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Inovação, competências e recursos humanos: uma articulação possível? Estudo em organizações brasileiras e portuguesas

Documento informativo
0 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS ADMINISTRATIVAS CENTRO DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISAS EM ADMINISTRAÇÃO GLAUCIENE SILVA MARTINS INOVAÇÃO, COMPETÊNCIAS E RECURSOS HUMANOS: UMA ARTICULAÇÃO POSSÍVEL? Estudo em organizações brasileiras e portuguesas Belo Horizonte Março 2013 GLAUCIENE SILVA MARTINS 1 INOVAÇÃO, COMPETÊNCIAS E RECURSOS HUMANOS: UMA ARTICULAÇÃO POSSÍVEL? Estudo em organizações brasileiras e portuguesas Dissertação apresentada ao curso de Mestrado em Administração do Centro de Pós-Graduação e Pesquisas em Administração da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito à obtenção do título de Mestre em Administração. Área de concentração: Gestão de Pessoas e Comportamento Organizacional Orientador: Professor Allan Claudius Queiroz Barbosa Belo Horizonte Março 2013 2 3 AGRADECIMENTOS Esta dissertação não foi fruto de um trabalho isolado, na medida em que envolveu a colaboração e a atenção de várias pessoas para a sua execução. Ao Professor Allan Claudius Queiroz Barbosa, meu orientador, pelo incentivo, disponibilidade, dedicação e competência em prover os rumos deste trabalho. Aos Professores Gustavo de Britto Rocha, Lin Chih Cheng e Eduardo Albuquerque, pelas importantes contribuições fornecidas na defesa do projeto de pesquisa. Aos gestores das empresas que concederam as entrevistas para a execução desta pesquisa, pelo interesse e disponibilidade em compartilhar seu conhecimento. À Filomena Ferreira, pelo carinho, atenção e paciência em me acolher no ISEG, em Lisboa. Aos Professores Fernando Gonçalves e Manoel Laranja, também do ISEG, pela disponibilidade e atenção em me colocarem em contato com importantes empresas que fizeram parte deste estudo. À Professora Ilona Kovács pelas sugestões e atenção concedida. Ao Professor Joaquim Ramos Silva, pelo acolhimento, interesse e simpatia. À Mafalda, querida amiga portuguesa, que me acompanhou na época da elaboração do projeto e da coleta de dados em Portugal, pelo delicioso acolhimento de toda sua família, o que me permitiu comprovar o encanto do povo português. Aos amigos Carine Carla, Mariana Coscareli, Daniela, Maurício Zanon e Alexandra Simões, por me colocarem em contato com os gestores que me concederam as entrevistas. Aos amigos do CEPEAD, do Nig.One, da FACE e do ISEG, com os quais compartilhei experiências, inquietações e alegrias. Ao Anderson, pela ajuda com as transcrições. À Izabel, Isabella, Denise, Flávia, Natália, Ana, Mariana Mayumi, Kamila, Luana, Leandro Silva, Márcia Rapini, Mariana Guedes, Beatriz, Simone, Fernanda, Antônio Carlos, Clara, Kary, Aline, Getúlio, Eliana, Márcia Alemão, Lyovan, Daniel Lopes, Kelyane, Hugo, Ido e Vera, pelas sugestões e por me escutarem em meus momentos de reflexão mais confusos. À Luana e ao Cristiano, por me acolherem calorosamente em Sete Lagoas durante a realização das entrevistas. A minha mãe, Suely, que, a seu modo, soube me proporcionar sabedoria e tranquilidade para conduzir meu trabalho. Ao Leo, meu amor, companheiro, principal incentivador e ouvinte. À Glaucimary, Gleiciane, Rogério, Maria Lúcia, Luíza, pela importante presença. À CAPES, pela concessão da bolsa que viabilizou minha dedicação exclusiva ao curso; ao corpo docente do CEPEAD e aos funcionários da FACE; e ao Professor Afonso Celso, revisor deste trabalho. 4 RESUMO O objetivo geral desta dissertação consiste em descrever a articulação entre as dimensões recursos humanos, inovação e competências, identificando as ações decisivas para a criação, implantação e manutenção das rotinas organizacionais que contribuem para os processos de inovação dentro das empresas ou são condicionadas por eles. Em razão da complexidade da problemática colocada, as vias de solução desenvolvidas contribuíram para a construção de um quadro analítico das variáveis de estudo inseridas no debate, com apoio tanto na teoria quanto na perspectiva prática dos gestores das empresas, o que conduz ao esclarecimento da articulação entre as dimensões analisadas. Adotou-se como estratégia metodológica o estudo de casos. A coleta de dados levou em consideração evidências primárias, cuja principal fonte foram as entrevistas semiestruturadas com gestores de onze empresas, sendo cinco localizadas em Portugal e seis no Brasil. Os principais resultados deste trabalho emergem sob as formas: a) teórica – propôs-se uma argumentação que considere a construção social da inovação na perspectiva da gestão das empresas, contemplando elementos da economia evolucionária, da noção de competências e da abordagem contemporânea de recursos humanos; e b) prática – são apresentadas ações e percepções concretas dos atores da inovação dentro das empresas. Dessa forma, esta dissertação gera subsídios para estudos futuros que visem acrescentar informações aos esforços e instrumentos de investigação, numa tentativa de melhorar a capacidade interpretativa e explicativa daqueles que estudam e praticam a inovação nas empresas. Palavras-chave: Inovação; Recursos humanos; Competências; Inovação organizacional. 5 ABSTRACT The assess the relationship between human resources, innovation, and competencies dimensions, identifying decisive actions for the creation, deployment and maintenance of organizational routines that contribute to innovation processes within companies. Given the complexity of these issues, the solution proposed led to the construction of an analytical framework of the relevant variables. The selection of the variables was based on the relevant theory and on the practice, from the perspective of managers that leading to clarify the relationship between the dimensions analyzed. The methodological strategy adopted was the case study, and data collection of primary information was based on semi-structured interviews with managers from eleven companies (five are located in Portugal and six in Brazil). The main results can be split in two forms: a) theoretical – development of an argument which considers the social construction of innovation from the perspective of business management, covering elements of evolutionary economics, the notion of competencies and contemporary approach of human resources; b) practice – the presentation of actions and perceptions of the actors of innovation within companies. Thus, this work generates benefits for future studies aimed at adding information and research tools in an attempt to improve the explanatory and interpretative ability of those who study and practice innovation in enterprises. Key-words: Innovation; Human Resources; Competencies; Organizational Innovation. 6 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Referencial teórico: abordagem da dimensão inovação 17 Figura 2 – Espiral de análise dos dados qualitativos 83 Figura 3 – Representação esquemática da do inter-relacionamento da dimensão inovação 169 Figura 4 – Representação esquemática do inter-relacionamento da dimensão recursos humanos 172 Figura 5 – Representação esquemática do inter-relacionamento da dimensão competências 175 LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Modelo genérico de competências gerenciais Quadro 2 – Diferenças entre normas relativas aos tipos de competência Quadro 3 – Dois modelos da competência Quadro 4 – Distinção entre recursos, competências e profissionalismo Quadro 5 – Mudanças no paradigma tecnoeconômico Quadro 6 – Concepções organizacionais comparadas Quadro 7 – Abordagens em recursos humanos Quadro 8 – Síntese do percurso teórico Quadro 9 – Ramo de atividades das empresas estudadas Quadro 10 – Dados gerais das entrevistas realizadas Quadro 11 – Análise de dados e representação do estudo de caso Quadro 12 – Síntese do percurso metodológico Quadro 13 – Categorias, variáveis e justificativa Quadro 14 – Presença nas entrevistas das variáveis de estudo, por categoria 7 33 35 37 37 41 51 54 61 79 81 84 85 87 168 8 SUMÁRIO 1 APRESENTAÇÃO ________________________________________________________ 9 2 REFERENCIAL TEÓRICO ________________________________________________ 16 2.1 Inovação e desenvolvimento econômico ___________________________________ 17 2.2 Competências e capacidades dinâmicas ____________________________________ 23 2.3 Inovações organizacionais ______________________________________________ 38 2.4 Recursos humanos: situando o debate _____________________________________ 49 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ____________________________________ 64 3.1 Situando o estudo _____________________________________________________ 64 3.2 Inovação no Brasil e em Portugal _________________________________________ 67 3.3 Estratégia metodológica ________________________________________________ 72 3.4 Coleta de dados e características das empresas estudadas ______________________ 76 3.5 Tratamento e análise dos dados __________________________________________ 81 4 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS _____________________________________ 89 4.1 Empresa 1 ___________________________________________________________ 89 4.2 Empresa 2 ___________________________________________________________ 93 4.3 Empresa 3 ___________________________________________________________ 98 4.4 Empresa 4 __________________________________________________________ 103 4.5 Empresa 5 __________________________________________________________ 113 4.6 Empresa 6 __________________________________________________________ 121 4.7 Empresa 7 __________________________________________________________ 128 4.8 Empresa 8 __________________________________________________________ 135 4.9 Empresa 9 __________________________________________________________ 143 4.10 Empresa 10 ________________________________________________________ 149 4.11 Empresa 11 ________________________________________________________ 156 4.12 Quadro síntese das categorias de estudo, por empresa _______________________ 167 5 ANÁLISE DOS RESULTADOS ___________________________________________ 169 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ______________________________________________ 184 REFERÊNCIAS __________________________________________________________ 189 APÊNDICE _____________________________________________________________ 197 ROTEIRO DAS ENTREVISTAS SEMIESTRUTURADAS _____________________ 197 QUADRO – SÍNTESE COMPARATIVA DOS RESULTADOS __________________ 200 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS, POR VARIÁVEL _______ 213 9 1 APRESENTAÇÃO O objetivo geral da pesquisa realizada para a elaboração desta dissertação foi descrever a articulação entre as dimensões recursos humanos, inovação e competências, identificando as ações decisivas para a criação, implantação e manutenção das rotinas organizacionais que contribuem para os processos de inovação dentro das empresas ou são condicionadas por eles. À luz da corrente contemporânea de gestão de recursos humanos, cujos pilares apoiam-se na noção de competências, e de teorias da inovação, que também abarcam tal noção, pretende-se analisar as características da construção do processo de inovação dentro das empresas e as práticas de gestão de recursos humanos adotadas, ligadas a esse processo. Estudos recentes da Administração apontam para um debate mais decisivo acerca das práticas de recursos humanos na busca pela vantagem competitiva sustentável (ULRICH, 1998). Da mesma forma, a inovação, entendida como o principal elemento da dinâmica do capitalismo no que tange a seu crescimento e desenvolvimento (SCHUMPETER, 19881), tem sido apontada pelos estudiosos do tema como base das estratégias de sucesso das empresas. Mertens (1996) destaca a necessidade de gerar vantagem competitiva em um contexto de globalização a partir da diferenciação (ou inovação), mediante o desenvolvimento de suas competências-chave, dentre as quais se destaca a competência humana. Daí a necessidade de articular os três temas – “recursos humanos”, “inovação” e “competências” – que fazem parte do eixo estruturante desta dissertação, para a compreensão da dinâmica organizacional no atual contexto, identificado como a “Era da microeletrônica e das redes de computadores”, baseada no conhecimento, na organização em redes, na informatização, no controle, na qualidade, no treinamento e no planejamento dos investimentos e da produção (FREEMAN; PEREZ, 1988). Na esteira do debate colocado, a noção de competências, como resposta à atual evolução na dinâmica do funcionamento das organizações, constitui referência e ferramenta para a orientação das discussões propostas neste estudo. Perspectivas contemporâneas relativas ao entendimento da vantagem competitiva dão destaque aos recursos e às dinâmicas internas às organizações como determinantes de níveis 1 Edição original de 1911. 10 superiores de desempenho. Como ponto de partida para a introdução da argumentação central desta dissertação, cabe esclarecer a compreensão da firma como o conjunto de seus recursos produtivos (materiais e humanos), em que os serviços que podem prestar constituem os insumos do processo produtivo e a competência administrativa constitui “uma função da qualidade dos serviços empresariais de que ela dispõe” (PENROSE, 20062, p. 77). Os serviços prestados pelos recursos dependem, então, da capacidade das pessoas de usá-los e provê-los. O desenvolvimento de tais capacidades, todavia, é parcialmente moldado pelos recursos com que elas lidam. “Juntos, eles criam as oportunidades produtivas e de uma determinada firma” (PENROSE, 2006, p. 135). Considerando-se, então, as práticas de recursos humanos como estratégias para a promoção e o estabelecimento de tais serviços e capacidades, implícitos nas rotinas e idiossincrasias das empresas e gerados a partir de processos de aprendizado, levanta-se a problemática da influência mútua entre inovação e gestão de recursos humanos. A inovação é tratada do ponto de vista processual e está subentendida, sobretudo, nas práticas gerenciais voltadas para a formação de competências ou é resultante da coordenação das competências estabelecidas. Tem-se a competência como recurso e como meio necessário para inovação. A inovação é aqui estudada em empresas situadas em duas diferentes realidades nacionais: Brasil e Portugal. A análise comparativa justificou-se pela necessidade de avaliar o mesmo objeto de análise – inovação organizacional – em realidades distintas, com o intuito de obter conclusões consistentes e de contribuir para o debate em questão. Optou-se por focar o nível de análise organizacional, em razão de a inovação determinar a competitividade e o desempenho das empresas no atual ambiente tecnológico e comercial. Considera-se, assim, a habilidade para inovar como um recurso estratégico desenvolvido do ponto de vista da gestão. É necessário analisar, entretanto, o contexto em que as práticas de gestão irão se instituir e disseminar (FISCHER, 1998). Freeman e Perez (1988) argumentam que é tomando-se como referência o novo “paradigma tecnoeconômico” que se busca compreender o fenômeno da inovação (ou de sua difusão). Como sucede com todas as grandes novas tecnologias, os problemas sociais de assimilação e aplicação são enormes. E “isto aplica-se com mais propriedade ainda às mudanças sociopolíticas e culturais do que à tecnologia” (FREEMAN; 2 Edição original de 1959. 11 LOUÇÃ, 2005, p. 336). Chandler (1997) observou em seus estudos que cada empresa traduz em sua estratégia a interpretação que os tomadores de decisão atribuem à realidade econômica. Além disso, Dosi e Marengo (1994) ponderam que conhecimento organizacional não é pressuposto nem derivado de informação disponível, mas emerge como propriedade do sistema de aprendizado e é formado pela interação entre os vários processos de aprendizado que constituem a organização. Assim, nos estudos relacionados à gestão, crescimento e desempenho das organizações a atenção volta-se para a dimensão humana e para os processos sociais internos decorrentes da constituição da organização em si e da própria ação administrativa. A dimensão recursos humanos, de difícil mensuração e visualização, gera o problema da própria qualidade, que, paradoxalmente, o converte em sua principal fonte de potencial competitivo sustentável (BECKER; HUSELID; ULRICH, 2001). Por isso, acredita-se que as práticas de gestão de recursos humanos – tais como recrutamento e seleção, treinamento e desenvolvimento, avaliação de desempenho, definição de cargos e salários – são decisivas para a criação, implantação e manutenção das rotinas organizacionais, configurando-se como de vital importância para a implementação da estratégia da organização, sobretudo na conformação dos recursos internos, principalmente os intangíveis, como as competências individuais. Lam (2005) declara que a literatura sobre inovação avançou na compreensão dos efeitos da estrutura organizacional na habilidade das organizações em aprender, criar conhecimento e gerar inovação tecnológica, embora saiba-se relativamente menos sobre as dinâmicas organizacionais internas e sobre a interação de aprendizagem envolvendo os atores e as forças tecnológicas e ambientais no sentido de moldar a evolução organizacional. Para a autora, é ainda pouco claro como e sob quais condições as organizações mudam de um tipo de estrutura para outro, alertando que e o papel da inovação tecnológica na condução do processo de mudança organizacional é também obscuro (LAM, 2005). Schumpeter (1988, p. 54) define inovação como “nova combinação dos meios de produção”, atribuindo-lhe vital importância para a compreensão e promoção do desenvolvimento econômico. Inovação é, então, considerada como elemento fundamental da dinâmica do capitalismo contemporâneo. Trata-se de um fenômeno de natureza complexa e de difícil apreensão e sistematização, sobretudo pela difusão de conceitos que abordam diferentes 12 dimensões desse fenômeno e pelas diversas possibilidades de interpretação. Inovações organizacionais estão intimamente relacionadas com outros Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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