Feedback

Sticker: colando idéias

Documento informativo
STICKER: COLANDO IDEIAS UNESP - UNI VERSI DADE ESTADUAL PAULI STA “ Júlio de Mesquit a Filho” - I NSTI TUTO DE ARTES. Cam pus de São Paulo Program a de Pós- Graduação em Art es Mest rado LUCI ANA JORGE RODRI GUES Orient ador: Prof. Dr. Om ar Khouri 2010 I STICKER: COLANDO IDEIAS UNESP - UNI VERSI DADE ESTADUAL PAULI STA “ Júlio de Mesquit a Filho” - I NSTI TUTO DE ARTES. Cam pus de São Paulo Program a de Pós- Graduação em Art es Mest rado Dissert ação subm et ida à Unesp com o requisit o parcial exigido pelo Program a de Pós- Graduação em Art es, área de concentração em Artes Visuais, linha de pesquisa: Processos e Procedim ent os Art íst icos, para obt enção do t ít ulo de Mest re em Art es. Orient ador: Prof. Dr. Om ar Khouri LUCI ANA JORGE RODRI GUES 2010 II STICKER: COLANDO IDEIAS UNESP - UNI VERSI DADE ESTADUAL PAULI STA “ Júlio de Mesquit a Filho” - I NSTI TUTO DE ARTES. Cam pus de São Paulo Program a de Pós- Graduação em Art es Mest rado LUCI ANA JORGE RODRI GUES Banca exam inadora: __________________________________ Orient ador: Prof. Dr. Om ar Khouri - UNESP __________________________________ Banca Exam inadora: Paula de Vincenzo Fidelis Belfort Mat t os - USJT __________________________________ Banca Exam inadora: Milt on Terum it su Sogabe - UNESP Defesa 09/ 11/ 2010 III STICKER: COLANDO IDEIAS )LFKDFDWDORJUi¿FDSUHSDUDGDSHOR6HUYLoRGH%LEOLRWHFDH Docum ent ação do I nst it ut o de Art es da UNESP ( Fabiana Colares CRB 8/ 7779) R6 9 6 s Rodrigues, Luciana Jorge. St icker : colando idéias / Luciana Jorge Rodrigues. - São Paulo : [ s.n.] , 2010. 162 f. %LEOLRJUD¿D Orient ador: Prof. Dr. Om ar Khouri. 'LVVHUWDomR 0HVWUDGRHP$UWHV ±8QLYHUVLGDGH(VWDGXDO Paulist a, I nst it ut o de Art es. $UWHXUEDQD6WLFNHU DUWHFRPHWLTXHWDVDGHVLYDV  *UDI¿WL3L[DomR1 de m uros . 5. Colagem . I . Khouri, Om ar. ,,,8QLYHUVLGDGH(VWDGXDO3DXOLVWD,QVWLWXWRGH$UWHV,,, Tít ulo &''± 1 pixação pixação. IV Fig1 - sticker - s/ n Dedico $'DQLOR5RGULJXHV)HUUD]PHXDPDGR¿OKR STICKER: COLANDO IDEIAS Agradecim entos $JUDGHoRDRVPHXVSDLVSRUWHUHPPHDMXGDGRLQ¿QLWDVYH]HV Aos m estres, que tão gentilm ente colaboraram para o térm ino dessa dissertação. Ao Professor Orient ador Om ar Khouri, pela paciência e dedicação. À professora Paula De Vincenzo Fidelis Belfort Mat t os, por t er m e aj udado e encam inhado para a carreira acadêm ica. Ao professor Milt on Sogabe, pelas dicas sem pre preciosas e HOXFLGDWLYDV A Tadeu Jungle, que t ão gent ilm ent e abriu as port as de sua residência para contar um a parte de sua história a um a estudante. ¬0DULVD,$OYHVSRUVHUWmRDWHQFLRVDVQDVTXHVW}HVEXURFUiWLFDV escolar es. $WRGRVRV6WLFNHUVTXHFRODERUDUDPFRPULFDVLQIRUPDo}HVH YLYrQFLDV E a todas as pessoas que direta ou indiretam ente participaram na conclusão desse trabalho. VI STICKER: COLANDO IDEIAS Num m undo m ecânico e despersonalizado, o hom em tem um a VHQVDomR LQGH¿QtYHO GH SHUGD XPD VHQVDomR GH TXH D YLGD VH WRUQRX HPSREUHFLGD GH TXH RV KRPHQV HVWmR GH FHUWD IRUPD µGHVHQUDL]DGRV H GHVHUGDGRV¶ GH TXH D VRFLHGDGH H D QDWXUH]D KXPDQD IRUDP LJXDOPHQWH DWRPL]DGDV H DVVLP PXWLODGDV H VREUHWXGR GH TXH RV KRPHQV IRUDP VHSDUDGRV GR TXH TXHU TXH SRVVDGDUVHQWLGRDVHXVWUDEDOKRVHVXDVYLGDV ( TAYLOR, Charles; JOSEPHSON, Eric; JOSEPHSON, Mary 0DQ$ORQHDell Publishing, 1962. p. 11.) VII Resum o STICKER: COLANDO IDEIAS Sticker: colando ideias6XUJHFRPRREMHWLYRGHDQDOLVDUXPDQRYDPRGDOLGDGH da st reet art TXHDSDUHFHHPSODFDVPXURVHGLYHUVRVRXWURVVXSRUWHVQDFLGDGH de São Paulo, o st icker. $SRLDGD QD WHRULD GH +HEHUW 0DUFXVH R ¿OyVRIR GD FRQWUDFXOWXUD H HP HVWXGRV VREUH WRGDV DV PDQLIHVWDo}HV TXH FLUFXQGDP R REMHWR FRPR D DUWH XUEDQD R JUDI¿WLDSL[DomRHDFRODJHPHVVDGLVVHUWDomRWUD]LQIRUPDo}HVEiVLFDVVREUHR que é um sticker e suas inúm eras form as de com posição e apresentação, além de recort ar hist órias de art ist as precursores do st icker, com o Tadeu Jungle, e alguns artistas atuantes da prática nos dias de hoj e. $RFRQWH[WXDOL]DURWHPDSURSRVWRDYLYrQFLDVREUHDSUiWLFDGHFRODUst icker se faz present e na experiência pessoal descrit a no últ im o capít ulo, que apresent a desde a elaboração de um st icker at é a saída para a colagem , englobando t odo o SURFHVVRTXHFRPS}HDPDQLIHVWDomR 3DODYUDVFKDYHJUDI¿WLSL[DomRst icker, colagem , st reet art Grande área: com unicação e art e Área: arte STICKER: COLANDO IDEIAS Ab st r a ct Sticker: sticking ideas. I t arises wit h t he aim t o analyze a new m odalit y of street art, the sticker; shown in street boards, walls and m any other st ruct ures in t he Cit y of São Paulo. Based on t he t heory of Herbert Marcuse, t he count ercult ure philosopher, and on st udies of all m anifest at ions t hat surround t he obj ect , like Urban $UW *UDI¿WL 8UEDQ &DOOLJUDSK\ DQG &ROODJH WKLV GLVVHUWDWLRQ EULQJV EDVLF inform ation on what is a Sticker and its num erous form s of com position and present at ion, beside approaching t he forerunners, like art ist Tadeu Jungle, and som e ot her art ist s pract icing t his sam e t echnique t oday. ,Q RUGHU WR FRQWH[WXDOL]H WKH SURSRVHG WKHPH WKH H[SHULHQFH RYHU WKH pract ice of st icking is described on t he last chapt er, from t he m om ent of GHVLJQLQJ D VWLFNHU XQWLO WKH DFW RI SODFLQJ LW RQ WKH VWUHHWV FRYHULQJ WKH whole process that com poses the m anifestation. .H\ZRUGVJUDI¿WLVWLFNHUFROODJHVWUHHWDUW Great Area: art and com m unicat ion Area: art IX STICKER: COLANDO IDEIAS Sum ário Sticker: cola n do ide ia s . 0 1 I - Ca pít ulo: H ist ór ico 1.0 - Histórico.0 3 I I - Ca pít u lo: Stickers, a qu e le s qu e cola m . 1 7 2.0 Sticker . 18 2.1 Legislação, locais e form as de colar st icker . 21 2.2 Troca e organização dos St ickers . 26  ([SRVLomRGHst icker . 27  3URGXomRGHst ickers .  . 6HULJUD¿D.  . (VWrQFLO . 50 . 5HSURJUD¿D . 50 . Free Hand . 51 2.5 Onde t udo com eçou - Tadeu Jungle. 52 . )XUH¿OD±)DoD)LJDH)XMDGR)DURGD)HUD .  . 2.5.2 Passe a m ão . 56 . 9RFrHVWiDTXL. 58 . 3OD\*RG. 62 . 2.5.5 ART .  2.6 Stickers, aqueles que colam . 67 . 2.6.1 Rodrigo Chã . 72 . 2.6.2 Eli Golande .  . (GXDUGR/LEHUWp . 76 X STICKER: COLANDO IDEIAS . 5RJHU5RU . 78 . 2.6.5 Fernando_Cap . 79 . 2.6.6 Grupo SHN . 80 I I I - Ca pít u lo - 3HUVRQD$GHVLYD8PDH[SHULrQFLDSHVVRDO .8 5 Con side r a çõe s Fin a is . 9 2 %LEOLRJUD¿D .9 6 %LEOLRJUD¿D*HUDO . 96 Vídeo . 98  %LEOLRJUD¿D(VSHFt¿FD . 99  -RUQDLVH5HYLVWDV . 101 Sites . 102 Apêndices.1 1 1 (QWUHYLVWDFRP7DGHX-XQJOH . 112  (QWUHYLVWDFRP&DS)HUQDQGR . 117 Depoim ento grupo SHN . 126 Anexos . 1 3 2 Cola de Farinha .   0DQXDOSDUDLQYDVmRGD%LHQDO.  Lei am bient al .  Código Penal .  XI STICKER: COLANDO IDEIAS Í ndice de I m agens Figura 1 St icker - s/ n V Figura 2 St icker - s/ nXI X )LJXUD St icker - s/ n  )LJXUD St icker - Obey Giant - Shepard Fairey  Figura 5 St icker - s/ n 17 Figura 6 St icker - 0LVWHU3ULQJOHV 18 Figura 7 St icker - Com at om at e. 20 Figura 8 Vários st ickers, s/ n  $Y$XJXVWD)RWR/XFLDQD-RUJH5RGULJXHV. 21 Figura 9 St icker est ilet ado - s/ n Fot o: Eli Golande .  Figura 10 Arrem esso borbolet a Fot o: Eli Golande .  Figura 11,QVWUXo}HVGHDUUHPHVVRERUEROHWD I m agem : Eli Golande . 25 Figura 12 Exposição de st icker Galeria da loj a East park / 2008 - Fot o: Luciana Jorge .  XII STICKER: COLANDO IDEIAS )LJXUD Exposição de st icker Galeria da loj a East park / 2008 Fot o: Luciana Jorge .  )LJXUD Exposição de st icker Galeria da loj a East park / 2008 - Fot o: Luciana Jorge.  Figura 15 Poem a de I se  ,PDJHPH[WUDtGRGROLYURGH . La História Del collage. Del cubismo a la actualidad. .  Figura 16 Nat ureza m ort a com palha de cadeira 1912 - Óleo encerado e past el colados sobre t ela  HPROGXUDGDFRPFRUGD[FP3DEOR3LFDVVR3DULV .  Figura 17 Cachim bo e part it ura &DUYmRJUDI¿WLHJXDFKHHFRODJHPGHSDSHO  SUHSDUDGDFRPJXDFKHEUDQFR[FP3DULV .  Figura 18 &RQWUDUUHOHYRGHHVTXLQD  7pFQLFDPLVWD[[FP Vladim ir Tattin .  Figura 19 Da Dandy  )RWRPRQWDJHP[FP+DQQDK+RFK.  Figura 20 0HU]3RUWLIyOLR0HU]  6HLV/LWRJUD¿DVWLSRJUD¿DFRODJHPHOLWRJUD¿DVREUH  SDSHO[FP&ROHomR.XUWXQG(UQVW6FKZLWWHUV  6WLIWXQJ+DQQRYHU .  XIII STICKER: COLANDO IDEIAS Figura 21 Farm ácia  3LQWXUDHFRODJHP0DUFHO'XFKDPS .  Figura 22 'HVHQKRFRODJHP KRPHQDJHPDR0HDGRZV  &RODJHPJUD¿WHHOiSLVGHFDUYmRVREUHSDSHO  [FP[FPJoan Miró .  )LJXUD Nu azul I I 1952 - Colagem - Henri Mat isse .  )LJXUD O que exat am ent e t orna os lares de hoj e t ão diferentes, tão atraentes? Colagem - 1956 - Richard Ham ilt on .  Figura 25 Marinha 1971 - Vinil e colagem de encerados sobre Eucat ex  [FP&DUORV6FOLDU .  Figura 26 S/ n 1999 - Aquarela e colagem sobre papel 16 x 12 cm - Art hur Luiz Piza .  Figura 27 At las  6pULHDVVLPpRTXHOKHSDUHFH   &RODJHPVREUHSDSHO[FP1HOVRQ/HLUQHU.  Figura 28 Pássaros  $FUtOLFDVREUHWHODHWHFLGR[FP Leda Cat unda .  XIV STICKER: COLANDO IDEIAS Figura 29 St icker9LYDLQWHQVDPHQWHVHXVVRQKRV 6HPGDWDGHUHJLVWUR6HULJUD¿D .  )LJXUD St icker S/ n - Est êncil . 50 )LJXUD St icker  6Q5HSURJUD¿D . 50 )LJXUD St icker s/ n - Free hand . 51 )LJXUD)XUH¿OD)DoD¿JD)XMDGRIDURGDIHUD  3RHPDDGHVLYR[FP±FySLDV7DGHX-XQJOH. 55 )LJXUD Passe a m ão  3RHPDDGHVLYR±[FP±FySLDV7DGHX-XQJOH . 57 )LJXUD Você est á aqui 3RHPDDGHVLYR[FP±FySLDV7DGHX-XQJOH . 60 )LJXUD You are here 3RHPDDGHVLYR[FP±FySLDV7DGHX-XQJOH . 61 )LJXUD Playgod  3RHPDDGHVLYR±&DUWHODGH[FP±FRPSRHPDV Tadeu Jungle .  )LJXUD Ar t !  3RHPDDGHVLYR±&DUWHODFRP[FP±FySLDV Tadeu Jungle . 65 XV STICKER: COLANDO IDEIAS )LJXUD Perform ance ART Tadeu Jungle . 66 )LJXUD Perform ance ART Tadeu Jungle . 66 )LJXUD Perform ance ART Tadeu Jungle . 66 )LJXUD Perform ance ART Tadeu Jungle . 66 )LJXUD Perform ance ART Tadeu Jungle . 66 )LJXUD St icker - Pom ba Rodrigo Chã . 72 )LJXUD Perform ance – St udio 18 KWWSJUXSRDUDFEORJVSRWFRP - Eli Golande .  )LJXUD St icker - Gaiola Eduardo Libert é . 76 )LJXUD St icker - Roger Ror . 78 )LJXUD St icker - Cap . 79 )LJXUD St icker - SHN . 82 XVI STICKER: COLANDO IDEIAS Figura 50 Grupo SHN.  Figura 51 St icker - s/ n 85 Figura 52 St icker – Mulher Melancia Bairro do I piranga . 86 )LJXUD St icker - Mulher Melancia I m pressão em papel autocolante Soft ware: Adobe Phot oshop. 87 )LJXUD Andressa Soares Mulher m elancia. Foto de I wi Onodera – fonte: http: / / ego.globo.com /  *HQWHIRWR*'4MSJ. 89 Figura 55/RXLVHDPDPHQWDVHX¿OKR Pint ura em t ela - Mary Cassat . 89 Figura 56 St icker - s/ n Execução: Thiago Blanco. 91 Figura 57 St icker - s/ n Doação: Fernando Cap. 95 Figura 58 St icker - s/ n Doação: Fernando Cap. 111 Figura 59 St icker - s/ n Doação: Fernando Cap.  XVII STICKER: COLANDO IDEIAS Figura havia tido um espetacular desenvolvimento nas décadas de 10 e 20), como uma maneira de estimular e tornar o processo de aprendizagem interessante para o educando.4 As Instruções Metodológicas elaboradas para auxiliar a aplicação dos programas de História para a escola secundária, impostos a todos os estabelecimentos escolares brasileiros, logo após a Reforma Francisco Campos (Decreto 19.890 de 1931), recomendavam a utilização da iconografia. Alegavam que os adolescentes tinham uma curiosidade natural pela imagem, e que por este motivo os recursos tecnológicos deveriam ser utilizados no ensino secundário. Seguindo as novas propostas, e também com o intuito de controlar a influência que o cinema exerceria sobre a juventude, a Lei nº 378, de 13/1/1937, criou o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), que teve como primeiro diretor o médico, professor e pioneiro das comunicações Roquette Pinto. O INCE produziu, logo no início de seu funcionamento, dois filmes sobre a História do Brasil: O descobrimento do brasil e Os bandeirantes, ambos dirigidos por Humberto Mauro. As produções do cinema educativo, que tinham como finalidade instruir a juventude sobre a nossa história, acatavam os princípios da His-  ,  ,  ():        :  . tória oficial, e se por um lado pareciam servir aos objetivos da Escola Nova, por outro ajudavam a sacramentar mitos nacionais.5 Compactuando com os paradigmas da Escola Metódica, professores escolanovistas, que viam o cinema como um grande atrativo para os alunos, defendiam o uso do cinema educativo, desde que fosse para garantir a verdade histórica, que corria sérios riscos de ser deturpada pelos filmes históricos, pois como afirmava Jonathas Serrano: “(D)eforma-se deliberadamente o passado para efeitos românticos, ou cômicos, e o público aplaude e. desaprende o que sabia ou aprende errado para o resto da vida.”6 Serrano não é uma voz isolada. Partilha suas idéias com outros professores brasileiros e de outros países, que buscam modernizar o ensino para que os alunos aprendam os verdadeiros conteúdos das disciplinas, como A. Sluys, diretor honorário da Escola Normal de Bruxelas que, numa obra traduzida e adaptada para o espanhol por Agustín Nogués Sarda, inspetor de ensino de Madri, afirma: No ensino de História pelo cinema se empregam figurantes para representar os acontecimentos históricos. Isso é reclamar por parte dos alunos uma docilidade, ou melhor, um servilismo de espírito pouco corrente em crianças latinas. Poderia passar por um espetáculo, porém não por uma lição que tem por fundamento a verdade. 7 Serrano também reconhece valor educativo exclusivamente se o filme for uma fonte histórica, ou seja, quando consegue fazer o fato reproduzir-se na sua complexa realidade. Mas somente na hipótese de haver sido filmado no próprio instante em que ocorria: filmes documentais de guerra, de expedições científicas, jornais cinematográficos, etc. (.) Mas, reconstruir o passado nos chamados filmes históricos, isso é obra da imaginação.8 Admite que um outro gênero de filmes poderia prestar relevantes serviços ao ensino de História: a filmagem de excursões a locais históricos e os comentários correspondentes feitos por especialistas. ,  ,  ():      Não deixa de ser instigante o fato de que décadas antes de os historiadores aceitarem o cinema entre suas fontes, professores de História já pensassem nas possíveis utilidades do cinema em sala de aula. Digno de nota é também o conservadorismo em relação à produção histórica entendida como reprodução da verdade, quando a concepção da História acadêmica já passava por transformações e a concepção de ensino continuava sendo considerada mera transposição, uma linguagem simplificada da verdade contida pela narração histórica. Isso apesar da aceitação pelos mesmos professores dos novos paradigmas da Escola Nova em relação à aprendizagem. A análise da restrita produção fílmica aceita pelos educadores se relaciona única e exclusivamente ao conteúdo. O cinema seria um bom recurso, pois atrairia a atenção dos jovens mais que as aulas e exposições orais realizadas pelo professor em sua sala de aula. Não se trata ainda de encarar a linguagem imagética como um recurso com características próprias, nem de propor métodos de trabalho pedagógico com a exploração das imagens. Como elas têm suas próprias regras de funcionamento e atualizam um conjunto de configurações significantes especificamente icônicas, ao serem analisadas permitem que se compreenda melhor os aspectos que os currículos escolares propõem. Processam, ainda, outros símbolos amplamente culturais e sociais, mediante os quais apresentam uma certa imagem do mundo, que devem possibilitar ao aluno que desenvolva a análise crítica do mundo no qual vive. Além disso, acarreta outras instâncias de referências, como comportamentos, moda, vocabulário. As imagens merecem estar em sala de aula porque sua leitura nunca é passiva. Elas provocam uma atividade psíquica intensa feita de seleções, de relações entre elementos da mesma obra, mas também com outras imagens e com representações criadas e expressas por outras formas de linguagem. A imagem fílmica situa-se em relação à outra, ausente, que se relaciona com a realidade que se supõe representada. Expressões que se tornaram já lugares comuns, como “uma imagem vale mais que mil palavras” dão segurança a professores, que são auxiliados pela existência, nas escolas, de retroprojetores, aparelhos de televisão, projetores de vídeo e outros instrumentos. A expressão não é  ,  ,  ():        :  . vazia e nem carece de fundamento, pois estudos sobre o tema asseguram que os dados provenientes da visão e audição correspondem a 50% do que é retido pelos alunos. Audição e visão são também responsáveis pela retenção mais duradoura daquilo que os alunos aprendem.9 A retenção, embora necessária, não se constitui numa suficiente operação mental para posterior análise e construção do conhecimento histórico pelo aluno. Essa perspectiva demonstra que persiste a idéia da existência de um mundo positivo, real, que pode ser captado pelas imagens, daí a permanência da valorização dos documentários que teriam um compromisso maior com a realidade. O documentário e os filmes de época ou históricos têm, para a maior parte dos professores que utilizam a filmografia em sala de aula, o mesmo valor didático de um texto de um livro de História.10 O filme é mais utilizado como um substituto do texto didático ou da aula expositiva, ou é ainda considerado uma ilustração que dá credibilidade ao tema que se está estudando. Contudo, “é certo que hoje se admite que a imagem não ilustra nem reproduz a realidade, ela a constrói a partir de uma linguagem própria que é produzida num dado contexto histórico”.11 Do mesmo modo, quando utilizado em atividades didáticas, não se limita a traduzir em imagens os conteúdos pedagógicos reificados. Dono de uma identidade própria, como documento histórico que exige instrumental adequado para sua exploração, o filme na aula de História na escola básica também exige uma proposta didática. Há, primeiramente, que se diferenciar a formação da informação. A maior parte das vezes em que o filme é utilizado, busca-se o maior número de informações sobre um fato histórico, um personagem. A informação pode ser definida como um pensamento que existe em algum lugar, no tempo e no espaço, e a formação como uma série de ações que apontam para um resultado. No entanto, o filme é pouco utilizado para a formação, que só pode ocorrer quando a informação recebida se relaciona com um conjunto individual de esquemas e de estruturas mentais, que transforma a informação em conhecimento, em novos esquemas e novas estruturas que irão enriquecer o repertório cognitivo ou simbólico daquele que aprende. A formação é um processo de produção no qual se destacam dois aspectos: o primeiro é o das operações mediante as quais ,  ,  ():      o conhecimento é gerado, e o segundo são os condicionantes que facilitam a geração desse conhecimento. A linguagem própria da imagem auxiliará na construção do conhecimento histórico do aluno, construção esta que passa por elaboração de operações mentais, para resultar em efeitos sociais, como os enumerados por Jean Peyrot, citado por Henri Moniot: transmitir uma memória coletiva, revista e corrigida a cada geração, que coloca o aluno diante de uma consciência coletiva; formar a capacidade de julgar — comparando sociedades em épocas diferentes, e a existência delas ao mesmo tempo em locais diferentes — que tem como efeito social o desenvolvimento do espírito crítico e da tolerância; analisar uma situação — aprendendo a isolar os componentes e as relações de força de um acontecimento ou orientações estilísticas ou as idéias ilustradas eram temperadas pelas “vivências” que os escritores tiveram na colônia. CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. 3.ed. São Paulo: Martins Editora, 1969, 1.v, p.89. Contudo, há uma distancia crucial no desdobramento do raciocínio de cada autor. Enquanto o estudo de Mota entende no ajustamento como uma adequação que pode levar os homens da colônia mais perto da consciência da sua condição colonial e da ação revolucionária. Antonio Cândido vai mais além, pois vislumbra uma “reinterpretação local das orientações estéticas e filosóficas”, alterando estas orientações.pela vivência local do escritor - deste modo, Gonzaga teve sua “visão refundida pela experiência mineira” (p.168, 1.v). Através da reinterpretação local esses escritores atingiram um “equilíbrio” estético na integração dos padrões europeus e da expressão da sensibilidade local (p.72, 1.v). Antonio Candido trabalha com estas idéias de reinterpretação local pela vivência e equilíbrio da integração cultural; e conclui que aqueles escritores concretizavam um projeto literatura local, derivado do esforço de incorporação intelectual do Brasil à cultura do Ocidente. Enfim, na medida em que o escritor consegue interagir ativamente com as condições que incidem sobre ele (naturais e sociais), constitui sua originalidade literária. A história da cultura literária é escrita então, por Antonio Candido, como um processo de interiorização e superação das influências – as literárias em primeiro HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.2, P.129-158, 2005 155 EDUARDO ROMERO OLIVEIRA momento; e, por segundo, as materiais. De modo equivalente, por estarmos atentos às reorientações filosóficas e não a assimilação mecânica, nossa pesquisa busca o que resulta daquelas reorientações como uma produtividade discursiva. 36 NOVAIS, Fernando A. O Brasil nos quadros do Antigo Sistema colonial. In: MOTA, Carlos Guilherme. Brasil em perspectiva. 4.ed. São Paulo: Difel, 1973, p.47-63. Ver também ______. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). São Paulo: Hucitec, 1995. 37 NOVAIS, F. Portugal e Brasil na crise. Op. cit., p.169. 38 JANCSÓ, István. O “1778” baiano e a crise do Antigo Regime português. In: ANAIS DO II CENTENÁRIO DA SEDIÇÃO DE 1798 NA BAHIA. Salvador, 1998, p.62. Ver também ______. A sedução da liberdade: cotidiano e contestação política no final do século XVIII. In: NOVAIS, Fernando A. (org). História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América Portuguesa. São Paulo: Cia das Letras, 1997, p.392. 39 JANCSÓ, I. A sedução da liberdade: cotidiano e contestação política no final do século XVIII, Op. cit., p.398. 40 Idem, p.403. Sobre a ocorrência das leituras coletivas e orais vide também VILLALTA, L. C. O que se fala e o que se lê: língua, instrução e leitura. In: Idem, p.331-386. 41 JANCSÓ, I. Op. cit., p.380. 42 Cf. JANCSÓ, I. Na Bahia, contra o Império. São Paulo: Hucitec, 1996, p.160163. JANCSÓ, I. A sedução da liberdade: cotidiano e contestação política no final do século XVIII, Op. cit., p.401-407. 43 Esta suposição e a categoria de influência são encontradas ainda em estudos de história das idéias ou de história intelectual, e o questionamento pode mesmo sugerir que se inviabiliza tais estudos. Contudo, observamos que a literatura comparada tem se envolvido nesta discussão há várias décadas, quando considera a “influência” de um autor sobre outro. Críticos de renome como T. S. Elliot, Jorge L. Borges, R. Wellek e Harold Bloom já propuseram outros caminhos para estabelecer o confronto entre dois textos, sem passar pelo “cálculo de créditos e débitos”. De todo modo, a idéia de influência foi definitivamente questionada – para alguns, abandonada – do campo da literatura. Ver a propósito. CARVALHAL, Tânia F. Literatura Comparada. São Paulo: Ática, 2003. COUTINHO, Afrânio. O processo de descolonização literária. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. BLOOM, Harold. A angústia da influência. Rio de Janeiro: Imago, 1991. Também na filosofia já se colocou sob suspeita a idéia de influência na análise do pensamento. Num texto sobre Nietzsche e a idéia de genealogia, Foucault distingue entre a proposta genealógica (uma busca histórica dos acasos do começo) e a pesquisa da origem (a busca de um começo essencial e lugar da verdade). FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 4.ed. Rio de Janeiro: Graal, 1984. A categoria de 156 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.2, P.129-158, 2005 O ESTUDO DAS IDÉIAS POLÍTICAS LUSO-BRASILEIRAS NO SETECENTOS influência é principal para a pesquisa da origem: por um lado, porque admite o reencontro de uma idéia ou caráter; por outro, porque “liga, à distância e através do tempo, unidades definidas como indivíduos, obras, noções ou teorias”. FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense – Universitária, 1986, p.24. Assim, pelo recurso à categoria de influência concebe-se a história do pensamento como uma busca da transcendência. Daí afirmar que “é preciso ser metafísico para lhe procurar [na história] uma alma na idealidade longínqua da origem”. FOUCAULT, 1984, p.20. 44 MONCADA, Luis Cabral de. Um “iluminista” português do século XVIII: Luís Antonio Verney. São Paulo: Saraiva, 1941. 45 Idem, p.8. 46 ANDRADE, Antonio B. Verney e a cultura do seu tempo. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1965. 47 FALCON, Francisco J. C. A época pombalina. São Paulo: Ática, 1982. 48 Idem, p.153. 49 Idem, p.160. 50 DIAS, José da Silva. Pombalismo e teoria política. Cultura, Lisboa, n.1, p.45- 114, 1982. 51 PEREIRA, Jose Esteves. O pensamento político em Portugal no século XVIII: Antonio Ribeiro dos Santos. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1983. 52 PEREIRA, José Esteves. Genealogia de correntes de pensamento do antigo regime ao liberalismo. Perspectivas de síntese. In: COSTA, Fernando Marques; DOMINGUES, Francisco Contente; MONTEIRO, Nuno Gonçalves. Do antigo regime ao liberalismo (1750-1850). Lisboa: Veja, 1989, p.47-61. 53 ALBUQUERQUE, Martin de. Estudos de cultura portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da moeda, 1983. 54 MERÊA, Paulo. Lance de olhos sobre o ensino do Direito (cânone e leis) desde 1772 até 1804. Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, v.33, p.187-214, 1957. 55 HESPANHA, Antonio. Prática dogmática dos juristas oitocentistas. In HESPANHA, Antonio. A história do direito na história social. Lisboa: Livros Horizonte, 1978. 56 HOLANDA, S.B. Apresentação. In: COUTINHO, J. J. da Cunha Azeredo. Obras econômicas de J.J. da Cunha de Azeredo Coutinho. São Paulo: Cia Ed. Nacional, 1966. 57 HOLANDA, S. B. A herança cultural. In: Raízes do Brasil. 26.ed. São Paulo: Cia das Letras, 1995, p.85. 58 RODRIGUES, José Honório. A Assembléia Constituinte de 1823. Petrópolis: Vozes, 1973. HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.2, P.129-158, 2005 157 EDUARDO ROMERO OLIVEIRA 59 ROCHA, Antonio Penalves. A economia política na sociedade escravista. São Paulo: Hucitec, 1996. Idem, p.54-56. 60 Idem, p.60. 61 Idem, p.74. 62 Idem, p.154. 63 SOUZA, Otávio Tarquínio. História dos fundadores do Império Brasileiro. São Paulo: Edusp; Belo Horizonte; Itatiaia, 1988. BARRETO, Vicente. Ideologia e política no pensamento de J.B. de Andrade e Silva. Rio de Janeiro: Zahar, 1977. Esta importância da influência dos autores ilustrados nas idéias de José Bonifácio foi apontada por Ana Rosa Cloclet da Silva, em relação à idéia de nação. SILVA, Ana Rosa C. da. Construção da nação e escravidão no pensamento de José Bonifácio (1783-1823). Campinas: Unicamp, 1999. 64 BARRETO, Vicente. Op. cit., p.20. 65 NEVES, Guilherme P. das. Pálidas e oblíquas luzes: J.J. da C. de Azeredo Coutinho e a Análise sobre a justiça do comércio do regate dos escravos. In: SILVA, Maria Beatriz N. da (org.). Brasil: colonização e escravidão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p.349-370. NEVES, G.P. Do império lusobrasileiro ao império do Brasil (1789-1822). Ler História, v.27-28, p.75-102, 1995. NEVES, G.P. Como um fio de Ariadne no intrincado labirinto do mundo: a idéia do império luso-brasileiro em Pernambuco (1800-1822). Ler História, v.39, p.35-58, 2000. 66 MACHADO, Lourival G. O direito natural. São Paulo: Edusp, 2002. 67 Idem, p.79. 68 Idem, p.111. 69 Idem, p.144. 70 Dentre os exemplos mais brilhantes, podemos citar os trabalhos de E. Kantorowicz e Quentin Skinner. KANTOROWICZ, E. Os dois corpos do Rei. São Paulo: Cia das Letras, 1999. SKINNER, Quentin. As fundações do pensamento político moderno. São Paulo: Cia das Letras, 1996. 71 A exemplo de outras reavaliações sobre o real impacto das idéias do philosophes nos processos revolucionários modernos, como os trabalhos de Robert Darnton sobre a Revolução Francesa, ou de Bernard Baylyn, sobre a norte-americana. DARNTON, Op. cit.; BAILYN, Op. cit. Artigo recebido em 05/2006. Aprovado em 06/2006. 158 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.2, P.129-158, 2005
Sticker: colando idéias Sticker Colando Idéias
RECENT ACTIVITIES
Autor
Documento similar

Sticker: colando idéias

Livre