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O ensino do relevo: noções e propostas para uma didática da geomorfologia

Documento informativo

Universidade Federal de Minas Gerais Departamento de Geografia William Zanete Bertolini O ENSINO DO RELEVO: NOÇÕES E PROPOSTAS PARA UMA DIDÁTICA DA GEOMORFOLOGIA Minas Gerais - Brasil Abril – 2010 William Zanete Bertolini O ENSINO DO RELEVO: NOÇÕES E PROPOSTAS PARA UMA DIDÁTICA DA GEOMORFOLOGIA Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Geografia e Análise Ambiental. Orientadora: Profª. Drª Vilma Lúcia Macagnan Carvalho Belo Horizonte Departamento de Geografia da UFMG 2010 Comissão Examinadora ____________________________________ Professora Drª. Vilma Lúcia Macagnan Carvalho ____________________________________ Professor Drº. Roberto Célio Valadão ____________________________________ Professora Drª Carla Juscélia de Oliveira Souza ____________________________________ William Zanete Bertolini Belo Horizonte, ___ de ___________________ de _______ Resultado: ________________________________________________________________ AGRADECIMENTOS À professora Vilma que, muito solicitamente, me acolheu no mestrado e se dispôs a trilhar comigo os caminhos deste estudo. Também pela confiança em mim depositada nas oportunidades docentes que me ofereceu. Ao professor Roberto Valadão pelo apoio e diálogo sempre que precisei. Aos companheiros Alex Lima, Diego R. Macedo, Vladimir Diniz Ramos, Luis Felipe S. Cherem, Elizene Veloso, Bráulio M. Fonseca, Malena Nunes, Marcina Nunes, Fabiano Belém. RESUMO Esta dissertação tem como objeto de estudo o conhecimento do relevo na perspectiva do seu processo de ensino/aprendizagem em meio à geografia escolar. Tendo em vista que a organização e estruturação do conhecimento constituem-se em fatores fundamentais para a explicação e compreensão dos conteúdos, o principal objetivo desta pesquisa é apresentar propostas de abordagem do relevo aplicadas ao ensino deste conteúdo. Indiretamente, pode ser apontado como objetivo secundário a formação docente. Entretanto, ressalta-se que não se trata, em princípio, de simplesmente oferecer aos professores materiais para o ensino do relevo, mas, também e mais importante, de refletir sobre quais conhecimentos devem ser mobilizados ao se abordar o conhecimento do relevo tanto a partir da realidade e do contexto nos quais estão inseridos os alunos, quanto à luz dos conhecimentos geocientíficos. Dando-se conta de algumas conclusões apontadas em estudos nacionais e internacionais a respeito das dificuldades enfrentadas por professores e alunos com relação ao tratamento e construção do conhecimento em geociências, julga-se que esta pesquisa encontra respaldo não somente em função de uma demanda ainda pouco abordada pelas geociências no Brasil, mas, também, pela importância de um adequado conhecimento desse saber em virtude de sua aplicação no planejamento ambiental. Para alcançar o objetivo explicitado, a pesquisa visa analisar, discutir, aplicar e correlacionar a natureza conceitual do conhecimento geomorfológico no que se refere às suas formas, processos e condicionantes genéticos às noções necessárias que tanto alunos quanto professores devem ter para compreenderem, adequadamente, os conteúdos didáticos referentes ao relevo. Para viabilizar a construção dessas propostas foram delineadas as seguintes etapas metodológicas de subsídio à pesquisa: (i) revisão de literatura a respeito da formação dos conceitos científicos e sua importância no ensino do relevo; (ii) identificar as orientações dos PCN’s e CBC quanto à abordagem do relevo no ensino básico a fim de se ter um parâmetro para a elaboração da proposta aqui objetivada; (iii) elaborar representações gráficas do relevo (blocos-diagrama e fotografias) que demonstrem a diversidade de formas do relevo e auxiliem na compreensão dinâmica e multiescalar do mesmo; (iv) demonstrar as relações que podem ser estabelecidas entre a linguagem escrita e a linguagem gráfica no ensino/aprendizagem do relevo. Palavras-chave: Ensino de geomorfologia – Educação científica - Geografia RÉSUMÉ Cette dissertation a comme objectif d’étude la connaissance du relief dans la perspective de son procès d’enseignement/apprentissage au milieu de la géographie scolaire. En tenant compte que l’organisation et la structuration de la connaissance qui constituent des facteurs fondamentaux pour l’explication et la compréhension des contenus. Le principal but de cette recherche est la construction de propositions d’approche du relief liées à l’enseignement de ce contenu. Cependant, on souligne qu’il ne s’agit pas, en principe, simplement d’offrir aux professeurs des matériels pour l’enseignement du relief, mais aussi encore plus important, de réfléchir sur les connaissances qui doivent être mobilisées. Quant à l’approche de la connaissance du relief, à partir de la réalité et du contexte qu’on trouve les élèves comme la lumière des connaissances géoscientifiques. En tenant compte de certaines conclusions pointées dans quelques études nationales et internationales sur les difficultés qui font face aux professeurs et aux élèves par rapport à l’approche et à la construction de la connaissance en géosciences, on juge cette recherche, on ne la justifie pas seulement en fonction d’une demande peu approche par la géosciences au Brésil mais aussi, par l’importance d’une connaissance juste de ce savoir, en fonction de son rôle à l’aménagement de l’environnement. Pour atteindre le but explicité, cette recherche analyse, dispute, applique la nature conceptuelle de la connaissance géomorphologique à partir de ses formes, ses procès et ses conditionnements génétiques aux notions nécessaires que les professeurs et les élèves doivent avoir pour comprendre les contenus didactiques reportés au relief. Pour rendre viable la construction de ces propositions on a fait schéma des étapes méthodologiques suivantes : (I) la révision de la littérature scientifique par rapport à la formation de concepts scientifiques et son importance dans l’enseignement du relief; (II) l’identification des orientations du PCN’s et CBC quant à l’approche du relief dans l’école basique afin d’avoir un paramètre pour l’élaboration de ce propos; (III) l’ élaboration et l’utilisation des représentations graphiques du relief (photographies, blocdiagrammes) qui démontrent la diversité morphologique du relief terrestre et qui aident la comphrénsion dynamique et multi-escalier de ceci; (IV) la démonstration des relations qui peuvent être établies entre la langue écrite et la langue graphique à la réprésentation du relief. Mots-Clés: Enseignement de géomorphologie – Education scientifique - Géographie LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 – Esquematização da Paisagem no Contexto Ecológico . 2 FIGURA 2 – Diagrama Metodológico da Pesquisa . 10 FIGURA 3 – Conceitos e Ideias Envolvidos no Ensino, Aprendizagem e Pesquisa em Geomorfologia . 31 FIGURA 4 – Elementos Constituintes do Processo de Ensino/Aprendizagem em Sala de Aula . 32 FIGURA 5 – Condições Relativas à Aprendizagem Significativa . 32 FIGURA 6 – Depressão de Gouveia e Serra do Espinhaço . 56 FIGURA 7 – Planície e Depressão do Rio Doce . 59 FIGURA 8 – Diferentes Formatos ou Geometrias de Vertentes . 63 FIGURA 9 – Vertente Típica do Relevo de Mares de Morro do Sudeste Brasileiro: Município de Rio Casca (MG) . 64 FIGURA 10 – Relevo do contato entre o Planalto da Bacia do Paraná e o Planalto da Canastra: entre Uberaba e Luz (MG) . 64 FIGURA 11 – Vertente Constituída por Afloramento Rochoso no Topo, depósito de tálus na porção média e solo na parte baixa, junto ao nível d’água representado pelo Rio Doce. Município de Aimorés (MG) . 64 FIGURA 12 – Perfil de Relevo Mostrando Duas Vertentes e a Variação do Material que Compõe a Vertente Leste . 65 FIGURA 13 – Sequência de Eventos Responsáveis pela Formação da Lagoa Santa, no Município de Lagoa Santa (MG) . 70 FIGURA 14 – Cicatriz Erosiva e de Movimento de Massa na Porção Média/Superior da Vertente. Município de Rio Casca – MG . 71 FIGURA 15 – Cicatrizes Erosivas em outro flanco da mesma vertente vista na Figura 14 . . 71 FIGURA 16 – Cicatriz de Movimento de Massa Planar em Encosta Convexa no Município de Paula Cândido na Zona da Mata Mineira . 71 FIGURA 17 – As Transformações do Relevo ao Longo do Tempo . 72 FIGURA 18 – Ação Fluvial na Elaboração do Relevo . 77 FIGURA 19 – Ação Erosiva do Córrego Associada à Influência Humana no Meio Ambiente . 77 FIGURA 20 – O Relevo de Belo Horizonte no Contexto do Quadrilátero Ferrífero e seu Entorno . 79 FIGURA 21 – Corte Norte do Relevo de Minas Gerais . 82 FIGURA 22 – Corte Centro-Oeste do Relevo de Minas Gerais . 83 FIGURA 23 – Corte Centro-Leste do Relevo de Minas Gerais . 84 FIGURA 24 – Corte Norte-Sul do Relevo de Minas Gerais . 85 FIGURA 24A – Corte Norte-Sul do Relevo de Minas Gerais sob outro ângulo . 86 FIGURA 25 – Mapas de Unidades e Macrocompartimentos do Relevo de Minas Gerais 90 FIGURA 26 – Relevo e Planejamento Ambiental . 94 LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Reconhecendo o Relevo através de fotografias e croquis (I): Figura 6 . 57 Quadro 2 – Reconhecendo o Relevo através de fotografias e croquis (II): Figura 7 . 60 Quadro 3 – O Relevo e suas Vertentes: Figuras 9, 10 e 11 . 64 Quadro 4 – As Transformações do Relevo ao Longo do Tempo: Figuras 13, 14, 15, 16 e 17 . 74 Quadro 5 – A Compreensão da Relação da Escala Espacial com o Relevo: Figura 20 . 80 Quadro 6 – Cortes do Relevo de Minas Gerais em Bloco-diagrama: Figuras 21, 22, 23, 24 e 24A . 87 Quadro 7 – As Relações entre Macrocompartimentos e Unidades de Relevo: Figura 25 . 91 Quadro 8 – Relevo e Planejamento Ambiental: Figura 26 . 95 SUMÁRIO INTRODUÇÃO .1 ENCAMINHAMENTO METODOLÓGICO .9 CAPÍTULO 1 – O ENSINO DO RELEVO NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO CIENTÍFICA E GEOGRÁFICA .14 1.1 – O contexto do ensino de ciências na atualidade .14 1.2 – Breves notas sobre o ensino de geografia frente às necessidades de uma educação científica .16 1.2.1 – Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), os Conteúdos Básicos Comuns (CBC) e o ensino do relevo no contexto geográfico.19 1.3 - Interseções entre geomorfologia, geografia, geologia e ciências da Terra . 22 1.4 – Algumas contribuições ao processo de ensino-aprendizagem a partir das teorias cognitivas . 24 1.4.1 – Códigos analógicos e proposicionais .26 CAPÍTULO 2 – A NATUREZA DO CONHECIMENTO GEOMORFOLÓGICO APLICADA AO ENSINO .31 2.1 – Aspectos inerentes ao ensino/aprendizagem do relevo . 34 2.1.1 – A linguagem conceitual .34 2.1.2 – O Abstrato no raciocínio geomorfológico . 39 2.1.3 – As noções de escala espacial e escala temporal . 40 2.1.3.1 – A escala espacial . 41 2.1.3.2 – A escala temporal . 42 2.1.4 – A linguagem visual e as representações gráficas . 44 O uso de mapas e representações em 3D do relevo . 45 O perfil topográfico . 47 O uso de fotografias . 47 2.1.5 – As relações de causa/consequência e suas variáveis complexas: interação da geomorfologia com outros campos do conhecimento . 48 CAPÍTULO 3 – ATIVIDADES DIDÁTICO-PEDAGÓGICAS ENVOLVENDO O RELEVO E SUAS REPRESENTAÇÕES GRÁFICAS . 51 3.1 – Pela própria abordagem do conceito de relevo . 52 3.2 – O relevo é parte integrante da paisagem. Como reconhecê-lo através de fotografias e croquis? . 54 3.3 – Vertentes e vales: o relevo que vemos e sobre o qual andamos . 61 3.4 O relevo é dinâmico: suas transformações e sua elaboração . 66 3.4.1 Erosão: um conceito fundamental para se entender o relevo . 67 3.4.2 Os conceitos de movimento de massa, desnudação e suas relações com a erosão. 68 3.4.3 Os diferentes agentes erosivos ou morfogenéticos . 75 Os rios e o trabalho de erosão fluvial .75 3.5 – As dimensões do relevo e a ideia de que existem formas dentro de formas .78 3.6 – A importância do relevo no planejamento ambiental . 92 CONSIDERAÇÕES FINAIS . 96 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS . 103 ANEXO 1. Mapa dos Macrocompartimentos Geomorfológicos de Minas Gerais Não sei como pareço para o mundo, mas para mim, sinto-me somente como um menino brincando na praia e divertindo-me, achando aqui e ali um seixo mais liso ou uma concha mais bonita do que o comum, enquanto o grande oceano da verdade permanece totalmente desconhecido diante de mim. Isaac Newton Introdução _____________________________________________________________________________________ Introdução Em meio as preocupações relativas à questão ambiental, o conhecimento em geociências torna-se uma contribuição importante para saber pensar e agir frente aos desafios impostos à educação ambiental e pelo desenvolvimento sustentável. A Declaração sobre Ciência e o Uso do Conhecimento Científico, documento oriundo da Conferência Mundial sobre Ciência realizada em Budapeste em 1999, afirma que há consenso quanto ao fato de que o conhecimento científico é fator de desenvolvimento social e econômico contribuindo para a melhoria do padrão de vida da população e o respeito por um meio ambiente sustentável, necessidades indispensáveis para o bemestar das gerações futuras. Conhecer é o passo fundamental para saber cuidar, embora o conhecimento não ofereça garantias de que as atitudes e escolhas, sejam elas individuais ou coletivas, sejam as mais condizentes com as fragilidades do meio ambiente. Conforme indica Jacoby (2009), as pessoas precisam ter uma compreensão básica do sistema Terra, para lidar de maneira responsável com possíveis perigos e também adaptar seu próprio comportamento de maneira a atenuar os danos ao planeta. Hoje, mais do que nunca, as Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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O ensino do relevo: noções e propostas para uma didática da geomorfologia
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