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Introdução ao perfil metafuncional do português brasileiro: contribuições para os estudos multilíngues

Documento informativo
Giacomo Patrocinio Figueredo Introdução ao perfil metafuncional do português brasileiro: contribuições para os estudos multilíngues Belo Horizonte Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais 2011 Giacomo Patrocinio Figueredo Introdução ao perfil metafuncional do português brasileiro: contribuições para os estudos multilíngues Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Linguística Aplicada. Área de concentração: Linguística Aplicada Linha de Pesquisa H – Estudos da Tradução Orientadora: Professora Doutora Adriana Silvina Pagano Belo Horizonte Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais 2011 2 AGRADECIME TOS Esta tese é o esforço coletivo de pesquisa e estudo de inúmeros pesquisadores, professores, colegas de trabalho e amigos tantos que não serei capaz de me referir a todos com a devida dedicação. Portanto, vou restringir meus mais sinceros agradecimentos àqueles que mais diretamente contribuíram para que este trabalho pudesse ser construído. Em primeiro lugar, agradeço imensamente à professora Adriana Pagano, pela orientação, pela parceria de tantos anos e coautoria neste trabalho. Sem o seu suporte para meu amadurecimento acadêmico e o respeito pelo meu livre pensar, a caminhada certamente teria sido infinitamente mais árdua. Agradeço aos colegas do LETRA, pela cooperação que permitiu a este trabalho ganhar corpo; em especial ao Leo, companheiro de estudo e viagem, e à Kícila, pelo ótimo diálogo na pesquisa. Muito obrigado à CAPES, pelo apoio financeiro a esta pesquisa e ao CNPq, pelo apoio financeiro durante o estágio no exterior. Muito agradeço aos professores Kazuhiro Teruya e Christian Matthiessen pela orientação do estágio no esterior. Agradeço aos professores e colegas da Universty of New South Wales e da PolyU, pelo acolhimento e auxílio fundamental na pesquisa. Aos professores Célia Magalhães, Fabio Alves e Beatriz Decat, por terem contribuído para o amadurecimento das ideias apresentadas nesta pesquisa. Aos professores Pedro Henrique Praxedes Filho, Maria Lúcia Vasconcellos, Leila Barbara e Paulo Henrique Caetano, pela leitura criteriosa e contribuições para o aperfeiçoamento deste trabalho. Um obrigado especial é dedicado aos amigos David e Patrícia, por pacientemente dividirem o tempo do lazer com a pesquisa e por contribuírem com uma escuta atenta. E agradeço, principalmente e de modo especial, à minha querida Cristina, por abraçar este projeto com dedicação, paciência e companheirismo. 3 Think grammatically. M.A.K. Halliday 4 RESUMO Tendo como objeto de estudo a língua e a produção linguística, esta tese se localiza na interface entre os estudos descritivos da tradução orientados para o produto (cf. Toury, 1995) e a descrição linguística de base sistêmico-funcional (cf. Halliday, 2002). Mais especificamente, esta tese se afilia aos estudos da tradução de base linguística e à descrição sistêmico-funcional, fazendo, assim, parte das abordagens sistêmicas da tradução. Buscando soluções para algumas necessidades apontadas pelos estudos sistêmico-funcionais aplicados ao português brasileiro como um todo e, em específico, pelas abordagens sistêmicas da tradução (cf. Pagano e Vasconcellos, 2005), esta tese tem por objetivo contribuir oferecendo uma descrição sistêmico-funcional do português brasileiro, de orientação tipológica, de forma que possa se constituir como recurso para a análise deste sistema linguístico, em especial no ambiente multilíngue. Neste sentido, a motivação principal desta tese foi evidenciar, a partir da constituição comum destes dois campos do saber, formas de como a pesquisa em tradução pode fornecer subsídios para a descrição linguística, assim como a descrição linguística pode contribuir para a análise da tradução. Por conseguinte, esta tese promoveu a identificação e propôs uma descrição sistêmico-funcional dos sistemas de TEMA, MODO e TRANSITIVIDADE (limitando-se às orações mentais) do português brasileiro. Para conduzir a descrição do perfil metafuncional do português brasileiro, foi compilado um córpus com base na tipologia da língua no contexto de cultura (cf. Matthiessen et al., 2008), com um total de um milhão de palavras, distribuídas em oito subcópora relativos a cada um dos processos sócio-semióticos envolvidos no contexto de cultura. Em seguida, os elementos na ordem da oração foram anotados segundo as suas funções. Embora articuladas, 5 por se tratarem de três descrições distintas (TEMA, MODO e TRANSITIVIDADE), foram necessários passos específicos para cada uma das descrições. O TEMA foi abordado de duas maneiras complementares (cf.: Martin, 1992, p. 434): (i) a partir da constituição oracional; e (ii) a partir do discurso. O objetivo principal foi interpretá-lo: 1) “de cima”, a partir do conceito semântico de ‘texto’, nos padrões de tessitura estrutural em relação ao registro, e “de baixo”, a partir dos grupos que operam como Tema na ordem da oração, bem como sua relação com o sistema de INFORMAÇÃO. 2) Sob uma perspectiva “ao redor”, mostrar o Tema como função habilitadora (enabling function) para os significados experienciais e interpessoais, “simbolizando-os” como mensagem. 3) Voltando a partir do estrato semântico, novamente “de cima”, apresentar uma interpretação relacionada à organização temática e ao método de desenvolvimento. O MODO foi primeiramente abordado “de cima”, entendendo como este realiza as FUNÇÕES DISCURSIVAS. O Modo Indicativo realiza as declarações e as perguntas, ao passo que o Modo Imperativo realiza os comandos. Abordando-se “ao redor”, foi possível entender que o elemento chave para as escolhas do MODO em português brasileiro – e por conseguinte para a troca de significados – é o Negociador. Na abordagem “de baixo”, os elementos da ordem do grupo, além das estruturas, que realizam o Negociador em português brasileiro foram identificados. Por fim, voltando ao discurso, as funções interpessoais foram analisadas à luz desta descrição em termos da interação, mostrando como a troca é realizada no contexto brasileiro. O TIPO DE PROCESSO: ME TAL foi interpretado a partir da gramática mental, que realiza a oração como as figuras de sentir. Semanticamente, as figuras de sentir constroem a experiência como processamento consciente (cf. Halliday & Matthiessen, 1999). As figuras de sentir são realizadas gramaticalmente pelas orações mentais e, em português brasileiro, o principal sistema experiencial na ordem da oração é o TIPO DE PROCESSO: MENTAL. As 6 funções transitivas que tomam parte nas orações mentais: Experienciador, Processo Mental e Fenômeno (incluindo Hiperfenômeno) foram examinadas “de cima”, revelando os significados semânticos que são realizados por estas funções. Abordando “de baixo”, cada uma destas funções foi caracterizada em relação aos elementos que operam na ordem da oração como estas funções. Em seguida, foi necessário dar um passo na delicadeza, focando nas orações mentais “ao redor”, identificando os padrões distintos entre os subtipos de orações mentais – cognitiva, desiderativa, emotiva e perceptiva. A partir desta descrição, foi possível, segundo o objetivo da tese, contribuir na relação entre os estudos da tradução e os estudos linguísticos de base sistêmico-funcional, tanto para o contraste tipológico, do ponto de vista da linguística, quanto das análises de tradução, do ponto de vista das abordagens sistêmicas. Como resultado mais importante, o fato de a descrição desta tese ter orientação tipológica, permitiu compreender a produção linguística dentro do ambiente multilíngue, tornando tanto os estudos descritivos quanto os estudos da tradução formas complementares do estudo do contato entre línguas. Palavras-chave: descrição sistêmico-funcional do português brasileiro, abordagens sistêmicas da tradução, estudos multilíngues. 7 ABSTRACT This thesis explores language and language production from two complementary viewpoints: product-oriented translation studies (Toury, 1995) and systemic-functional theory (Matthiessen & Halliday, 2009). As a general aim, this thesis offers resources for systemicfunctional research involving Brazilian Portuguese, in particular systemic approaches to translation (Pagano & Vasconcellos, 2005). More specifically, this thesis aims at presenting a systemic-functional description of Brazilian Portuguese grammar in a typological perspective (including the systems of THEME, MOOD and a partial description of TRANSITIVITY) as a means to contribute for analyses involving Brazilian Portuguese, especially in multilingual environments. Based on the typology of language in the context of culture (cf. Matthiessen et al., 2008) which groups text types in eight socio-semiotic processes, a 1-million-word corpus was collected (125,000 words per process). Elements at clause rank were annotated according to their textual, interpersonal or experiential function. Although the descriptions of THEME, MOOD and TRANSITIVITY are related by the same theoretical guiding principles, specific steps for each individual description were taken. THEME was explored from two complementary perspectives (Martin, 1992), (i) from clause and (ii) from discourse. This complementarity enabled the description to interpret THEME: “from above”, based on the semantic concept of ‘text’, as a function of structural texture in relation to register; “from roundabout”, describing Theme as an enabling function for experiential and interpersonal meanings, “symbolizing” them as message; “from below”, understanding group elements operating as Theme at clause rank, as well as its relations to the system of INFORMATION. 8 MOOD was firstly approached “from above” as a means to understand how it realizes SPEECH FUNCTIONS. In Brazilian Portuguese, Indicative Mood realizes statements and questions, and Imperative Mood realizes commands. “From roundabout”, Negotiator – the crucial element for realizing different MOOD choices, thus for negotiation – was described. “From below” group rank elements and structural configurations realizing the Negotiator were identified. After the trinocular understanding of MOOD, it was possible to move back to discourse and explore interpersonal functions in relation to exchange in Brazilian contexts. PROCESS TYPE: MENTAL was interpreted as the realization of figures of sensing. Semantically, figures of sensing construe our experience of conscious processing (Halliday & Matthiessen, 1999), which, in turn, are realized by mental clauses within grammar. Experiential functions in mental clauses (Senser, Mental Process and [hyper]Phenomenon) were analyzed and described “from above”, as the realization of mental change; and “from below”, charactizing them in terms of their realization at lower ranks. A further step in delicacy was taken to analyze mental clauses “from roundabout” and distinct patterns of subtypes (both in terms of their construal of mental figures and their realization by lower ranks) were identified and described. Based on this description, guided by typological principles, it was possible to move on to a more specific aim of this thesis – shed light on the complementarity between productoriented translation studies and systemic-functional theory. This enabled the view of language (Brazilian Portuguese) production within multilingual environments, placing both descriptive and translation analyses as complementarities in the study of language contact. Key-words: systemic-functional description of Brazilian Portuguese; systemic approaches to translation; multilingual studies. 9 LISTA DE ILUSTRAÇÕES I TRODUÇÃO FIGURA 1 – Relações entre a língua e a teoria.27 FIGURA 2 – Localização desta tese nos estudos da tradução segundo o mapa de Holmes.29 FIGURA 3 – Localização da descrição da tese na matriz de função-ordem do português brasileiro.30 CAPÍTULO 1 FIGURA 1.1 – Estratificação.36 FIGURA 1.2 – Áreas de Estudo da Linguagem: Interorganismo e Intra-organismo.39 FIGURA 1.3 – A linguagem como Elemento Essencial da Personalidade.40 FIGURA 1.4 – Relações entre Conhecimento, Linguagem e Experiência.41 FIGURA 1.5 – Círculo Virtuoso entre Teoria, Descrição e Aplicação.45 FIGURA 1.6 – Estudos da Tradução e Estudos Contrastivos.54 FIGURA 1.7 – O Processo de Tradução.56 FIGURA 1.8 – Contínuo da Instanciação e os Campos de Estudo.62 QUADRO 1.1 – Paradigmas da Teoria Sistêmico-funcional de Produção da Linguagem.35 CAPÍTULO 2 FIGURA 2.1 – O ciclo hidrológico, exemplo de sistemas físicos.67 FIGURA 2.2 – Um primeiro esboço para os sistemas físicos do ciclo hidrológico.68 FIGURA 2.3 – Exemplo de sistemas biológicos.69 FIGURA 2.4 – Exemplo de sistema social: divisão social do trabalho de caça da alcateia.69 FIGURA 2.5 – Exemplo de sistema semiótico: formas de coleta de alimentos do chimpanzé.70 FIGURA 2.6 – Ordens de sistemas.71 FIGURA 2.7 – Organização biestratal.74 FIGURA 2.8 – Estratificação do conteúdo.75 FIGURA 2.9 – Estratificação e realização.76 FIGURA 2.10 – Perspectiva trinocular sobre a gramática.77 FIGURA 2.11 – Dimensão metafuncional do sistema linguístico.79 FIGURA 2.12 – Dimensão instancial do sistema linguístico.80 FIGURA 2.13 – Sistema hipotético.82 FIGURA 2.14 – O sistema de QUANTIFICAÇÃO em português brasileiro.83 FIGURA 2.15 – Lugar da pesquisa na matriz de estratificação-instanciação.89 FIGURA 2.16 – Janela de buscas do Concord.95 FIGURA 2.17 – Lista de concordâncias produzida pela ferramenta Concord.96 FIGURA 2.18 – Anotação no UAMTools.97 FIGURA 2.19 – Extração de segmentos UAMSearchTools.98 FIGURA 2.20 – Extração quantitativa UAMStatisticsTools.99 FIGURA 2.21 – Análise metafuncional de segmentos textuais pelo SysFan.100 FIGURA 2.22 – Anotação e construção de redes de sistemas através do SysFan.101 FIGURA 2.23 – Redes de sistemas com o cálculo de probabilidade de seleções.102 QUADRO 2.1 – As dimensões da linguagem e seus princípios de organização.74 QUADRO 2.2- Língua no contexto de cultura.91 10 QUADRO 2.3 – Metodologia de análise.94 CAPÍTULO 3 FIGURA 3.1 – Tema: Semiotização de recursos ideacionais e interpessoais.105 FIGURA 3.2 – Modelo descritivo do TEMA.106 FIGURA 3.3 – Tessitura no texto 3.1.111 FIGURA 3.4 – Organização temática e de informação no texto 3.2.113 FIGURA 3.5 – Ondas de informação no texto 3.1.116 FIGURA 3.6 – Proeminência temática e de informação no texto 3.3.119 FIGURA 3.7 – Tema diminuendo.126 FIGURA 3.8 – Pulso de informação.127 FIGURA 3.9 – Interseção entre TEMA e INFORMAÇÃO.128 FIGURA 3.10 – ORIENTAÇÃO MODAL em declarativas.133 FIGURA 3.11 – Responsabilidade modal e ponto de partida no texto 3.4.134 FIGURA 3.12 – ORIENTAÇÃO TRANSITIVA.136 FIGURA 3.13 – Elementos ideacionais disponíveis para a SELEÇÃO DE TEMA.138 FIGURA 3.14 – TEMA TEXTUAL.140 FIGURA 3.15 – TEMA INTERPESSOAL.141 FIGURA 3.16 – Sistemas básicos do Tema Ideacional.143 FIGURA 3.17 – Cosseleção entre ORIENTAÇÕES e SELEÇÃO TEMÁTICA.144 FIGURA 3.18 – TEMA DEFAULT.146 FIGURA 3.19 – TEMA Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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