Invalidação das deliberações do conselho de administração das companhias

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE DIREITO MAÍRA LEITOGUINHOS DE LIMA ABREU INVALIDAÇÃO DAS DELIBERAÇÕES DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DAS COMPANHIAS Belo Horizonte 2014 MAÍRA LEITOGUINHOS DE LIMA ABREU INVALIDAÇÃO DAS DELIBERAÇÕES DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DAS COMPANHIAS Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Direito  na Área de Concentração em Direito Empresarial Linha de pesquisa: Poder, Cidadania e Desenvolvimento no Estado Democrático de Direito Orientador: Prof. Dr. Marcelo Andrade Féres Belo Horizonte 2014 A162i Abreu, Maíra Leitoguinhos de Lima Invalidação das deliberações do conselho de administração das companhias / Maíra Leitoguinhos de Lima Abreu. - 2014. Orientador: Marcelo Andrade Féres Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Direito. 1. Direito empresarial - Teses 2. Conselho de administração 3. Fato jurídico 4. Ato nulo I.Título CDU: 347.72 Para vô Gerson, grande homem, modelo de amor, quem mais esperou por este trabalho. Para minha mãe, minha luz, meu abrigo, e meu pai, sempre minha maior inspiração. Para Dudu, que todos os dias me encanta com o melhor do amor. Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Direito Dissertação intitulada “Invalidação das deliberações do conselho de administração das companhias”, de autoria da mestranda Maíra Leitoguinhos de Lima Abreu, avaliada pela banca examinadora constituída pelos professores: Professor Doutor Marcelo Andrade Féres – Orientador ____________________________________________ ____________________________________________ Belo Horizonte, _____/_____/2014 AGRADECIMENTOS A meus pais, José e Vânia, nunca conseguirei explicar nem agradecer suficientemente a atuação de vocês, não só nesse, mas em todos os meus projetos, pessoais e profissionais. Uma vida de dedicação e amor, sem faltar um segundo. São os que mais aliviam meus lamentos e mais vibram minhas vitórias. Vocês não poderiam ser melhores. A Eduardo Caixeta, por essa alegria inexplicável que é estar com você. Agradeço também pelo companheirismo das horas e horas de descanso trocadas por estudo, sempre com o melhor sorriso. Seu apoio, infalível, foi precioso. Guilherme e Carla Abreu, meus grandes amigos, obrigada por cuidarem tão bem de mim. A meu orientador Marcelo Andrade Féres, meu muito obrigada pela cuidadosa orientação, pelo constante estímulo e atenção. Obrigada pelas reflexões e lições tão valiosas para este trabalho e para minha vida profissional. Eduardo Goulart Pimenta, agradeço por ter me acompanhado com tanta dedicação nos meus estudos inicias de direito empresarial durante a graduação, essenciais para a continuidade na academia. Obrigada por tantos ensinamentos e incentivos. A Fernanda Valle Versiani, sempre pronta para me ajudar, agradeço pela a amizade e ternura. A Nelson Rosenvald, pelo grande auxílio em minhas pesquisas e estudos de direito civil. A Patrícia Alvarenga Barros, pelo incentivo à pesquisa e ao mestrado, ainda nos tempos de estágio, pela inspiração inicial do tema e pelo carinho de sempre. Por fim, meus agradecimentos aos colegas e professores da pós graduação da Faculdade de Direito da UFMG, por nossas ricas aulas e discussões. RESUMO As deliberações do conselho de administração não foram disciplinadas minuciosamente pela legislação brasileira nem satisfatoriamente trabalhadas pela doutrina, o que traz insegurança jurídica e, assim, esta pesquisa cuidou especialmente da invalidação desses atos. A base de dados analisada compreendeu a doutrina e legislação nacionais e estrangeiras sobre a matéria, além de decisões judiciais e administrativas brasileiras. Foram utilizados os métodos indutivo e dedutivo, mesclando-se dados fáticos e princípios gerais do direito privado e do direito societário. Em que pese a opinião prevalente da doutrina, à qual parece imprescindível uma teoria especial das invalidades, verificou-se, ao longo da pesquisa, a conciliação entre a lógica do direito societário e a atual leitura da teoria do fato jurídico no direito civil, as quais passaram a convergir para a minimização da aplicação das sanções de invalidade, a preservação dos efeitos dos atos inválidos, a maximização da estabilidade e a segurança das relações jurídicas, além da proteção a terceiros de boa-fé. Com base nessas conclusões, foram abordados os possíveis vícios no procedimento de tomada de decisão do órgão, que envolvem os defeitos de suas reuniões, deliberações e votos, abordando-se, inclusive, a atuação da Comissão de Valores Mobiliários e do Judiciário frente a essas irregularidades. Por fim, foram propostas medidas legislativas voltadas à mitigação das controvérsias e instabilidades provocadas pelo atual estado da legislação. PALAVRAS-CHAVE: conselho de administração; teoria do fato jurídico; invalidade; deliberação; vícios; ação de invalidade. ABSTRACT The resolutions of the board of directors have not yet been satisfactorily regulated by Brazilian law or properly explained by the jurists. Therefore, the company, its shareholders and the market are exposed to several legal uncertainties, particularly regarding the invalidation of such acts. This study examined the legal regime of the resolutions of the board of directors through the assessment of the pertaining regulation, the opinion of jurists, from Brazil and abroad, as well as the precedents on the matter. The inductive and deductive methods, merging factual data and general principles of private law and corporate law, were used. Despite the dominant opinion of the jurists, to whom a corporate law doctrine of nullity seems essential, it was found that it shows no significant differences in comparison to the current private law doctrine of nullity. Both converge on avoiding the sanctions of invalidity and preserving the effects of invalid acts, thus maximizing stability and legal certainty, in behalf of third parties in good faith. Based on these conclusions, it was explored the possible defects in the decision-making process of the board of directors, involving defects of its meetings, resolutions and votes of its members. It was also considered the role of the Brazilian Securities Comission (“Comissão de Valores Mobiliários”) and the judicial procedures to remedy such defects. KEYWORDS: board of directors; nullity; invalidity; resolution; judicial procedure. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Classificação dos fatos jurídicos.79 Figura 2 – Espécies de invalidade.137 Figura 3 – Medidas sanatórias.176 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CVM: Comissão de Valores Mobiliários BM&FBovespa: BM&FBOVESPA S.A. – Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros IBGC: Instituto Brasileiro de Governança Corporativa LSA: Lei nº 6.404/76, que dispõe sobre as sociedades por ações NASDAQ: National Association of Securities Dealers Automated Quotations (Associação Nacional de Corretores de Títulos de Cotações Automáticas) NYSE: New York Stock Exchange (Bolsa de Valores de Nova Iorque) PAS: Processo administrativo sancionador S/A: Sociedade anônima Sarbox: Sarbanes–Oxley Act of 2002 (Lei Sarbanes-Oxley) SEP: Superintendência de Relações com Empresas STJ: Superior Tribunal de Justiça TJMG: Tribunal de Justiça de Minas Gerais TJSC: Tribunal de Justiça de Santa Catarina TJSP: Tribunal de Justiça de São Paulo TJRJ: Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro SUMÁRIO INTRODUÇÃO.11 CAPÍTULO 1 - O CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DAS SOCIEDADES ANÔNIMAS.18 1.1 - Conceito de conselho de administração.22 1.2 - O conselho de administração e o ordenamento jurídico brasileiro.26 1.3 - A posição do conselho de administração no contexto atual.43 1.4 - O conflito de interesses entre os administradores e a companhia.55 1.5 - As deliberações do conselho de administração.59 CAPÍTULO 2 - AS CRÍTICAS DOUTRINÁRIAS ACERCA DA APLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DO FATO JURÍDICO AOS ATOS SOCIETÁRIOS.63 2.1 – As críticas ao Decreto 434/1891 e a exigência de uma teoria especial.63 2.2 - A tentativa de mudança com o Decreto-Lei n˚ 2.627/40.69 2.3 - A reafirmação da necessidade de uma teoria especial na vigência da Lei nº 6.404/76.74 CAPÍTULO 3 - AS DELIBERAÇÕES DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO CONFORME A RELEITURA DA TEORIA GERAL DO FATO JURÍDICO.76 3.1 – O plano da existência e as deliberações do conselho de administração na classificação dos fatos jurídicos.77 3.1.1 – Os fatos e as deliberações inexistentes.88 3.1.2 - Sobre a inocorrência das reuniões.94 3.2 – O plano da validade das deliberações.97 3.3 – O plano da eficácia.116 3.4 - As espécies de invalidade e a doutrina clássica civilista: o antigo tratamento do tema.122 3.5 - A mudança de abordagem na teoria das invalidades e sua aplicabilidade ao direito societário.126 3.5.1 - Natureza jurídica da invalidade e o equívoco da nulidade de pleno direito.130 3.5.2 - As diferenças entre nulidade e anulabilidade conforme a doutrina atual.132 3.5.2.1 - Sobre a existência da nulidade em matéria societária.137 3.5.3 - A produção de efeitos dos atos inválidos.140 3.5.3.1 - A eficácia da sentença que pronuncia a invalidade.151 3.5.3.2 - O princípio da conservação dos atos jurídicos.154 3.5.3.3 – A proteção a terceiros de boa-fé, o registro e as publicações.164 3.5.3.4 – Interpretação restritiva das normas de invalidade.173 3.5.3.5 - Mecanismos práticos do princípio da conservação.175 3.5.3.5.1 - Convalidação.176 3.5.3.5.2 - Sanação.177 3.5.3.5.3 - Conversão.181 3.5.3.5.4 - Redução.183 3.5.4 – Prazos curtos para a impugnação judicial.184 3.6 - Sobre o enquadramento do direito societário no direito privado.185 3.7 - A sanção administrativa.187 CAPÍTULO 4 - OS VÍCIOS DAS DELIBERAÇÕES DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO.191 4.1 - Vícios das reuniões.192 4.2 - Vícios das deliberações.197 4.3 - Vícios dos votos.199 4.4 - Distinção entre a deliberação e seus efeitos.212 4.5 - A ação de invalidade.214 4.6 - Prazo para propositura da ação.221 CONCLUSÃO.232 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.238 REFERÊNCIAS A JULGADOS DE TRIBUNAIS JUDICIAIS.254 REFERÊNCIAS A JULGADOS DA CVM.256     11 INTRODUÇÃO A administração da companhia é, por sua própria natureza, um dos componentes mais importantes para o desenvolvimento da empresa. Afinal, em última análise, é o instrumento pelo qual a sociedade realiza seu objeto, seja por meio do planejamento dos negócios, seja pela atuação frente ao mercado1. Nas sociedades de menor porte, é normal que os próprios sócios sejam os administradores, não havendo, muitas vezes, órgãos administrativos. À medida em que cresce o empreendimento, há uma tendência de centralizar a administração em um grupo especializado. Isso porque, com a ampliação do quadro societário2 ou com o maior volume de negociações, é comum a necessidade de uma estrutura administrativa mais especializada e com maior concentração de poderes, que tende gerir o negócio com mais eficiência3. Paul Davies afirma que não é de se surpreender essa centralização da gestão em determinadas pessoas, diferentes dos acionistas. Primeiro, por razões de custo e tempo. Convocar todo o quadro de sócios seria mais demorado e demandaria mais despesa do que um menor grupo. Segundo, por motivos de expertise. Acionistas podem ser especializados em diversas atividades, mas não necessariamente em administrar uma companhia. Terceiro, por uma questão de motivação. Cada sócio, com sua decisão particular, sabendo que corresponde a um dentre centenas ou                                                                                                                 1 “O administrador da sociedade é o instrumento de que se vale a pessoa jurídica para colocar-se diante daqueles com os quais vá praticar algum ato jurídico. É a pessoa ou grupo de indivíduos dotados dos poderes necessários à prática das condutas direta ou indiretamente voltadas para a consecução do objeto da sociedade”. PIMENTA, Eduardo Goulart. Direito Societário. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010, 55-56. 2 Tomazette aponta para a importância da separação da administração em empreendimentos de maior porte: “Nas sociedades anônimas, aptas para execução de grandes empreendimentos, há geralmente um número muito elevado de acionistas, dentre os quais alguns não querem e nem poderiam participar da administração da sociedade, sob pena de causar um tumulto que prejudicaria a condução dos negócios sociais. Assim, a natureza e a extensão da sociedade anônima ‘exige a separação entre a propriedade da empresa, em sentido econômico, e sua direção’, que deve competir a pelo menos um órgão separado”. TOMAZETTE, Marlon. Curso de Direito Empresarial: teoria geral e direito societário, vol. 1. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2011, p. 521. 3 Nesse sentido: “A administração de uma Sociedade Anônima, de maneira análoga ao que se verifica quando se trata da administração da máquina estatal, envolve um grande número de providências que se tornam mais complexas à medida que cresce o poderio econômico do empreendimento. Tanto no caso das Sociedades Anônimas Privadas quanto do Poder Público o legislador percebeu que atribuir a uma única pessoa ou grupo competência para realizar toda a gama de providências necessárias à gestão seria altamente ineficiente. A lei então separa as diferentes providências administrativas e, organizando-as em conjuntos mais ou menos harmônicos, as atribui a um ou mais indivíduos. Assim, cada indivíduo ou grupo passa a ter competência para realizar apenas aquelas providências que lhes foram conferidas pela legislação, não podendo interferir ou praticar os atos atribuídos pela lei a outros indivíduos ou grupos”. PIMENTA, Eduardo Goulart. Direito Societário. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010, p. 64.     12 milhares de outros, tenderá a não investir tanto tempo buscando as melhores soluções para as questões do empreendimento, mas sim a basear-se nos esforços dos outros. Tendo muitos deles o mesmo comportamento, não estarão bem preparados para opinar. Já a tomada de decisão em grupos pequenos costuma ser diferente4. Esse contexto, por si só, já demonstra a necessidade da atenção ao estudo da administração das companhias. Aumenta essa necessidade o fato de a administração das companhias brasileiras vir se destacando nos últimos anos, devido às alterações que o mercado de capitais nacional tem sofrido. É inquestionável que o mercado brasileiro é ainda marcado pela presença prevalente de sociedades anônimas (S/As) com um acionista ou grupo controlador definido: o controle ainda é concentrado5, normalmente detido pelos fundadores. Porém, muitos autores apontam para o grande crescimento do número de companhias abertas sem sócios ou grupos majoritários6, Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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