4. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Sistema nacional de vigilância em saúde: relatório de situação: Rondônia/Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2006. 5. Secretaria do Meio Ambiente do Estado de Rondônia. Companhia de Tecnologia de Saneamento Básico. Considerações sobre o zoneamento socioeconômico-ecológico do Estado de Rondônia. Porto Velho. 2004 [acessado 2006 mar 17]. Disponível em: http:/ /www.rondonia.ro.gov.br/revistas/zoneamento 6. Seabra ALR, Pitta GBB, Gomes MAM. Telemedicina: uma proposta para assistência e educação continuada no Pólo Saúde da Família em Alagoas. [acessado 2006 set 18], Disponível em: http://www. ministerio.saude.bvs.br 7. Chao LW, Silveira PSP, Bohn GM. Discipline of telemedicine, Faculty of Medicine of the University of São Paulo, Brazil. [acessado 2006 set 14]. Disponível em: http://www.dim.fm.usp.br/telemed/postelem.php Artigo apresentado em 23/12/2006 Aprovado em 18/06/2007 Versão final apresentada em 19/06/2007
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