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Fisioterapia geriátrica domiciliar e as interações com o lazer

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Amanda Guiduci Marcial FISIOTERAPIA GERIÁTRICA DOMICILIAR E AS INTERAÇÕES COM O LAZER Belo Horizonte Escola de Educação Fisica, Fisioterapia e Terapia Ocupacional - UFMG 2013 Amanda Guiduci Marcial FISIOTERAPIA GERIÁTRICA DOMICILIAR E AS INTERAÇÕES COM O LAZER Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Estudos do Lazer da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais, como prérequisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Lazer. Área de concentração: Lazer, Cultura e Educação Linha de Pesquisa: Lazer, Cidade e Grupos Sociais Orientadora: Professora Luciana Karine de Souza Universidade Federal de Minas Gerais Belo Horizonte Escola de Educação Fisica, Fisioterapia e Terapia Ocupacional - UFMG 2013 FOLHA DE APROVAÇÃO DEDICATÓRIA A José Guiduci que inspirou os primeiros passos na profissão e permanece me inspirando sempre. AGRADECIMENTOS A Deus por estar presente em minha vida. A Edilce Maria Guiduci pelo amor incondicional e os belos exemplos de superação. Aos meus irmãos Rodrigo e Patrick, às minhas sobrinhas Maria Luisa, Isabela, Marina, Maria Clara, à minha cunhada Jeane e à Valéria T. M. de Almeida por darem um sentido maior ao lazer na casa da vovó Duduce. Ao meu Requim por estar presente em minha vida, com amor e companheirismo. Aos amigos Camila, Janaína, Fabrício, Will e Artur por todo apoio sempre. A Professora Luciana Karine de Souza, pela integralidade em sua orientação acadêmica, e, principalmente, por confiar em meu trabalho, acreditar nas ideias iniciais e incentivar meus estudos. A Giselle por toda disponibilidade e ajuda. Aos professores do mestrado, em especial, Professora Christianne Luce Gomes, Professor Helder Isayama, Professor Marcus Taborda e Professor Walter Ude pelos ensinamentos que possibilitaram ampliar meu aprendizado. Aos colegas de mestrado por compartilhar a caminhada com importantes diálogos e lazeres. A Cinira Veronesi por sua inestimável colaboração e apoio. Aos fisioterapeutas pela disponibilidade e interesse em participar, bem como pela troca de experiências. Por fim, a todos os pacientes que, direta ou indiretamente, contribuíram para minhas reflexões sobre a prática profissional em fisioterapia domiciliar com idosos. RESUMO Esta pesquisa tem por objetivo discutir a interação entre Lazer e Fisioterapia no contexto do atendimento a idosos em domicílio. Para tanto, foram realizados um estudo bibliográfico e entrevistas individuais semiestruturadas com fisioterapeutas. Buscou-se elementos que colaborassem no entendimento da necessidade e da importância da interação LazerFisioterapia no tocante ao campo de trabalho geriátrico domiciliar, na contextualização do tratamento proposto em favor de uma prática profissional capaz de ampliar a abordagem, a avaliação, o tratamento e o alcance das técnicas aplicadas, e na geração de significados para o indivíduo em processo de reabilitação funcional. Participaram da amostra dez fisioterapeutas que atendem idosos em domicílio na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, devidamente inscritos no Conselho de Fisioterapia de Minas Gerais (CREFITO-4). A idade dos participantes variou de 25 a 34 anos. Todos cursaram graduação em Fisioterapia em instituições particulares, entre 2002 e 2011, iniciando a atividade profissional, em média, seis meses após diplomados. A análise dos dados coletados a partir das entrevistas permitiu identificar resultados que podem contribuir para o atendimento a idosos desde a relação Lazer-Fisioterapia. Os fisioterapeutas entrevistados reconheceram a importância do lazer na reinserção social do paciente idoso, mas apresentam dificuldades para a sistematização deste saber em suas práticas profissionais. Nenhum deles usa avaliação das atividades avançadas de vida diária (que incluem conteúdos do Lazer) em sua atuação profissional, embora reconheçam a existência dessa avaliação. O estudo constatou que a falta de embasamento teorico-conceitual dificultou o aprofundamento de questões relacionadas ao lazer com o paciente e/ou com os familiares/cuidadores. Logo, o tema lazer foi tratado com superficialidade, sem uma estreita e intrínseca relação com a funcionalidade do idoso. Outros estudos se fazem necessários no sentido de aprimorar e desenvolver novas propostas de atuação em fisioterapia. Essa demanda exige implementar mudanças para a aquisição de competências para a prática fisioterapêutica com idosos em domicílio. O presente estudo aponta para a necessidade de mais pesquisas em fisioterapia que tratem de questões relacionadas ao atendimento de idosos em domicilio e a interação com o lazer, tendo em vista a escassa produção teórica específica a respeito de um tema que se mostra bastante relevante para o tratamento fisioterapêutico no sentido de melhorar a capacidade funcional e a qualidade de vida do paciente idoso. Palavras-chave: Lazer. Fisioterapia. Idosos. Atendimento domiciliar. Avaliação. ABSTRACT The objective of this research is to discuss the interaction Leisure-Physical Therapy in the realm of home care service to elderly citizens. In order to pursue that aim, a literary review study and semi-structured individual interviews with physical therapists were conducted. It was argued that there is a need to acknowledge: 1) the relevance of Leisure-Physical Therapy interaction towards home care service to the elderly, 2) the attention to context specific aspects related to the service provided in favor of a professional practice that may broaden approach, evaluation, treatment, and scope of the techniques used, and 3) the generation of new experiences to the patient/client under functional rehabilitation. Ten physical therapists working with private home care for the elderly in the city of Belo Horizonte, Brazil, registered on the regional board of physical therapists, participated on the study. Age range was from 25 to 34 years-old, and participants got their physical therapy major degree in private universities somewhere between the years of 2002 and 2011, and starting to work as a professional approximately six months after graduation. Data analysis generated results that may contribute to service directed to the elderly by Leisure-Physical Therapy interaction. The physical therapists interviewed recognized how important leisure is to the social reconnection of the elderly patients/clients, but had difficulties in providing systematic or organized knowledge that supports the service. None of them claims to evaluate daily life advanced activities (that include Leisure contents) in their practice, although recognize that this type of evaluation exists. This study found that the lack of theoretical-conceptual framework for the physical therapists about their own practices made it difficult to deepen the Leisure aspects related to the patient/client and his/her family members/caretakers. Thus the participants treated Leisure as something superficial, narrowing it down to an intrinsic relation with the functionality of the elderly. Future studies are a must in order to develop and enhance new Physical Therapy practices. This demands implementing change towards competence acquisition for physical therapy dedicated to treat elderly patients at home. This study highlights the need for more research in the field of Physical Therapy, which deal with home care services to the elderly and its interaction with Leisure, considering the scarce theoretical background about such an area that is very relevant to physical therapy treatments in the sense of enhancing functional abilities and life quality of elderly patients/clients. Keywords: Leisure. Physical therapy. Elderly. Home care. Evaluation. LISTA DE TABELAS TABELA 1 O que o fisioterapeuta entende por capacidade funcional . 65 TABELA 2 Como o fisioterapeuta avalia a capacidade funcional do idoso . 66 TABELA 3 Conhecimento do fisioterapeuta a respeito de protocolos de avaliação de ABVD e/ou AIVD . 67 TABELA 4 Forma como o fisioterapeuta teve acesso aos protocolos de avaliação de ABVD e/ou AIVD . 67 TABELA 5 Uso de protocolos de avaliação de ABVD e/ou AIVD na prática fisioterapêutica . 68 TABELA 6 Como o fisioterapeuta avalia AAVD . 69 TABELA 7 O entendimento do fisioterapeuta sobre lazer . 70 TABELA 8 Percepção do fisioterapeuta sobre a importância do lazer na reinserção social do idoso . 71 TABELA 9 Orientações fisioterapêuticas para o lazer . 72 TABELA 10 Questionamentos do fisioterapeuta sobre a participação dos familiares no lazer do idoso . 73 TABELA 11 O que o fisioterapeuta entende por envelhecimento . 74 TABELA 12 Relação entre envelhecimento e a prática profissional . 75 TABELA 13 O que o fisioterapeuta entende por abordagem biopsicossocial . 76 TABELA 14 Estratégias fisioterapêuticas para a promoção de saúde a idosos . 77 TABELA 15 Outros comentários . 79 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AAVD ABVD AGA AIVD ANVISA AVD COEP CREFITO GTH IBGE PNAD PNHAH PNH OMS QV RNHF SBGG SUS WHOQOL TCLE Atividades Avançadas de Vida Diária Atividades Básicas de Vida Diária Avaliação Geriátrica Ampla Atividades Instrumentais de Vida Diária Agência Nacional de Vigilância Sanitária Atividades de Vida Diária Comitê de Ética em Pesquisa Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional Grupo de Trabalho de Humanização Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Programa Nacional de Humanização na Assistência Hospitalar Programa Nacional de Humanização Organização Mundial de Saúde Qualidade de Vida Referencial Nacional de Honorários Fisioterapêuticos Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia Sistema Único de Saúde World Health Organization Quality of Life Termo de Consentimento Livre e Esclarecido SUMÁRIO APRESENTAÇÃO . 16 1 INTRODUÇÃO . 19 1.1 Problema de pesquisa: o papel da fisioterapia na reinserção social do idoso em tratamento domiciliar através do incentivo à vivência/experiência de lazer. 21 1.2 Relevância do tema: para que pesquisar se a fisioterapia incentiva vivências/experiências de lazer do idoso em tratamento domiciliar. 22 1.3 Justificativa da pesquisa . 22 1.4 Perguntas da presente pesquisa: o problema da ausência do tema lazer na fisioterapia. 23 1.5 Objetivos da pesquisa. 23 1.5.1 Objetivo geral. 23 1.5.2 Objetivo específico. 24 1.6 Considerações sobre envelhecimento. 24 1.6.1 Envelhecimento e qualidade de vida. 31 1.7 Sobre a fisioterapia. 1.7.1 Breve histórico . 1.7.2 Diretrizes curriculares e formação do profissional. 1.7.3 Atuação profissional. 1.7.4 Atendimento domiciliar. 1.7.5 Humanização em Fisioterapia. 1.7.6 Avaliação fisioterapêutica do paciente idoso. 1.8 Sobre o lazer. 1.8.1 Lazer: concepções. 1.8.2 Lazer, fisioterapia, cidade e grupos sociais . 34 35 36 37 39 42 45 52 52 55 2 MÉTODO. 61 2.1 Participantes. 2.2 Instrumentos . 2.3 Procedimentos de coleta de dados . 2.4 Procedimentos de análise dos dados . 61 62 62 63 3 RESULTADOS. 64 3.1 Resultados relacionados ao perfil dos participantes. 64 3.2 Resultados para o entendimento de capacidade funcional . 65 3.3 Resultados relacionados a avaliação da capacidade funcional do idoso. 66 3.4 Resultados relacionados ao conhecimento de protocolos para avaliar ABVD e AIVD. 67 3.5 Resultados relacionados à forma de acesso aos protocolos para avaliar ABVD e AIVD. 67 3.6 Resultados relacionados a como avaliam ABVD e AIVD. 68 3.7 Resultados relacionados a avaliação das atividades avançadas de vida diária . 68 3.8 Resultados para o entendimento sobre lazer. 69 3.9 Resultados para a percepção sobre a importância do lazer na reinserção social do idoso. 71 3.10 Resultados para a resposta sobre as orientações fisioterapêuticas para o lazer de idosos . 72 3.11 Resultados sobre o questionamento sobre a participação dos familiares no lazer do idoso . 73 3.12 Resultados para o entendimento sobre envelhecimento . 74 3.13 Resultados para a relação entre envelhecimento e a prática profissional . 74 3.14 Resultados para o entendimento sobre a abordagem biopsicossocial . 76 3.15 Resultados para as estratégias fisioterapêuticas para a promoção de saúde de idosos . 77 3.16 Resultados para o questionamento se gostaria de acrescentar algo mais . 78 4 DISCUSSÃO . 79 4.1 O início da atividade profissional e a capacitação do fisioterapeuta para o atendimento a idosos . 80 4.2 O entendimento do profissional sobre a capacidade funcional de idosos e o conhecimento de protocolos para avaliar ABVD, AIVD E AAVD . 84 4.3 O entendimento do profissional sobre o lazer, as orientações fornecidas e o questionamento da participação de familiares no lazer do idoso . 84 5 CONCLUSÕES . 90 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS . 91 REFERÊNCIAS. 94 ANEXO A Termo de consentimento livre e esclarecido. 102 ANEXO B Roteiro de entrevista com o fisioterapeuta. 103 APRESENTAÇÃO Em minha trajetória acadêmica e vivência profissional, desde 1998, com o atendimento a pacientes idosos, sempre esteve presente o interesse por uma abordagem diferenciada na Fisioterapia. A monografia apresentada para conclusão do bacharelado, que encontravam-se cadastradas, para cuidados domiciliares, em um projeto de ação continuada e extensionista intitulado: Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Extensão em Cuidados à Saúde da Família em Convibilidade com Doenças Crônicas (Niefam), no município de Jequié, BA, vinculado à UESB e à Secretaria Municipal de Saúde do referido município. Tal estratégia serviu como base teórico-metodológica para a fundamentação das ações de cuidados fisioterapêuticos em domicílio. A justificativa que enlaça as preocupações do referido núcleo encontra-se ancorada na importância do trabalho fisioterapêutico no atendimento domiciliar e no cuidado ao indivíduo diante de estados de fragilidade, incapacidade e imobilidade, ao deslocar-se às clínicas especializadas para a assistência à saúde, e pela demanda familiar em suprir tais necessidades. Considerando os estudos encontrados nas bases de dados, que demonstram a necessidade de fomentar conhecimento nessa área de atuação profissional, pensamos ser o estudo que ora se apresenta de grande relevância por preocupar-se com a busca do conhecimento do estado da arte para intervir no contexto de suas ações de cuidados fisioterapêuticos aos munícipes cadastrados no Niefam, pelos subsídios para as ações do núcleo em suas multiversas ações em seus grupos de estudo, pesquisa e cuidados familiar-domiciliares que envolvem o referido projeto na construção de conhecimentos para o processo de cuidar humano profissional, no enlace interdisciplinar. Serve ainda para instigar os profissionais da fisioterapia a compartilharem os resultados de seus atendimentos realizados no âmbito domiciliar publicando seus trabalhos. Materiais e métodos Trata-se de um estudo tipo revisão de literatura em bases de dados, por meio do Portal de Periódicos da Capes – BIREME, MEDLINE, LILACS, SciELO e Google Acadêmico –, realizado no período de dez anos, conforme enunciado em parágrafos precedentes, sendo estendido até janeiro de 2009 na tentativa de encontrar novas publicações. O período de busca compreendeu os meses de julho/2008 a janeiro/2009. O percurso tomado para desvelar o objetivo do estudo foi a realização da busca nas bases, utilizando os descritores anteriormente listados. Para tanto, o portal da Capes foi o acesso principal, 497 Fisioter Mov. 2011 jul/set;24(3):495-501 da Silva LWS, Durães AM, Azoubel R. 498 a partir do ISI e Scopus, por meio do link de entrada de palavras-chave. Obteve-se um total de 31 artigos, os quais foram separados criteriosamente por ano e arquivados em pasta arquivo no Word. Posteriormente foi realizada uma leitura criteriosa dos resumos e abstracts, eliminando artigos que não encontravam aderência à pesquisa, seguindo-se uma leitura refinada de cada estudo. Assim, foram selecionados doze artigos, um trabalho de dissertação de mestrado e um trabalho de conclusão de curso, que foram salvos em nova pasta arquivo no programa Word. Os trabalhos selecionados emergiram dos periódicos: Fisioterapia em Movimento, Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Revista Brasileira em Promoção da Saúde, Reabilitar, Revista Saúde.com, Semina: Ciências Biológicas e da Saúde, São Paulo Medical Journal, Rev. Ciênc. Méd., (Campinas), Revista Brasileira de Cirurgia do Joelho, Arq. Ciências Saúde Unipar e Revista Fisioterapia Brasil. Ressalta-se que, a princípio, a pesquisa foi realizada compreendendo o período de investigação entre 2003 a 2008, ou seja, cinco anos, e graças ao pequeno número de artigos encontrados retrocedeu-se a busca para um período entre 1998 a 2008, a fim de encontrar um maior número de trabalhos publicados à guisa de sua inserção na revisão bibliográfica. A busca demonstrou existir uma escassez de estudos nessa área de conhecimento, apontando para a necessidade de se preencher essa lacuna. Resultados e discussão Os artigos selecionados trataram de assistência fisioterapêutica domiciliar a pessoas portadoras de acidente vascular cerebral, incapacidades neurológicas, capacidade funcional do idoso restrito ao domicílio, esclerose lateral amiotrófica, portadores de doença pulmonar obstrutiva crônica, doença de Parkinson, aids, fibrose cística, reabilitação do ligamento cruzado anterior, mulheres submetidas à cirurgia por câncer de mama e pacientes pediátricos com quadro de hipertensão, conforme a Tabela 1. Na perspectiva de enlaçamento dos estudos encontrados destacam-se aspectos que foram considerados de relevância para a clínica de assistência domiciliária pelo fisioterapeuta, a exemplo da melhora nas condições clínicas de pacientes com alterações neurológicas em relação à dor e parestesia, decorrentes dos períodos de imobilização (5). Contudo, é salutar destacar a necessidade da realização de mais estudos sobre a fisioterapia domiciliar para o aprimoramento e desenvolvimento de novas propostas de atuação a serem implementadas (4). Essa constatação encontra respaldo na área de gerontogeriatria, no que se refere à fisiologia do envelhecimento, em outras palavras, o envelhecer e o processo de adoecer com o aumento das polipatologias nessa etapa do ciclo vital em que se exigem maiores estudos sobre a fisioterapia domiciliar aplicada ao idoso. Quanto à demanda por esse serviço, o que acontece na maioria dos casos, ocasionada principalmente pelas doenças crônicas, estando a função motora estatisticamente em maior prevalência, os cuidados fisioterapêuticos têm proporcionado resultados significativos (em torno de 35% de melhora da mobilidade relacionada ao quadro de restrição ao leito (1)). Aliase a essa questão o atendimento fisioterapêutico domiciliar a pacientes portadores de acidente vascular encefálico, também uma patologia muito relacionada à fase senescente do indivíduo, em que o tratamento fisioterapêutico domiciliar proporciona evoluções significativas no quadro clínico do portador. Assim, por meio desta revisão, constatou-se que tal nosologia, sob intervenção fisioterapêutica, apresenta redução do edema de membros inferiores, melhora a dinâmica circulatória progressiva, favorece o retorno parcial do movimento de abdução dos dedos do pé, extensão e flexão dos dedos e tornozelo, no desenvolvimento das AVDs, e também melhora da postura e marcha para deambular dentro da própria casa com mais segurança (2). Percebe-se, a partir dos trabalhos aqui elencados, o cuidado que os autores tiveram em demonstrar a importância da intervenção de cuidados a nível domiciliar como uma metodologia a ser praticada no cotidiano do exercício profissional do fisioterapeuta, sendo considerados os benefícios para o cliente/ paciente; a família, enquanto unidade de cuidados primeira aos seus membros; o contexto domiciliar, enquanto ambiente de riscos às barreiras ambientais; as relações e interações vinculares familiar e fisioterapeuta, entre multiversos fatores que enlaçam o contexto de cuidado no domicílio. Assim, versar sobre o cuidado fisioterapêutico domiciliar é abrir horizonte de cuidados a serem explorados no reforço a tal metodologia e apresentar à comunidade científica e em geral os resultados de abordagens de cuidados nesse complexo sistema chamado família e em seu território de poder – o domicílio. Fisioter Mov. 2011 jul/set;24(3):495-501 Fisioterapia domiciliar Tabela 1 - Síntese de trabalhos encontrados nas bases de dados (Continua) Título do trabalho/ ano de publicação Autor(es) Intervenção fisioterapêutica na comunidade: relato de caso de uma paciente com AVE/ano 2005 Ferreira FN, Leão I, Saqueto MB. Base de dados/revista Google Acadêmico/Revista. Saúde. Com Foco do trabalho Verificar os benefícios da intervenção fisioterapêutica na comunidade jequieense, sendo destacado o atendimento domiciliar a uma paciente de 74 anos acometida por AVE há oito anos, demonstrando a eficácia da terapêutica implementada no domicílio (2). Capacidade funcional de idosos restritos ao domicílio, do conjunto Ruy Virmond Carnascialli, Londrina, PR/ano 2005 Trelha CS, Nakaoski T, Franco SS, Dellaroza MSG, Yamada KN, Cabrera M, Mesas AE, Gaetan CB. Google Acadêmico; Scopus/Semina: Ciências Biológicas e da Saúde Avaliar a incapacidade funcional de 104 idosos restritos ao domicílio no conjunto Ruy Virmond Carnascialli, Paraná (3). A capacidade funcional de pacientes e a fisioterapia em um programa de assistência domiciliar/ ano 2008 Alencar MCB, Henemann L, Rothenbuhler R. Google Acadêmico/Fisioterapia em Movimento Avaliou a capacidade funcional dos pacientes atendidos no programa de assistência domiciliar de uma unidade de ESF e analisou a contribuição da fisioterapia. Os resultados indicaram melhoras de transferências posturais e mobilidades ativas, principalmente em membros inferiores (4). Atuação do fisioterapeuta no atendimento domiciliar de pacientes neurológicos: a efetividade sob a visão do cuidador/2005 Felício DNL, Franco ALV, Torquato MEA, Vasconcelos AP. Google Acadêmico/Revista Brasileira em Promoção da Saúde araras); para os índios Carajás, em sua língua, o Berohoky (isto é de explicar onde eles teriam vindo e passado a morar e a viver no fundo do rio. Aí fundaram uma aldeia onde todos viviam muito pacificamente; nada lhes faltava; tinham comida em abundância, havia uma panela de barro para cada um e essa panela enchia-se novamente de comida sempre que alguém a esvaziava. Era Kanansiuê, na sua bondade infinita, quem provia para que nunca lhes faltasse o alimento. Por essa razão, eles eram todos, sem exceção, muito gordos e, na sua cerâmica figurativa, são, ainda hoje, representados freqüentemente através das figuras ventrudas e em geral com 369 muita adiposidade nas nádegas e nas coxas, sobretudo as mulheres. Nessa aldeia do fundo do rio, ninguém tampouco morria; era somente nascer, crescer, engordar e reproduzir-se à vontade; não existam doenças e eles não conheciam o sofrimento e a dor de qualquer espécie. Kanansiuê invisível, mas estava presente o tempo todo por meio de sua generosidade e magnanimidade; era o pai de todos os Inan, como eles chamavam-se a si próprios em sua língua e nenhum índio jamais ousara contrariar a sua vontade. A vida na aldeia desenrolava-se monotonamente, os mais jovens ficavam a maior parte do tempo sentados em volta de um índio mais velho que contava as estórias da tribo e, em todas, Kanansiuê era exaltado pelos seus feitos benevolentes. Praticamente, ninguém teria qualquer motivo para estar insatisfeito. Ainda assim, um índio chamado Kboí um dia começou a mostrar sinais de inquietação. Tinha ouvido falar que fora das águas, além das margens do grande rio, havia outras formas de vida, um mundo completamente diferente daquele que todos conheciam, com animais estranhos e uma vegetação abundante. Parece que a condição humana contém essa qualidade mesmo nos estados de satisfação plena, surge algo que pressiona o ser no sentido de provocar mudanças, de procurar transformar a própria satisfação num estado de insatisfação. Aos poucos, o desejo de conhecer esse mundo novo e imaginário foi crescendo na mente de Kboí. Era em parte, um produto das muitas estórias que ele ouvira dos mais velhos, desde pequeno, descrições fabulosas sobre um mundo estranho, de onde ninguém jamais retornara. Viu-se possuído pelo fantasma da curiosidade e a sua inquietação crescia cada vez mais, até tornar-se incontrolável. Os mais velhos e mais vividos, percebendo o perigo, trataram de persuadi-lo. Para que sair? Ele não tinha tudo quanto precisava no fundo do rio? Kanansiuê não era amigo de todos? Eram perguntas que o próprio Kboí não saberia responder; sentia avolumar-se a curiosidade como uma força irresistível. ‘As coisas existem e são como são’ – dissera-lhe certa vez um índio mais velho, bem mais velho. Na aldeia do fundo do rio ninguém sabia a idade de ninguém; e para que saber? Não havia razão alguma, aparentemente, para preocupar-se com essas coisas, de resto, absolutamente sem importância. Para que se preocupar com o tempo, quando ele não tinha lá grande utilidade? De qualquer modo, foram em vão todos os esforços para tentar dissuadir e desestimular Kboí. Ele permanecia em suas dúvidas, tendo possivelmente conseguido introduzir entre os companheiros, na aldeia (pode ser que pela primeira vez), um incerto sentimento de mal-estar. Procurou um amigo e tratou de partilhar com ele os seus planos. U-ô-Ubêdo relutou um pouco, mas terminou por concordar em acompanha-lo. E se nós dois morrermos? Perguntou-lhe ‘Eu não sei.’ retrucou Kboí, ‘ Você não está cansado desta vida de nunca morrer. de nunca acontecer nada?’. Segundo a lenda, os dois amigos decidiram procurar a saída que dava acesso à superfície do rio. Tinham ouvido falar de um buraco, o ruê-Bêérokan, que era preciso achar para chegar à tona. Depois de uma busca prolongada, de uma longa e cansativa caminhada, conseguiram encontra-lo, justo no local onde o rio era mais fundo e a água mais escura. Dizem que foi ao amanhecer. Kboí foi o primeiro a subir, queria ser o primeiro a sair. Pôs a cabeça para fora, olhou em redor, viu as margens, árvores grandes, de copas frondosas; havia algumas caídas, provavelmente tombadas pelo efeito das 370 enchentes e da erosão; queria encontrar sinais de vida, dos animais fantásticos de que ouvira falar, mas não havia um só. Indagou-se sobre o que estaria acontecendo. Seriam verdadeiros os relatos que ouvira, ou Kanansiuê, para desanimá-los teria mandado que se escondessem? Sentiu-se intrigado com aquela ausência. Tentou sair, de uma vez, para a superfície, mas ele era muito gordo e a sua barriga não permitiu, mesmo forçando o corpo na passagem. Ficou meio do lado de fora e metade para dentro, tendo que ser ajudado por U-ô-Ubedô para retornar. Seu amigo era um pouco mais magro; experimentou a passagem, ajeitou-se e conseguiu. De pronto, viu-se nadando sobre as águas, o que ela para ele, uma sensação absolutamente nova e inusitada. Entusiasmado com o sucesso, dirigiu-se para uma das margens, pisou em terra firme e viu-se caminhando sobre os próprios pés com o ar batendo no corpo. Estava deslumbrado com o que via, porém não encontrou, como Kboí, qualquer vestígio de animais diferentes. Depois de andar durante algum tempo, sentiu fome; procurou a panela de barro e a encontrou cheia de comida, bem ao seu lado. Alimentou-se fartamente, como de hábito, e prosseguiu explorando aquele mundo novo e enigmático; era tudo diferente. Cada detalhe, cada árvore, arbusto, vegetação, tudo atraía a sua atenção. Mais tarde, quando voltou a sentir fome, procurou a panela, mas, dessa vez, não a encontrou. A princípio. Pareceu não dar grande importância ao fato. Entretanto, a fome foi aumentando; começou a achar muito estranha aquela sensação nova e, pela primeira vez, sentiu no estômago vazio, algo que poderia ser dor. Resolveu voltar. Kboí esperava-o ansioso para ouvir detalhes de sua exploração. Contou-lhe tudo quanto vira; estava, contudo, fortemente impressionado com a ausência da panela de comida; pediu ao amigo que lhe trouxesse algo para comer, pois aquela sensação estava se tornando insuportável; não sabia que era assim tão ruim. Tentou ultrapassar o buraco de volta, e, surpreendentemente, não o conseguiu. Isso era estranho e preocupante, porque o buraco permanecia igualmente aberto, e não dava para entender porque o acesso só poderia ser feito de dentro para fora, e não de fora para dentro. Os dois companheiros estavam aturdidos e começavam a acreditar nas estórias dos mais velhos: não haveria retorno para quem fosse à superfície. Sem saber o que fazer, Kboí decidiu voltar à aldeia no fundo do rio e consultar os anciãos da tribo para pedir-lhes conselhos. Rogou-lhes que interferissem junto a Kanansiuê. Estes o fizeram a contragosto, insistindo em advertir-lhes sobre as conseqüências de sua decisão. O deus, a essa altura, já estava irritado: concordou em deixa-los partir, porém deveriam ficar sabendo que, fora das águas, seus poderes eram muito limitados. Kboí era mesmo um obstinado; estava decidido a correr todos os riscos; para começar submeteu-se a um rigoroso regime de emagrecimento, enquanto convencia outros índios a arriscarem a vida do lado de fora das águas. Terminou convencendo um grupo, que o seguiu ao encontro do amigo; este já os esperava impaciente. Atingiram a superfície, nadaram na direção da margem do rio e por ela caminharam até encontrar um barranco mais alto, Aí se fixaram, formando a primeira aldeia em terra firme. Mas.fora do rio, a vida era muito difícil, eles tiveram que aprender a pescar e a caçar, precisavam saber quais as plantas que serviam para a sua alimentação, quais as que eram venenosas. Não tinham noção de como construir uma cabana. Ficaram, durante muito tempo, expostos às 371 intempéries, não conseguindo adivinhar o que era bom e o que era mau. No fundo do rio era tudo igual, ninguém jamais tivera a menor necessidade de ficar sabendo dessas coisas. Logo, alguns índios começaram a adoecer e morrer. Fazia-se necessária uma ajuda grande e urgente. Quando seu desespero chegou a um ponto crítico, um dia Kanansiuê apareceu-llhes, conta a lenda, sob a forma de um índio alto e forte: - Então, os fugitivos dos meus domínios não sabem viver sem minha proteção? - Não somos fugitivos, respondeu-lhe o chefe, saímos com a tua permissão. -Permiti porque fui obrigado pelo vosso desejo e nem mesmo um deus deverá matar, nos homens, os seus anseios de liberdade; mas isso me doeu muito, pois lá, no fundo das águas, eu vos dava tudo e vós recusastes as minhas dádivas. Ainda assim, o deus, magoado, consentiu em ajuda-los e saiu em busca do Urubu-rei, armando uma trama para atraí-lo e aprisiona-lo, obrigando-o a passar um dia na terra, entre os Inan, ensinandolhes tudo o que precisavam saber para poderem sobreviver fora das águas. Texto disponível: OLIVEIRA, Creusa Salette de. O Desvelamento do mundo Karaja colhido pelos nomes e pelas imagens do Psicodiagnóstico de Rorschach. Universidade Católica de Goiás, 2004.
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