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O livro indígena e suas múltiplas grafias

Documento informativo
Amanda Machado Alves de Lima O LIVRO INDÍGENA E SUAS MÚLTIPLAS GRAFIAS Belo Horizonte Faculdade de Letras da UFMG 2012 Amanda Machado Alves de Lima O LIVRO INDÍGENA E SUAS MÚLTIPLAS GRAFIAS Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários, da FaLe/UFMG, como um dos requisitos para a obtenção do título de mestre em Estudos literários. Área de Concentração: Literatura Brasileira Linha de Pesquisa: Literatura e Expressão da Alteridade Orientadora: Profª Drª Maria Inês de Almeida Belo Horizonte 2012 A todos que, no texto, se encontram. AGRADECIMENTOS Aos povos indígenas de todo o mundo, que, cada dia mais, estão se apropriando do mundo da tecnologia e do impresso, levando-nos a ouvir suas vozes e conhecer suas culturas e tradições. A meus pais, Vicente e Rosa, por todo apoio e incentivo durante a realização desta pesquisa. À Maria Inês, pela orientação e formação ao longo dos anos. Aos colegas do Literaterras e, em especial, à Morena Tomich, que me iniciou no caminho das artes gráficas. Ao Observatório da Educação Escolar Indígena no Brasil, projeto financiado pela Capes, que me concedeu uma bolsa de estudos para a realização desta pesquisa. E a todos que, de alguma forma, estiveram comigo durante esta jornada de pesquisa. A literatura apenas começa naquele momento em que ouço uma voz singular. [ ] não há literatura se não há uma voz, portanto, uma linguagem que carrega a marca de alguém. É preciso um estilo, um tom, uma técnica, uma arte, uma invenção [ ], é preciso que o autor me imponha sua presença; e quando ele me impõe sua presença, no mesmo instante ele me impõe seu mundo. Simone de Beauvoir SOBRE A CAPA Para apresentar os livros indígenas e suas múltiplas grafias, criei a capa que acompanha esta dissertação. Os desenhos que a compõem são de dois artistas indígenas, Ibã Isaias Sales Kaxinawá e Ranison Xakriabá. Ibã Kaxinawá é professor, pesquisador, pajé e artista, e me presenteou, em 2011, com o desenho que compõe a capa, em uma oficina na aldeia São Joaquim, no baixo rio Jordão. Por ser um presente que acabou por ilustrar tão bem o meu tema, acho que Ibã Kaxinawá sabia antes de mim que estava desenhando uma capa para esta dissertação quando me deu este desenho. Até mesmo os espaços em branco de seu desenho se encaixaram perfeitamente às informações previstas para a capa. Assim, a capa não poderia ser outra. O desenho da contracapa é de Ranison Xakriabá, professor, cineasta e desenhista. Ele fez este desenho em 2009, a pedido de Reginaldo Xakriabá, para ilustrar uma pesquisa intitulada "Ao longo das estradas do tempo", de autoria de Reginaldo. Como minha pesquisa, assim como a de Reginaldo, conta um pouco da história dos povos ao longo dessas estradas, este desenho também a descreve muito bem, além de, junto com o desenho da capa, demonstrar e ilustrar a força de algumas das múltiplas grafias que se encontram nos livros indígenas. RESUMO Desde o final dos anos 1970, vários livros de autoria indígena estão sendo produzidos e publicados no Brasil. A partir de um levantamento inédito destes livros, e também da experiência junto a alguns povos na produção deles, busca-se compreender, ainda que parcialmente, a história dos povos indígenas em suas relações com a escrita e com a produção de livros, explicitando o contexto de produção e recepção destas obras. Estes livros também partilham de um trabalho gráfico-textual bastante característico, através do qual é possível perceber como as literaturas indígenas estão se traduzindo para o registro impresso. Para pensar este processo de tradução, que é a base de todo produto editorial que parte de literaturas orais, o livro indígena é abordado em duas dimensões não dicotômicas: uma, que é o texto, a mensagem e a língua em que é publicado; e outra, que é o livro como objeto físico, seu projeto gráfico: o formato, as cores, os desenhos e outras grafias que compõem a página. Esta abordagem busca perceber elementos que indicam o tratamento que se tem dado ao texto a fim de se manter a oralidade, a historicidade e a cultura no registro impresso. Palavras chave Livro indígena · Literatura indígena · Povos indígenas do Brasil · Literatura contemporânea · Poéticas da voz · Tradução intersemiótica · Escola indígena · Design gráfico RESUMEN Desde finales de los años 70, varios libros de autoría indígena están siendo producidos y publicados en Brasil. A partir de un nuevo recogido de estos libros, y también de una experiencia con algunos pueblos em su producción, tratase de comprender, aunque sea parcialmente, la historia de los pueblos indígenas en sus relaciones con la escritura y la producción de libros, poniendo en relieve el contexto de la producción y la recepción de estas obras. Estos libros también comparten de un trabajo grafico-textual muy característico, a través del cual se puede ver como las literaturas indígenas estan se traduciendo al registro impreso. Para pensar en este proceso de traducción, que es la base de todo producto editorial que parte de la literatura oral, el libro indígena es abordado en dos dimensiones no dicotómicas: una, que es el texto, el mensaje y el lenguaje en que se transmite, y otra, que es el libro como objeto físico, su diseño gráfico, formato, colores, diseños y otras grafias que componen la pagina. Este enfoque busca comprender los factores que indican el tratamiento que se le ha dado al texto con el fin de mantener la oralidad, la historicidad y la cultura en el registro impreso. Palabras clave Libro indígena · Literatura indígena · Pueblos indígenas de Brasil · Literatura contemporánea · Poéticas de la voz · Traducción intersemiótica · Escuela indígena · Diseño grafico ABSTRACT Since the late '70s, several books of indigenous authorship are being produced and published in Brazil. From a new survey of these books, and also from a experience with some Brazilian indigenous people in this production, we seek to understand, even partially, the history of Brazilian indigenous peoples in their relationship with writing and producing books, explaining the context of production and reception of these works. These books also share a strong graphical and textual work with the texts and through which you can see how the indigenous literatures are being translated to the printed record. To think this process of translation, which is the basis for all editorial product that parts from oral literature, the indigenous book is approached in two non-dichotomous dimensions: one, is the text itself, the message and the language in which it is transmitted, and on another dimension, the book as a physical object; its graphic design, format, font, colours, images, and page composition. This approach seeks to understand the elements that indicate the treatment that has been given to the text in order to keep the oral tradition, the historicity and the culture on printed record. Keywords Indigenous book · Indigenous literature · Indigenous peoples in Brazil · Contemporary literature · Oral poetics · Intersemiotics translation · Indigenous school · Graphic Design SUMÁRIO APRESENTAÇÃO. 11 CAPÍTULO I A “voz indígena” no cenário da literatura brasileira . 22 CAPÍTULO II Os povos indígenas e a experiência de autoria . 32 CAPÍTULO III O livro indígena e suas múltiplas grafias . 51 O corpus . 63 Análise das capas . 67 Análise do tratamento gráfico-textual . 68 O tratamento do texto em língua indígena . 88 A construção do projeto gráfico nos livros de autoria indígena. 93 As linguagens e suas grafias. 95 Conclusão . 99 CAPÍTULO IV Os livros de autoria indígena publicados no Brasil . 102 CONCLUSÃO .143 REFERÊNCIAS .151 APRESENTAÇÃO Esta pesquisa tem como foco os livros de autoria indígena publicados no Brasil. Estes livros, escritos, ilustrados e idealizados pelos próprios índios, começaram a ser publicados no país no final dos anos 1970 e, desde então, têm tido um crescimento considerável no mundo editorial, somando hoje 538 títulos de autoria de vários dos 210 povos indígenas que vivem hoje no território brasileiro. Meu primeiro contato com um livro de autoria indígena se deu em 2006, quando conheci Shenipabu Miyui: História dos antigos, um livro de histórias do povo Kaxinawá produzido pelos professores kaxinawá do Acre, publicado inicialmente em 1995 e reeditado pela Editora UFMG em 2000. Este livro era diferente dos que eu estava acostumada a ver. Bem ilustrado e bilíngue, trazia histórias da origem do relâmpago, do trovão, dos remédios da mata, dos pássaros, dentre outras. Shenipabu Miyui também trazia a História do povo Kaxinawá, desde o contato com outros povos até a atualidade, posicionando os Kaxinawá como um povo politicamente ativo, que reivindica respeito e autonomia perante a sociedade nacional. Shenipabu Miyui: História dos antigos 12 Na leitura deste livro, percebi que ele era mais que um livro de história de índio. Era um ato político e bem definido de um povo que busca sua afirmação. Os Kaxinawá, percebendo a importância de dominar a escrita e os números, estão, desde 1983, formando professores e ensinando às crianças e jovens kaxinawá os números e a língua Hatxa Kuĩ (a língua verdadeira) e suas representações escritas, além de estarem produzindo livros e vídeos, registrando e divulgando sua língua, cultura e tradição. Este livro, com sua seleção de histórias e desenhos, me fez conhecer um pouco da arte narrativa e da história kaxinawá. Pude perceber os Kaxinawá como um povo engajado, que compreende o código legislativo ao qual está sujeito, e que quer garantir seus direitos. Depois desse livro, fui conhecendo outros e me interessando em saber cada vez mais sobre eles. E, quanto mais livros conhecia, mais se abria para mim um mundo novo, um Brasil que até então eu desconhecia: o Brasil indígena. Como na época eu estava no final da graduação em Letras e deveria desenvolver uma monografia, escrevi um projeto acerca da construção do discurso mágico em um livro xavante, intitulado Wamrêmé za’ra: Mito e história do povo Xavante. Era um projeto que trabalhava com princípios da Análise do Discurso. Procurei vários professores dessa área para me orientar, mas todos eles me disseram para procurar alguém que trabalhasse com textos indígenas. Foi então que conheci e comecei a trabalhar junto à Profa Maria Inês de Almeida, da área da Literatura Brasileira. No semestre seguinte, me matriculei em uma disciplina ministrada por ela, lhe mostrei meu projeto e lhe falei que gostaria de escrever sobre o livro dos Xavantes. Ela aceitou me orientar e me propôs trabalhar com outras questões além da análise do discurso, questões que se enquadravam na área da Literatura, como a poética, a oralidade, a literariedade, a escrita, a autoria e a tradução destes textos. Em sua disciplina, fui descobrindo que existiam muito mais povos indígenas do que eu imaginava, e que eles não estavam somente na floresta, estavam espalhados por quase todos os 13 estados do Brasil, e que mesmo Minas Gerais era terra de 8 etnias indígenas. Fui percebendo que vários destes povos, além de estarem publicando livros, estavam produzindo filmes, documentários, CDs e sites na internet, apropriando-se da escrita e de outras tecnologias para registrar e divulgar suas tradições, identidades e reivindicações. Também fui compreendendo melhor o contexto dessa produção de autoria indígena. Muitos desses materiais estavam sendo produzidos através de cursos de formação de professores indígenas e também através de outros projetos – a partir de pesquisas realizadas pelos indígenas em suas comunidades, em especial com os mais velhos, que detêm o maior conhecimento tradicional. O objetivo de muitos desses materiais era o de ser utilizado como material didático nas escolas das aldeias e também divulgar entre outros povos e a sociedade nacional as identidades e os conhecimentos indígenas. Nesse mesmo ano de 2007, comecei a participar, como monitora, do Curso de Magistério do Programa de Implantação de Escolas Indígenas de Minas Gerais, PIEI-MG.1 Neste curso, tive a oportunidade de conhecer vários índios do Estado. No começo de 2008, pude ministrar uma oficina de produção de textos visando à produção de um livro, e, no final deste mesmo ano, outra oficina que visava à edição do material e a construção do projeto gráfico2. A editoração e a arte- finalização deste livro também foi realizada por mim e, em 2009, ele foi publicado sob o título de Memória Viva.3 Em abril de 2008, comecei a participar, também como monitora, do Curso de Formação Intercultural de Educadores Indígenas da UFMG (FIEI/UFMG). Nesse curso, durante os três anos em que participei dele,4 além de monitorar disciplinas da área de Múltiplas Linguagens ocorridas tanto na Universidade quanto nas aldeias, acompanhei alguns grupos de alunos indígenas 1 Neste curso, participei de 4 módulos, que são as etapas intensivas, ocorridas em Belo Horizonte ou em cidades próximas. Atuei como monitora durante dois módulos e como professora de literatura nos outros dois. A formatura desta turma se deu no final de 2008. 2 Projeto gráfico é o conjunto de elementos que formam e dão características a um meio de informação. Ele é constituído de uma série de plataformas que formam a sua lógica construtiva. Estas estruturas definem o seu aspecto de visual - layout - (cores, tipografia, design, etc.), bem como seu aspecto editorial (textos, linguagem, conteúdo). 3 POVOS INDÍGENAS DE MINAS GERAIS. Memória viva. 4 Participei deste curso até a formatura da primeira turma, ocorrida em maio de 2011. 14 durante seus percursos acadêmicos,5 que são as trajetórias acadêmicas de cada graduando, orientada por uma pesquisa que os alunos desenvolvem durante o curso, no intuito de gerar material didático para suas escolas. Meu acompanhamento a estes alunos foi, em sua maior parte, no sentido de ajudar no desenvolvimento de suas pesquisas, orientando na produção de um projeto de pesquisa final, afunilando muitas vezes o foco da pesquisa, auxiliando a criação de roteiros para o desenvolvimento delas, ensinando a respeito da utilização de aparelhos eletrônicos (gravador, câmera de vídeo, câmera fotográfica) e também contribuindo com a sistematização do material colhido para sua posterior edição. Este trabalho no FIEI foi de grande importância para minha formação como pesquisadora e também como artista gráfica6, pois durante o curso tive a oportunidade de realizar o projeto gráfico de um livro de culinária Xakriabá, Kupaschú Intsché, e realizar a arte finalização de um livro de histórias Pataxó e Xakriabá, intitulado Encontros Traduções.7 Ainda em 2008, tive a oportunidade de, em junho, participar de uma oficina de edição com os povos de Rondônia e do nordeste do Mato Grosso, dentro do Projeto Açaí, o curso de formação de professores indígenas oferecido pela Secretaria de Educação de Rondônia. Esta oficina, de apenas alguns dias, foi realizada a pedido da Profa Maria Inês de Almeida, que, anteriormente, tinha ministrado uma oficina para a produção e edição de um livro, juntamente com dois outros professores, no intuito de gerar material em língua indígena para ser utilizado 5 Neste curso, a formação foi estruturada em torno dos percursos acadêmicos, que são definidos de acordo com o interesse de cada grupo de alunos, segundo o pertencimento étnico, comunitário e escolar (nível de ensino, área do conhecimento, localização da unidade escolar, etc). Os percursos acadêmicos, conciliados com as habilitações nas áreas de Línguas, Literaturas e Artes; Ciências Naturais e Matemáticas; Ciências Sociais e Humanidades, são orientados pelas pesquisas, cujos temas se orientam pelos projetos sociais das respectivas comunidades. Os percursos acontecem em diálogo transdisciplinar com alguns núcleos de pesquisa da Universidade, sendo, em sua maioria, orientados por membros destes núcleos. Os materiais coletados nas pesquisas e seus registros são preparados, organizados, editados e revisados em oficinas de edição em que também são elaborados os projetos gráficos. O resultado destas oficinas são cartilhas, livros, CDs sonoros e DVDs, com os diversos materiais informativos e formativos elaborados ao longo dos referidos percursos acadêmicos. Estes materiais compõem importante acervo de material didático específico para as escolas indígenas. 6 Gostaria de frisar que essa formação como artista gráfica que cito aqui é uma formação que ainda está em processo. Ela se Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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