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Geologia e quimioestratigrafia do Grupo Vazante em Lagamar (Minas Gerais, Brasil)

Documento informativo

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOLOGIA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO GEOLOGIA E QUIMIOESTRATIGRAFIA DO GRUPO VAZANTE EM LAGAMAR (MINAS GERAIS, BRASIL) AUTOR: Carla Sofia de Sousa Marques ORIENTAÇÃO: Alexandre Uhlein Nº152 BELO HORIZONTE DATA (27/09/15) UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOLOGIA Dissertação de Mestrado GEOLOGIA E QUIMIOESTRATIGRAFIA DO GRUPO VAZANTE EM LAGAMAR (MINAS GERAIS, BRASIL) AUTOR: Carla Sofia de Sousa Marques ORIENTAÇÃO: Alexandre Uhlein Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Geologia do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Geologia. ÀREA DE CONCENTRAÇÃO: Geologia Regional BELO HORIZONTE (09/15) AGRADECIMENTOS Agradeço à República Federativa do Brasil pelo apoio em forma de bolsa de Pós-graduação CAPES e toda a infra-estrutura científica e acadêmica. Ao orientador Alexandre Uhlein pelas orientações, companheirismo, e exemplo. À CPRM - Serviço Geológico Brasileiro pelo acesso a informações cartográficas e geológicas da região, em especial ao geólogo Marcos Cristovão Baptista pela troca de conhecimentos sobre a geologia local e ao geólogo Claiton P. Pinto pelo fornecimento de material de estudo. À empresa Votorantim Metais – Unidade Vazante pelo financiamento dos trabalhos de campo e análises químicas de amostras Lagamar, e em especial ao geólogo Gustavo Oliveira Diniz pelas suas imensas contribuições entusiásticas sobre o Grupo Vazante. Às empresas Galvani - Unidade de mineração do fosfato de Lagamar e CALA (Calcários de Lagamar) pela disponibilização de amostras dos furos de sondagem e das lavras. Aos colegas geológicos do IGC Bidu, Alemão, Boni, Jubé, Barrote, Renata, Tobias, e Walter. Aos meus pais e irmão, sempre comigo em pensamento deste lado do oceano. Aos amigos belo horizontinos Alessandro, Mariana, Bruno, Priscila, em especial ao Washington, e enfim, todos aqueles tão presentes na minha novela brasileira! E ao Dharma, “incomparavelmente profundo e infinitamente subtil, raramente encontrado mesmo em centenas de milhares de milhões de ciclos universais”. i EPÍGRAFE “Observou que para um homem assim preparado o ato de viajar é inútil; nosso século XX havia transformado a fábula de Maomé e a montanha; as montanhas, agora convergiam para o moderno Maomé. Tão ineptas me pareceram aquelas idéias, tão pomposa e tão longa sua exposição, que as relacionei imediatamente com a literatura; perguntei-lhe porque não as escrevia. Previsivelmente, respondeu que já o fizera: aqueles conceitos, e outros não menos novidadeiros, figuravam no Canto Augural, Canto Prologal ou simplesmente Canto-Prólogo de um poema em que trabalhava havia muitos anos, sem reclame, sem burburinho ensurdecedor, sempre apoiado nesses dois cajados que se chamam trabalho e isolamento. Primeiro abria as comportas para a imaginação; em seguida fazia uso da lima. O poema se intitulava “A Terra”; tratava-se de uma descrição do planeta, em que não faltavam, decerto, a digressão pitoresca e galharda apóstrofe.” “o aleph” Jorge Luís Borges 1949 ii Marques, C.S.S. Geologia e quimioestratigrafia do Grupo Vazante em Lagamar, MG. 2015. Dissertação, Universidade Federal de Minas Gerais, Instituto de Geociências, Belo Horizonte, 134p. RESUMO Este trabalho tem como base um mapeamento geológico na escala 1:50.000 de uma área de 400km² nos arredores da cidade de Lagamar (MG) e um estudo de perfis quimioestratigráficos com isótopos estáveis de δ13C, δ18O e 87Sr/86Sr nas formações Lagamar e Rocinha do Grupo Vazante. Na região afloram rochas da porção basal do Grupo Vazante, em contato tectônico com o Grupo Bambuí. Foram identificadas as formações Santo Antônio do Bonito, Rocinha, Lagamar e Serra do Garrote no Grupo Vazante, e no Grupo Bambuí, as formações Serra da Saudade e Lagoa Formosa. O estudo de litofácies discriminou 10 associações de fácies identificadas neste trabalho, como ambientes sedimentares marinhos costeiros, variando de rasos até profundos. Duas importantes falhas inversas ocorrem no polígono mapeado, aqui designadas como falha de Lagamar I e II. A falha de Lagamar I colocou as formações Serra do Garrote e Lagamar mais antigas em cima das formações Rocinha e Santo Antônio do Bonito e a falha de Lagamar II as formações Rocinha e Santo Antônio do Bonito (Grupo Vazante) sobre o Grupo Bambuí. Na Formação Lagamar, a partir das amostras da lavra Geraldo Américo, os valores de δ13C estão entre -0,14 e 0,91‰ e de δ18O de -6,89 a -3,18‰. No furo da antiga lavra da CALA os valores de δ13C mostram-se bem constantes, variando entre -0,86 e 2,2‰, e os valores de δ18O entre -9,82 e -3,54‰. Na Formação Rocinha, no furo CD05, temos valores de δ13C entre -6,58 e -2,85‰ e δ18O entre -6,20 e -5,14‰. No furo F230A os valores de carbono ficam entre -6,62 e 3,33‰ e os de oxigênio entre -10,25 e -7,54‰. Estes perfis parecem evidenciar alterações diagenéticas, sobretudo no perfil Antiga Lavra CALA em que as curvas δ13C e δ18O apresentam alguma co-variância. Os valores de 87Sr/86Sr da Formação Lagamar (0,70679; 0,70685; 0,70718 e 0,70788) podem ser correlacionados a valores do mesoproterozoico a neoproterozoico (Toniano/Criogeniano), e para a Formação Rocinha (0,70766) idade neoproterozoica (Criogeniano/Ediacarano). Palavras-chave: Mapeamento geológico; Quimioestratigrafia; Formação Lagamar; Formação Rocinha; Falha de Lagamar. iii Marques, C.S.S. Geology and Chemostratigraphy of the Vazante Group in Lagamar, MG. 2015. Dissertação, Universidade Federal de Minas Gerais, Instituto de Geociências, Belo Horizonte, 134p. ABSTRACT This work is based on a geological mapping at 1: 50.000 scale of an area of 400km² around of Lagamar city (MG) and in isotopic profiles with stable isotopes of δ13C, δ18O and 87Sr/86Sr in Lagamar and Rocinha formations of the Vazante Group. In the region there are outcrop of rocks from the basal portion of Vazante Group in tectonic contact with the Bambuí Group. There have been identified Santo Antônio do Bonito, Rocinha, Lagamar and Serra do Garrote Formations in Vazante Group, and in Bambuí Group, Serra da Saudade and Lagoa Formosa Formations. The lithofacies study discriminated 10 facies associations identified in this work as marine sedimentary environments, ranging from shallow to deep. Two important reverse faults are included within the mapped polygon, designated here as Lagamar fault I and II. Lagamar fault I put the older Serra do Garrote and Lagamar Formations upon Rocinha and Santo Antonio do Bonito Formations. Lagamar fault II put the Rocinha and Santo Antônio do Bonito formations (Vazante Group) on top of the Bambuí Group. In Lagamar Formation, in Lavra Geraldo Américo, δ13C show values between -0,14 and 0,91‰ and δ18O between -6,89 and -3,18‰. In Antiga Lavra CALA, δ13C are constant, between -0,86 and 2,2‰, and values of δ18O are -9,82 to -3,54‰. In Rocinha Formation, CD05 show δ13C values between -6,58 and -2,85‰ and, δ18O values between -6,20 and -5,14‰. In F230A, δ13C values are -6,62 to 3,33‰, and δ18O values -10,25 to -7,54‰. This profiles may indicate diagenetic alteration, especially in Antiga Lavra CALA, because δ13C and δ18O show some co-variance in it chemostratigraphic profile. The values of 87Sr/86Sr of Lagamar Formation (0,70679; 0,70685; 0,70718 e 0,70788) may indicate Mesoproterozoic to Neoproterozoic Ages (Tonian/Cryogenian) for Lagamar Formation, and for Rocinha Formation (0,70766) Neoproterozoic Age (Cryogenian/Ediacaran). Keywords: Geological mapping; chemostratigraphy; Lagamar Formation; Rocinha Formation; Lagamar fault. iv SUMÁRIO AGRADECIMENTOS.i EPÍGRAFE.ii RESUMO.iii ABSTRACT.iv ÍNDICE DE FIGURAS.vii ÍNDICE DE TABELAS.xiii 1. INTRODUÇÃO.1 1.1. Apresentação e justificativa.1 1.2. Objetivos.1 1.3. Localização e acessos.2 1.4. Aspectos fisiográficos.3 2. MATERIAIS E MÉTODOS.5 3. GEOLOGIA REGIONAL.9 3.1. Contexto geotectônico da Faixa Brasília e da Bacia do São Francisco.10 3.2. Litoestratigrafia do Grupo Vazante e do Grupo Bambuí.15 3.3. Geologia estrutural e metamorfismo do Grupo Vazante.22 3.4. Idade do Grupo Vazante.23 4. QUIMIOESTRATIGRAFIA ISOTÓPICA.27 4.1. O registro Neoproterozoico.27 4.2. Isótopos Estáveis de Carbono e Oxigênio.28 4.3. Isótopos de Estrôncio.31 4.4. Curvas de variação isotópica no Grupo Vazante e na Bacia do São Francisco.33 5. SEDIMENTOLOGIA E SISTEMAS DEPOSICIONAIS.37 5.1. Análise faciológica.37 5.2. Formação de carbonatos e tipos de plataformas.37 5.3. Ambientes de sedimentação marinhos.40 5.4. Fosforitos sedimentares.41 6. ESTRATIGRAFIA E MAPA GEOLÓGICO DA REGIÃO DE LAGAMAR.44 6.1. Introdução.44 v 6.2. Descrição das unidades estratigráficas mapeadas.45 6.2.1. Formação Santo Antônio do Bonito.46 6.2.2. Formação Rocinha.48 6.2.3. Membro Arrependido da Formação Lagamar.50 6.2.4. Membro Sumidouro da Formação Lagamar.51 6.2.5. Formação Serra do Garrote.55 6.2.6. Formação Serra da Saudade (Grupo Bambuí).55 6.2.7. Formação Lagoa Formosa (Grupo Bambuí).56 6.2.8. Coberturas recentes.57 7. ASSOCIAÇÃO DE FÁCIES E SEDIMENTOLOGIA DOS GRUPOS VAZANTE E BAMBUÍ NA REGIÃO DE LAGAMAR.58 8. GEOLOGIA ESTRUTURAL DA REGIÃO DE LAGAMAR.64 9. QUIMIOESTRATIGRAFIA ISOTÓPICA DAS FORMAÇÕES LAGAMAR E ROCINHA .73 Artigo submetido à Geonomos 10. CONCLUSÕES.108 11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.110 12. ANEXOS.121 Anexo I: Mapa geológico na escala 1:50.000 em Lagamar.121 Anexo II: Mapa de Pontos na escala 1:50.000 em Lagamar.122 Anexo III: Tabela de Pontos de Mapeamento Geológico 1:50.000 em Lagamar.123 vi ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1.1. Mapa de localização da área de pesquisa no Estado de Minas Gerais.2 Figura 1.2. Imagem de satélite da área Geocover, e principais domínios geomorfológicos na região de Lagamar.3 Figura 1.3. Aspectos geomorfológicos em Lagamar: A) Morros arredondados desenhados pelas drenagens na Serra do Garrote; B) Baixadas com mais vegetação e coqueiros característicos da Formação Lagamar; C) Relevo aplanado, intemperizado e com coberturas na Formação Rocinha (lado direito exploração de fosfato da empresa Galvani); D) Cristas quartzíticas da Formação Santo Antônio do Bonito alinhados; N-S; E) Relevo aplanado na Formação Serra da Saudade; F) Conglomerados da Formação Lagoa Formosa que formam morrotes no relevo aplanado do Grupo Bambuí.4 Figura 2.1. Mapa de localização dos furos e bancada amostrados da empresa CALA. Furos de sondagem da empresa Galvani: F230A e CD05.6 Figura 3.1. Esboço tectônico do Brasil Central, com destaque para a Província Tocantins e suas faixas móveis associadas (simplificado de Almeida et al.,1981 in Valeriano et al. 2004).9 Figura 3.2. Mapa geológico da Faixa de Dobramentos Brasília, simplificado e adaptado de Dardenne (2000) com compartimentação em unidades tectônicas proposta por Fuck et al. (2005) e localização aproximada da área de estudo. Extraído e modificado de Santana (2011).10 Figura 3.3. Evolução geotectônica esquemática do Segmento Sul da Faixa Brasília segundo Dardenne (2000) (extraído de Sanches 2012). (I) deposição do Grupo Canastra (mesoneoproterozóico), em margem passiva; (II) desenvolvimento do arco magmático a oeste, relacionado à zona de subducção intra-oceânica e deposição dos grupos Araxá, durante estágio de expansão oceânica, e Ibiá, em bacia de retro-arco; (III) início do evento colisional brasiliano, e deposição dos Grupos Vazante e Bambuí em grande depressão formada no Front dos cavalgamentos; (IV) início de novo evento colisional, responsável por empurrões de baixo ângulo que colocam os Grupos Araxá, Ibiá e Canastra sobre o Grupo Bambuí.11 Figura 3.4. Subdivisão tectônica das unidades supracrustais da Faixa Brasília de acordo com semelhanças no sistema deposicional. Extraído e modificado de Pimentel et. al. (2011).12 Figura 3.5. Mapa geológico simplificado do Cráton do São Francisco, mostrando a localização geográfica e delimitação da bacia (modificado de Alkmim & Martins Neto (2001), extraído de Tonietto (2010)).13 vii Figura 3.6. Sequências na Bacia do São Francisco, com idades marcadas pelas intrusões, ou idades dos zircões mais jovens (Extraído de Alkmim & Martins Neto 2012).14 Figura 3.7. Coluna estratigráfica do Grupo Vazante (Dardenne, 2001). Extraída de Paniaggo (2011).17 Figura 3.8. Estratigrafia do Grupo Bambuí, extraído e modificado de Vieira et al. 2007.20 Figura 3.9. Coluna estratigráfica da Formação Lagoa Formosa, Grupo Bambuí, na região do Alto Paranaíba. Segundo Baptista.21 Figura 3.10. Seção geológica do Grupo Vazante passando pela Falha de Lagamar, proposta por Dardenne & Freitas-Silva (1999).23 Figura Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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Geologia e quimioestratigrafia do Grupo Vazante em Lagamar (Minas Gerais, Brasil)
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