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Entre bandeiras, árvores e bonecas: festas em escolas públicas primárias de Minas Gerais (1906-1930)

Documento informativo

MARIA APARECIDA DE SOUZA GERKEN ENTRE BANDEIRAS, ÁRVORES E BONECAS: festas em escolas públicas primárias de Minas Gerais (1906-1930) Belo Horizonte Faculdade de Educação da UFMG 2009 G369e T Gerken, Maria Aparecida de Souza. Entre bandeiras, árvores e bonecas [manuscrito]: festas em escolas públicas primárias de Minas Gerais (1906-1930) / Maria Aparecida de Souza Gerken. - UFMG/FaE, 2009. 164 f., enc, Tese - (Doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação. Orientador : Tarcísio Mauro Vago. Bibliografia : f. 150-164. 1. Educação -- Teses. 2. Escolas -- Aspectos sociais -Teses. 3. Escolas primárias -- Minas Gerais -- Teses. 4. República -- Brasil -- Teses. I. Título. II. Vago, Tarcísio Mauro. III. Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação. CDD- 370.9 Catalogação da Fonte : Biblioteca da FaE/UFMG MARIA APARECIDA DE SOUZA GERKEN ENTRE BANDEIRAS, ÁRVORES E BONECAS: festas em escolas públicas primárias de Minas Gerais (1906-1930) Tese apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais para a obtenção do Título de Doutora em Educação. Orientação: Professor Dr. Tarcísio Mauro Vago. Belo Horizonte Faculdade de Educação da UFMG 2009 Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Educação Pós-Graduação em Educação Tese intitulada ENTRE BANDEIRAS, ÁRVORES E BONECAS: FESTAS EM ESCOLAS PÚBLICAS PRIMÁRIAS DE MINAS GERAIS (1906-1930), de autoria de MARIA APARECIDA DE SOUZA GERKEN, analisada pela Banca Examinadora constituída pelos seguintes professores: ___________________________________________________________________________ Prof. Dr. Tarcísio Mauro Vago – UFMG – Orientador ___________________________________________________________________________ Prof. Drª. Carmen Lúcia Soares – UNICAMP ___________________________________________________________________________ Prof. Drª. Carla Simone Chamon – CEFET/MG ___________________________________________________________________________ Prof. Drª. Maria Cristina Soares de Gouvêa – UFMG ___________________________________________________________________________ Prof. Dr. Luciano Mendes de Faria Filho – UFMG ___________________________________________________________________________ Prof. Drª. Ana Maria de Oliveira Galvão – UFMG (Suplente) ___________________________________________________________________________ Prof. Drª. Eustáquia Salvadora Sousa – PUC Minas (Suplente) Belo Horizonte, 9 de outubro de 2009. Dedico este trabalho à minha querida filha, Isabela, ao meu esposo, Manoel Júnior, e aos meus pais, Jorge e Ilma. AGRADECIMENTOS A Deus, por me dar a vida. Ao Professor Dr. Tarcísio Mauro Vago, pela orientação, pela dedicação, pelo carinho, pela sensibilidade na partilha de cada momento deste trabalho, mas, acima de tudo, pela amizade. Aos meus pais maravilhosos, Jorge e Ilma, pelo apoio incondicional em todos os momentos da minha vida. Qualquer palavra que eu colocasse aqui não seria suficiente para dizer do meu amor profundo e do meu agradecimento por tudo o que fizeram por mim e por minha família. Carinho, atenção, oração, formação, dignidade, e uma disponibilidade infinita para nos ajudar e ajudar a todos que precisam deles. À minha filha, querida, Isabela, pela confiança, pelo carinho, pelo bom humor e pelas inúmeras alegrias que me proporciona todos os dias. Vê-la crescer é o meu presente, é a minha maior festa! Ao meu amor, Manoel Júnior, pelo carinho, pela compreensão, pelo bom humor e pelo silêncio que respeita e espera. À minha grande família, Fernando e Andréa; Henrique, Adriana e Paula; Luiz Márcio, Cláudia Perdigão, Luíza, Carolina e Ivan; Flávio, Cláudia Malta e César; Frederico, Mireille e Laura, minha afilhada querida, pela riqueza do aprendizado e da convivência. À Aléssia, pela dedicação, carinho e apoio em todos os momentos. Aos amigos Marquinhos e Duca, e aos amiguinhos Giovanna e Samuel. Aos funcionários do Arquivo Público Mineiro, pelo atendimento dedicado e atento durante o período de coleta de dados da pesquisa. Aos professores e às professoras da Faculdade de Educação/UFMG, por fazerem do ambiente da pesquisa um espaço de trocas importantes não apenas acadêmicas, mas também afetivas. Ao Professor Dr. Luciano Mendes de Faria Filho, pelo apoio e pela leitura atenta do trabalho. Aos colegas do Gephe e do Cemef, pelos momentos partilhados nas discussões de estudo e pela riqueza que o trabalho em grupo proporciona. Ao Ricardo, à Natália, ao Petrônio e à Pedrita, professores do Setor de Educação Física do Coltec, pela atenção e compreensão neste período de formação acadêmica. Ao amigo Arnaldo Alvarenga, pelo carinho na partilha de tantas confidências, pelo ombro sempre acolhedor, mesmo de longe, para as escutas e os desabafos desta desafiadora travessia. À Rita Lages, companheira e amiga de viagens. Ao Mateus Alves Silva, pela ajuda no trabalho de transcrição dos documentos. Ao Arnaldo Vaz, pela atenção e carinho nos momentos difíceis. À Rose e a todos os funcionários da secretaria da Pós-Graduação da Faculdade de Educação/UFMG, pela atenção com que sempre me trataram. Aos funcionários da Biblioteca da FaE/UFMG, pela atenção de sempre. Aos colegas da equipe do Projeto Veredas, pela confiança e estímulo de sempre. À Dete, pela dedicação, apoio e cuidado com as coisas da minha casa. RESUMO O objetivo com este trabalho foi analisar indícios de festas escolares realizadas em instituições públicas de ensino primário em Minas Gerais, de 1906 a 1930, problematizando os sentidos a elas atribuídos. Na delimitação do período de interesse tomou-se como referência duas reformas de ensino em Minas Gerais, com importante repercussão na organização das escolas: a Reforma do Ensino Primário, realizada no Governo de João Pinheiro, em 1906 (e as reformas realizadas pelos governos que o sucederam, continuando e expandindo suas prescrições nas duas décadas seguintes), e a chamada Reforma Francisco Campos, no Governo de Antônio Carlos, em 1927, que se configuraram como de maior relevância para esta investigação, ambas prescrevendo festas como práticas que deveriam ser realizadas nas escolas por motivos diversos, de acordo com o calendário cívico e religioso, em permanente conformação. A primeira delas foi responsável pela proposição dos Grupos Escolares como molde para o ensino primário, com programas de ensino e prescrição de práticas até então inéditas, dentre elas as festas, especialmente a Festa da Bandeira, em 19 de novembro, que se configurou como a principal festa escolar preconizada, mobilizada pelo apelo ao sentimento de nação. A segunda reforma marcou uma tentativa de reorganização do ensino com uma aproximação ao ideário escolanovista, no qual o Auditorium se destacava como evento festivo. Foram encontradas, selecionadas e mobilizadas fontes diversas dentre as quais se destaca a variada documentação produzida na então Secretaria de Interior do Estado de Minas Gerais (responsável pela chamada “instrucção pública”), guardada no Arquivo Público Mineiro, em Belo Horizonte, composta, dentre outros documentos, por ordenamentos legais; relatórios de inspetores e diretores escolares; impressos de destinação pedagógica, como o boletim Vida Escolar e a Revista do Ensino de Minas Gerais; e imagens (especialmente fotografias). O primeiro capítulo é dedicado às prescrições da legislação e aos programas festivos nas escolas; o segundo analisa os diferentes tipos de registros discursivos sobre as festas escolares presentes em documentos produzidos nas escolas; o terceiro aborda a Festa da Bandeira, que ganhou centralidade de análise. Nas considerações finais, foram abordadas permanências, rupturas e deslocamentos nos sentidos das festas escolares, no período tratado. Assim, por exemplo, as festas estabelecidas em calendário após a reforma de 1906, das quais foram encontradas vestígios nos documentos consultados, assumiram um sentido acentuadamente cívico, em que a pretensão central era a produção de uma identidade das crianças com a nação, sentimento ainda difuso e tênue. Na reforma de 1927, ao se propor o Auditorium e a Festa da Boneca, por exemplo, deslocou-se o sentido da celebração, da nação para a criança como preocupação central, fazendo emergir um caráter lúdico na festa, indicando uma adesão ao ideário escolanovista. Por meio das estratégias discursivas, percebeu-se uma substituição de elementos de uma tradição religiosa utilizados nas festas cívicas escolares. Foram abordados também os motivos pelos quais determinadas festas foram incluídas ou excluídas dos calendários festivos no período em questão. ABSTRACT The objective of this study is to analyze traces of school parties held in public elementary schools in Minas Gerais from 1906 to 1930, questioning the meanings attributed to them. The period of interest was delimited based on the reference of two teaching reforms in Minas Gerais, with important repercussion in the organization of the schools: the Elementary School Reform, implemented in João Pinheiro’s government in 1906 (as well as the reforms implemented in the following governments, continuing and expanding their requirements in the next two decades) , and the so-called Francisco Campos Reform in the government of Antônio Carlos in 1927. Both reforms were very relevant to this study as they established parties as practices that should be held in the schools for various reasons, according to the civic and religious calendar, in permanent conformity. The first reform was responsible for the proposition of the Grupos Escolares as a model for the primary education, with teaching programs and requirements for new practices, among them the parties, especially the Flag Party – Festa da Bandeira – on the 19th of November that was configured as the main recommended school party, mobilized by the appeal to the sense of nation. The second reform marked an attempt to reorganize the teaching with an approach to the ideas of the New School in which the Auditorium stood out as a festive event. Various sources were found, selected and mobilized, among which the distinguished varied documentation produced in the then Secretaria de Interior do Estado de Minas Gerais (responsible for the so-called “public instruction”) , kept in the Public Archives - Arquivo Público Mineiro – in Belo Horizonte, composed of legal orderings, among other documents, reports from inspectors and school principals, printed matter for pedagogical purpose, as the School Life bulletin and the Teaching Journal of Minas Gerais, and images ( especially photographies). The first chapter is dedicated to the requirements of the law and to the festive programs in the schools; the second one analyzes the different kinds of discursive records about the school parties present in documents produced in the schools; the third chapter approaches the Flag Party – Festa da Bandeira – which gained analysis focus. The final considerations have addressed permanence, ruptures and displacement in the senses of the school parties in the period of time studied. Thus, for example, the parties established in calendar after the reform of 1906, of which traces in the consulted documents were found, assumed a markedly civic sense where the principal intention was the production of an identity of the children with the nation, a feeling still diffuse and tenuous. In the 1927 reform, when the Auditorium and the Doll Party were proposed, the meaning of the celebration was changed from the nation to the child as the major concern, giving rise to a playful character to the party, pointing at an accession to the New School ideas. Through the discourse strategies, a substitution of the elements of a religious tradition in the civic school parties was noted. The reasons why certain parties were included or excluded from the festive calendars in the focused period have also been approached. RÉSUMÉ Le but de cette étude était d'analyser la preuve de fêtes scolaires organisées dans les établissements publics d'enseignement primaire dans le Minas Gerais, de 1906 à 1930, remettant en question les significations qui leur sont attribuées. Dans la définition de la période d'intérêt a été pris comme référence les réformes d'éducation à deux dans le Minas Gerais, avec des répercussions importantes sur l'organisation des écoles: la réforme de l'école primaire, qui s'est tenue au gouvernement de João Pinheiro en 1906 (et les réformes entreprises par les gouvernements lui succéda, poursuivre et d'élargir leurs prescriptions deux prochaines décennies), et a appelé la Réforme Francisco Campos, le gouvernement du Antônio Carlos en 1927, qui est configuré comme le plus pertinent pour cette enquête, les deux parties comme les pratiques de prescription doit être menée en écoles pour diverses raisons, selon le calendrier civique et religieuse en conformation permanente. Le premier est chargé de proposer les groupes scolaires en tant que modèle pour l'enseignement primaire, avec des programmes d'enseignement et les pratiques de prescription inédit, dont les parties, en particulier le parti drapeau, le 19 Novembre, qui est configuré en tant que fête de l'école primaire préconisé, mobilisés par appel au sentiment de la nation. La deuxième réforme a marqué le but de réorganiser l'école avec une approche nouvelle école à l'idéologie, dans laquelle l'Auditorium s'est imposé comme l'événement festif. Ont été trouvés, sélectionné et déployé diverses sources, parmi lesquelles se distingue la documentation variée produite dans l'époque secrétaire de l'Intérieur de l'Etat du Minas Gerais (responsable de la soi-disant «instruction publique»), stocké dans le Mineiro Archives publiques de Belo Horizonte, composé, entre d'autres documents, par les ordres juridiques, les rapports des inspecteurs et des directeurs d'école; imprimé destination éducative, comme le bulletin et le Journal of Education Vie Scolaire du Minas Gerais, et des images (en particulier les photographies). Le premier chapitre est consacré aux exigences de la législation et des programmes festifs dans les écoles et le second analyse les différents types de dossiers sur les groupes scolaires discursives présentes dans les documents produits dans les écoles, et le troisième traite de la garde du drapeau, qui a remporté l'analyse centralité. Les remarques finales ont été abordés les continuités, les ruptures et les déplacements dans les directions des groupes scolaires au cours de la période traitée. Ainsi, par exemple, les parties ont établi dans le calendrier après la réforme de 1906, dont les traces ont été trouvées dans les documents consultés, a pris un sens fortement civique dans laquelle la demande a été au cœur de la production de l'identité des enfants atteints de la nation, sentant toujours diffuse et ténue. Dans la réforme de 1927, au moment de proposer l'Auditorium et du festival des poupées, par exemple, a modifié le sens de la célébration de la nation pour l'enfant comme une préoccupation centrale, qui produit un spectacle ludique à la fête, ce qui indique une adhésion à l'École nouvelle idéologie. Grâce à des stratégies discursives, nous avons remarqué une substitution d'éléments utilisés dans une école festivals religieux civiques. Nous avons également discuté des raisons pour lesquelles certaines parties ont été inclus ou exclus dans la période des calendriers de fête. RESUMEN El objetivo con este trabajo ha sido analizar indicios de fiestas escolares realizadas en instituciones públicas de enseñanza primaria en Minas Gerais, de 1906 a 1930, problematizando los sentidos que se les atribuyen. En la delimitación del período de interés se tomaron como referencia dos reformas de enseñanza en Minas Gerais, con importante repercusión en la organización de las escuelas: la Reforma de la Enseñanza Primaria, realizada en el Gobierno de João Pinheiro, en 1906 (y las reformas realizadas por los gobiernos que lo sucedieron, continuando y expandiendo sus prescripciones en las dos décadas siguientes), y la llamada Reforma Francisco Campos, en el Gobierno de Antônio Carlos, en 1927, que tuvieron mayor relevancia para esta investigación, ambas prescribiendo fiestas como prácticas que deberían ser realizadas en las escuelas por motivos diversos, de acuerdo con el calendario cívico y religioso, en permanente conformación. La primera de ellas fue responsable de la proposición de los Grupos Escolares como molde para la enseñanza primaria, con programas de enseñanza y prescripción de prácticas inéditas hasta ese momento, entre ellas las fiestas, especialmente la Fiesta de la Bandera, en 19 de noviembre, que se configuró como la principal fiesta escolar preconizada, movilizada por el apelo al sentimiento de nación. La segunda reforma marcó un intento de reorganización de la enseñanza con una aproximación al ideario escuelanovista, en el cual el Auditorium se destacaba como evento festivo. Fueron encontradas, seleccionadas y movilizadas fuentes diversas entre las cuales se destaca la variada documentación producida en la Secretaría de Interior del Estado de Minas Gerais (responsable de la llamada “instrucción pública”), guardada en el Archivo Público de Minas Gerais, en Belo Horizonte, compuesta, entre otros documentos, por ordenamientos legales; informes de inspectores y directores escolares; impresos de destinación pedagógica, como el boletín Vida Escolar y la Revista de la Enseñanza de Minas Gerais; e imágenes (especialmente fotografías). El primer capítulo está dedicado a las prescripciones de la legislación y a los programas festivos en las escuelas; el segundo analiza los diferentes tipos de registros discursivos sobre las fiestas escolares presentes en documentos producidos en las escuelas; el tercero aborda la Fiesta de la Bandera, que es central en el análisis. En las consideraciones finales, fueron abordados permanencias, rupturas y desplazamientos en los sentidos de las fiestas escolares, en el período Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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