Pesquisa psicanalítica sobre os fenômenos psicossomáticos.

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PESQUISA PSICANALÍTICA SOBRE OS FENÔMENOS PSICOSSOMÁTICOS Yorgos Dimitriadis Yorgos Dimitriadis Psiquiatra, psicanalista. Ex-psiquiatra hospitalar. Professor da Unidade de Formação e Pesquisa (UFR) em estudos psicanalíticos do Laboratório do Centro de Pesquisas em Psicanálise, Medicina e Sociedade (CRPMS) da Universidade Paris-Diderot. Tradução Fabiana Campos Baptista Doutora em Psicopatologia e Psicanálise (Universidade Paris Diderot Sorbonne Cité). Mestre em Psicanálise (Universidade Paris 8). Mestre em psicologia (UFMG). Professora adjunta do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI BH). RESUMO: Lacan abordou os fenômenos psicossomáticos através do conceito de significante congelado. Os autores que se inspiraram nele fizeram uso desse conceito de diversas maneiras. Existem diferenças entre esses autores quanto à possibilidade de uma determinação concreta de tais significantes congelados (holófrases) que seriam suscetíveis de serem enfatizados pelo analista. Segundo alguns desses autores, o enfatizar tais significantes poderia colocar fim aos fenômenos psicossomáticos. Outros autores lacanianos contestam o valor clínico desse tipo de intervenção. O autor questiona também o parentesco entre os fenômenos psicossomáticos e outros fenômenos clínicos como a alucinação, a emoção, o humor e a passagem ao ato. Palavras-chave: Ato, afeto, embaraço, holófrase, psicossomático. ABSTRACT: Psychoanalytic research on psychosomatic phenomena. Lacan approached the psychosomatic phenomena using the concept of the frozen signifier. Lacanian authors have used this concept in a variety of ways. Yet differences do exist among Lacanian writers themselves, mainly in what concerns the possibility of a concrete determination of such frozen signifiers (holophrasis), which could be spotted by the therapist. According to some of these authors, emphasizing such signifiers could lead the psychosomatic phenomena to an end. Other Lacanian writers question the clinical value of this type of intervention. The author also questions the kinship between the psychosomatic phenomena and other clinical phenomena such as hallucination, emotion, mood and passing in the action. Keywords: Act, affect, embarrassment, holophrasis, psychosomatic. DOI - http://dx.doi.org/10.1590/S1516-14982016000100003 Ágora (Rio de Janeiro) v. XIX n. 1 jan/abr 2016 35-51 36 YORGOS DIMITRIADIS INTRODUÇÃO Hoje, existe uma tendência, nas pesquisas relativas aos fenômenos psicossomáticos, a um distanciamento do “discurso psicanalítico”. Isto se passaria segundo diversas modalidades, às quais vamos mencionar apenas algumas: 1. Para P. Marty, M. de M’Uzan, e outros autores (MARTY, 1990), do instituto psicanalítico de Paris, existe, nos pacientes que apresentam fenômenos psicossomáticos, carência de processos pré-conscientes, fantasmáticos, de sentido, de relações objetais e de simbolização. É pelo termo “pensamento operatório” que esta carência foi qualificada por estes dois autores. Sua concepção, que vai no sentido negativo, assim como o título de “especialista em psicossomática” — pelo qual este instituto valida o curso de seus membros — corre o risco de consagrar ainda mais a “psicossomática” como disciplina e, daí, torná-la independente da psicanálise. 2. O termo neológico ‘alexitimia’ foi introduzido, de acordo com J.-L. Pedinelle e G. Rouan (PEDINELLI & ROUAN, 1998), pelos americanos P.E. Sifneos e J.C. Nemiah, para se referir a pacientes cujo quadro clínico se caracteriza por uma dificuldade em verbalizar os sentimentos e as emoções, uma capacidade fraca de empatia, uma labilidade emocional, um discurso factual e pragmático, evitando toda implicação afetiva. Os pacientes sofrendo de afecções psicossomáticas teriam, segundo estes autores, um problema fixo (eventualmente um déficit neurológico) que impediria esse tipo de operações psíquicas. Segundo Pedinelli e Rouan (idem), o tratamento psicanalítico seria, para Sifneos, ineficaz ou poderia agravar os transtornos. 3. Para os clínicos que se inspiram no ensino de Jacques Lacan, também existem controvérsias em torno da atitude que o analista deveria ter quando os fenômenos psicossomáticos se apresentam durante a cura, sobretudo no que concerne às possíveis intervenções sobre a chamada holófrase. Pensamos que o risco do distanciamento do discurso analítico também se coloca aqui; pois as intervenções que ocorrem dos pretendidos significantes congelados, que nenhum dentre eles preconizam, não dependeriam mais de uma atitude de domínio da parte do clínico, confrontado com formações em relação às quais os sujeitos em questão pareciam não estar divididos? Outros autores, que se inspiram em Lacan, insistem no parentesco dos fenômenos psicossomáticos com outros fenômenos clínicos, como a “passagem ao ato”, e preconizam uma atitude moderada face a esses fenômenos durante a cura, em que a interpretação se aplicaria somente às formações que assinalam a divisão subjetiva. Em seguida, vamos discutir essa controvérsia na literatura lacaniana, começando pelo que o próprio Lacan avançou sobre estas questões difíceis da clínica. Ágora (Rio de Janeiro) v. XIX n. 1 jan/abr 2016 35-51 PESQUISA PSICANALÍTICA SOBRE OS FENÔMENOS PSICOSSOMÁTICOS 37 JACQUES LACAN SOBRE OS FENÔMENOS PSICOSSOMÁTICOS É no segundo seminário de Jacques Lacan que encontramos uma primeira referência1 aos fenômenos psicossomáticos, quando Lacan intervêm em um debate entre F.Perrier e J.-P.Valabrega, autor de um livro (VALABREGA, 1966) sobre as teorias psicossomáticas, que acabava de ser lançado. Vale lembrar que Valabrega (1966) considerava o fenômeno psicossomático a partir de uma generalização do conceito de conversão pelo viés de seu conceito de “recalque psicossomático” e de “fantasma”. Em princípio, Lacan (19531954/1978) diz, em seu seminário, que reina sobre a psicossomática uma grande confusão. Em seguida, ele situa os fenômenos psicossomáticos para além das construções neuróticas, em que o narcisismo é uma linha divisória. Por trás do narcisismo, há o autoerotismo e os investimentos propriamente intraorgânicos que, segundo ele, chamamos em análise de autoeróticos e que exercem com certeza um papel muito importante nos fenômenos psicossomáticos. Não é uma relação ao objeto. Quando existem investimentos chamados autoeróticos, não podemos distinguir a fonte do objeto. Nas neuroses, sempre existem, é claro, os mecanismos de defesa que estão sempre ligados à relação narcísica, no que ela é estritamente estruturada pela identificação possível ao outro. A neurose é sempre enquadrada pela estrutura narcísica. As relações psicossomáticas, ao contrário, estão no nível do real e devem ser compreendidas aqui como sendo o rochedo do biológico (e não como o impossível, que é uma conceituação posterior de Lacan sobre o real). Como nota Patrick Valas (1986), logo que Lacan acrescenta que não se pode distinguir a fonte do objeto, temos aqui a indicação, que continuará central, de uma espécie de curto-circuito na montagem pulsional. Encontramos uma segunda referência importante de Lacan sobre a psicossomática em seu terceiro seminário (LACAN, 1955-1956/1981) quando ele comenta um trabalho de Ida Macalpine sobre uma psicose, que ela evoca os sintomas hipocondríacos. Encontra-se aqui, diz Lacan (1955-1956/1981, p.352), logo à primeira vista, alguma coisa de particular que está no âmago da relação psicótica, como os fenômenos psicossomáticos. É neste momento que Macalpine “pôde ter a apreensão direta de fenômenos estruturados de modo bem diferente do que se passa nas neuroses, a saber, onde há não sei que impressão ou inscrição direta de uma característica, e mesmo, em certos casos, de um conflito, no que se pode chamar o quadro material que apresenta o sujeito enquanto ser corpóreo.” (LACAN, 1955-1956/1981, p.352) 1 Existe de fato uma referência anterior (LACAN et al., 1953) sobre a hipertensão arterial. Ágora (Rio de Janeiro) v. XIX n. 1 jan/abr 2016 35-51 38 YORGOS DIMITRIADIS Vemos aqui as premissas da ideia que Lacan (1955-1956/1981) vai evocar bem mais tarde, da relação do fenômeno psicossomático com o símbolo (impressão ou inscrição), e até mesmo com o número: “uma erupção, diversamente qualificada dermatologicamente, da face, se mobilizará em função de tal aniversário, por exemplo, de maneira direta, sem intermediário e sem dialética alguma, sem que nenhuma interpretação possa marcar sua correspondência com algo coisa que seja do passado do sujeito.” (idem, p.352) Então, vemos aqui Lacan, de um lado, aproximar o fenômeno psicossomático da hipocondria psicótica e, por outro lado, distingui-la do sintoma neurótico que é dialetizável pelo sujeito e é um intermediário, pois ele constitui um modo de endereçamento ao Outro. Nos fenômenos psicossomáticos, porém, o corpo “como Outro” revela o golpe de um conflito. Há uma correspondência direta, neste caso, com o símbolo, que é diferente do significante. Mas ele precisa que (LACAN, 1955-1956/1981) é sem dúvida isto que levou Ida Macalpine a se colocar o problema muito singular das correspondências diretas entre o símbolo e o sintoma. A terceira referência de Lacan, desta vez mais importante, encontra-se no seminário XI (LACAN, 1964/1973, p.206): “A psicossomática é alguma coisa que não é um significante, mas que ainda assim só é concebível na medida em que a indução significante, no nível do sujeito, se passou de uma forma que não coloca em jogo a afânise do sujeito.” Lacan avança isso em um contexto no qual ele acabava de desenvolver as operações de realização do sujeito no lugar do Outro em sua dependência significante, através de duas operações lógicas: a alienação e a separação. Um pouco mais adiante, no seminário, Lacan (1964/1973, p.210) afirma que: “é na medida em que uma necessidade viria a se interessar pela função do desejo que a psicossomática pode ser concebida [.] o elo do desejo é aqui conservado, mesmo se não podemos mais dar conta da função de afânise do sujeito.” (LACAN, 1964/1973, p.210) E, em seguida, ele tenta explicar isso pelo reflexo condicionado de Pavlov, pois, no reflexo, está implicada uma necessidade, a do cachorro que saliva quando ele escuta o sinal. Isto é, produzindo no animal um estímulo não adequado à necessidade (a campainha, por exemplo, no lugar do pedaço de carne), mas que interessa a uma necessidade, introduzimos um elemento heterogêneo na organização dessa necessidade, um corte do desejo do Outro, que é, neste caso, o do experimentador. Ágora (Rio de Janeiro) v. XIX n. 1 jan/abr 2016 35-51 PESQUISA PSICANALÍTICA SOBRE OS FENÔMENOS PSICOSSOMÁTICOS 39 A experiência pode provocar no animal todo tipo de desordem, mas não sendo até o momento presente um ser falante, ele não é chamado a colocar em questão o desejo do experimentador. Lacan (1964/1973, p.215) afirma ainda no seminário XI: “Eu formularia até que, quando não há intervalo entre S1 e S2, quando a primeira dupla de significantes se solidifica, se holofraseia, temos o modelo de toda uma série de casos ainda que, em cada um, o sujeito não ocupe o mesmo lugar”. Essa série de casos diz respeito, além dos fenômenos psicossomáticos, à debilidade e à paranoia, como veremos um pouco mais adiante. É a primeira vez que Lacan avança a ideia de uma solidificação da cadeia significante (uma massificação da cadeia, que se tornará também significante “congelado”, em sua conferência em Genebra) e o termo holófrase, que conhecerá, como veremos mais adiante, múltiplas leituras pelos seus sucessores. Mas vamos, primeiramente, resumir a aproximação que Lacan faz entre o fenômeno psicossomático e o reflexo condicionado. Quando existe uma massificação da cadeia significante, a dialética do desejo estaciona se interrompe/para e “o significante do desejo do Outro” obtêm — por causa disso — uma opacidade, ele torna-se misterioso. Neste estado, ele para de reenviar a um outro significante para se tornar um indutor, um sinal, que induz as perturbações das necessidades do soma, ao invés de relançar a dialética do desejo do sujeito. Isso significa que haveria uma analogia entre o significante congelado e o sinal do experimentador da experiência de Pavlov (da campainha no lugar da carne) quando ele tentava condicionar o animal domesticado (e, como tal, sensível aos sinais vindos de outro humano), a saber, o cachorro. Para além do fenômeno psicossomático, Lacan (1964/1973) inclui na mesma série (ainda que ele precise que o sujeito não ocupe o mesmo lugar) a criança débil: “na medida em que entra a dimensão psicótica em sua educação, isto é, na medida em que a mãe a reduz a ser apenas o suporte de seu desejo em um termo obscuro”. Depois, na mesma série, ele fala da crença na psicose: “[A psicose] é o que proíbe a abertura dialética que se manifesta no fenômeno da crença. No fundo da própria paranoia, que nos parece porém animada de crença, reina esse fenômeno de Unglauben. Não é não crer nisso, mas a ausência de um dos termos da crença, do termo em que designa a divisão do sujeito.” (LACAN, 1964/1973, p.215) Poderíamos acrescentar que “crer” implica uma divisão fundamental, uma aposta no Outro, um investimento libidinal da alteridade do outro. Segundo Lacan, é isso que faz a diferença entre neurose e psicose “Na psicose, as vozes, o sujeito não só acredita (il y croit), mas acredita nelas (il les croit)”, dirá em 1975 (LACAN, 1975). Ágora (Rio de Janeiro) v. XIX n. 1 jan/abr 2016 35-51 40 YORGOS DIMITRIADIS A última referência de Lacan à psicossomática se encontra em uma conferência sobre o sintoma, dada em Genebra (LACAN, 1975/1985). Em resposta a uma questão colocada pelo auditório sobre a natureza dos fenômenos psicossomáticos, ele respondeu: “é certo que este é um domínio muito pouco explorado. Enfim, é algo da ordem do escrito. Em muitos casos não sabemos lê-lo. Precisaria dizer aqui algo coisa que introduza a função do escrito. Tudo se passa como se algo estivesse escrito no corpo, como coisa que se oferece como enigma. Não é surpreendente que tenhamos este sentimento como analistas.” (LACAN, 1975/1985, p.10) Em seguida, à questão da mesma pessoa: “Mas como fazê-los falar daquilo que está escrito? Aqui, me parece que há um corte”, ele respondeu: “é verdade. Existe isto que os místicos chamam de assinatura das coisas, o que existe nas coisas que se pode ler. Signatura não quer dizer signum, não é mesmo? Existe algo para se ler, diante do qual, muitas vezes, boiamos”. Quanto à questão do Doutor Nicos Nicolaides, membro do Instituto de Psicossomática de Paris, e bem mais tarde, autor de uma obra sobre a representação (NICOLAIDIS, 1993), se a psicossomática se exprime com uma linguagem de hieróglifo, enquanto o neurótico se exprime com uma linguagem alfabética, Lacan respondeu que “sim, o corpo considerado como um cartucho liberando o nome próprio”, precisando mais adiante que este hieróglifo “não seria provavelmente um grito”. Ele precisa que é em torno do traço unário, termo com o qual ele havia traduzido o einziger Zug de Freud, que gira toda a questão do escrito. “E o corpo no significante faz traço, traço que é um UM”. Por fim, ele interroga a questão do gozo presente na psicossomática. Ele retoma a metáfora do “congelado”, dizendo que se ele a escolheu, é porque existe certamente uma espécie de fixação: “Não é à toa também que Freud emprega o termo Fixierung — é porque o corpo se deixa escrever algo da ordem do número”. E mais adiante, na mesma conferência, ele propõe uma modalidade de aproximação do fenômeno psicossomático na cura: “é pela revelação do gozo específico que há na sua fixação, que sempre é preciso abordar o psicossomático [.]. É na medida em que, o que se espera, é dar-lhe o sentido do que se trata. O psicossomático é algo que é, ainda assim, em seu fundamento, profundamente arraigado no imaginário”. Vemos então que Lacan aproxima o fenômeno psicossomático de uma escrita enigmática, para a qual ele emprega os termos de configuração, de traço, de assinatura e de hieróglifo, escrita então mais imaginária e que fixa um gozo específico. Em seguida, muitos autores insistiram no caráter “de imitação” do fenômeno psicossomático. Ágora (Rio de Janeiro) v. XIX n. 1 jan/abr 2016 35-51 PESQUISA PSICANALÍTICA SOBRE OS FENÔMENOS PSICOSSOMÁTICOS 41 FENÔMENOS PSICOSSOMÁTICOS E HOLÓFRASE Jean Guir escreveu numerosos artigos sobre os fenômenos psicossomáticos e um livro (GUIR, 1984) intitulado Psicossomática e câncer. Neste livro, que é de fato um apanhado de artigos, o autor retoma um fragmento da análise de um paciente sofrendo de enxaqueca, para quem a interpretação “Onde está o mistério” desenlaça, “descongela” a holófrase “Westminster — Winchester”, que surge “perto do umbigo de um sonho”, e faz desaparecer as enxaquecas. Guir diferencia o fenômeno psicossomático do fenômeno psicótico, pelo fato de que o elo do desejo seria conservado nos primeiros, enquanto isto não seria o caso nos segundos. Até porque o Outro goza do órgão no primeiro, enquanto ele goza do corpo inteiro nos psicóticos. Para este mesmo autor, nesses pacientes, a metáfora paterna funciona em certos lugares do discurso e não em outros. Apenas determinados momentos específicos do discurso provocam um desencadeamento no corpo. Pode-se perguntar, ele diz, se “o transtorno corporal, acontecimento do corpo, não viria atuar como um dos Nomes-do-Pai”. Monique Liart (1992, p.18), em referência a Jacques-Alain Miller (1986) e também aos trabalhos de Guir, sustenta que a atitude do psicanalista — em relação aos doentes psicossomáticos — deve se pautar em função da estrutura da pessoa. Na neurose: “há um golpe localizado na metáfora subjetiva. Se existe, em relação a um significante, imobilidade e impossibilidade de retorno do S2 sobre o S1, isso não impede que o elo do desejo seja conservado. Quanto a um significante que se refere à identificação primordial, o Outro é contornado. O Outro torna-se o corpo [.]. A interpretação do analista deve visar então à restabelecer, em relação a este significante os serviços demandados. 2. Plano coletivo: o poder público precisa relacionar-se com grupos de cidadãos, organizados ou não, que possuem o direito de reivindicar coletivamente os seus direitos, cobrar ações de efetivação de políticas publicamente definidas ou propor mudanças em tais políticas. Para efetivar essa interlocução o Estado precisa instituir mecanismos de interlocução, formais ou informais, com o intuito de estabelecer contato com esse grupo. É neste plano que acontece a possibilidade de deliberação conjunta e de cooperação coletiva na solução de problemas. Mais do que as opiniões e demandas de um só cidadão, importam as 55    razões e os argumentos construídos, importam as razões e os argumentos construídos, apresentados e debatidos coletivamente. Para que um programa de mobilização para a participação se torne efetivo e alcance os seus objetivos é necessário que as organizações recorram aos meios de comunicação como aliados para a transmissão de informações aos públicos de modo haver a um engajamento coletivo. A sintonia de interesses das organizações públicas com os interesses da sociedade civil só poderá tornar-se efetiva, de acordo com Brandão (2007, p.5-6), a partir do momento em que as organizações públicas, através de seus órgãos e agentes, conseguem estabelecer fluxos informativos com a população para assim levar projetos, ações, políticas e atividades ao conhecimento da opinião pública26. Acredita que é necessária a criação de espaços nos quais não só as organizações públicas possam se comunicar com a sociedade, mas também o inverso possa acontecer. Daí que as mensagens da comunicação pública devem despertar o interesse individual e coletivo, devem por outro lado, serem mensagens que emanam de um debate público, isto é, que provêm de um espaço público onde o acesso é democrático. No processo operacional das organizações públicas, a disposição de informações sobre os bens públicos é capital para o conhecimento das funcionalidades, utilização e preservação de recursos hídricos. A política Moçambicana de Água de 2007 prevê que para uma gestão sustentável da água a disposição de informação constituirá uma prioridade para o público em geral, quer para aumentar o conhecimento e sensibilidade sobre o potencial e os problemas da água, quer para advogar a necessidade de uso sustentável, quer ainda para promover e criar condições para uma gestão mais participativa e integrada envolvendo utentes e partes interessadas (CONSELHO DE MINISTROS 2007, p.7). Partindo das análises de Brandão (2007), Duarte (2007) e Zémor (1995) pode-se concluir que a comunicação pública é um processo importante para a mobilização tanto da empresa como das comunidades na gestão partilhada de bens públicos. Ao colocar no espaço público assuntos inerentes a bens públicos, as organizações e as comunidades abrem espaço para que todos possam tomar parte na tomada de decisões. Por outro lado,                                                             26 Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2006/resumos/R1037-1.pdf acesso.12. mai.2013 56    é no espaço público onde há um embate entre os interesses organizacionais e das comunidades em busca de uma decisão que satisfaz tanto os objetivos organizacionais como os das comunidades que atendem. Em suma, a comunicação das organizações públicas deve fomentar o debate, informar devidamente às comunidades que atendem sobre questões prementes a serem discutidas sobre as quais deve haver alguma decisão política e estimular a participação, buscando uma cooperação ativa no processo de gestão. 2.7 O desafio da formação do interesse público A criação de interesse público é um dos objetivos de todo o processo de mobilização, engajando os públicos na busca de soluções sobre os problemas que lhes afligem. Para Toro e Werneck (2004, p.5) mobilizar significa convocar vontades para atuar na busca de um propósito comum, sob uma interpretação e um sentido compartilhado. Acrescentam que, a mobilização ocorre quando um grupo de pessoas, uma comunidade ou uma sociedade decide e age com um objetivo comum, buscando, cotidianamente, resultados decididos e desejados. HENRIQUES et al. (2004, p.36) definem a mobilização social como sendo a “reunião de sujeitos que definem objetivos e compartilham sentimentos, conhecimentos e responsabilidades para a transformação de uma dada realidade, movidos por um acordo em relação a determinada causa de interesse público”. Nesta definição indicam principalmente a ligação entre os processos de mobilização e de formação do interesse público. Advogam que a primeira parte dessa definição traça o caráter coletivo da mobilização – ou seja, da condição de formação de um grupo mobilizado – a segunda parte remete-nos, ao seu caráter público. Como afirma Henriques (2010, p.72) ao definir mobilização social nestes termos é preciso prestar atenção não apenas nos objetivos que são traçados em comum, mas também à geração de uma responsabilidade compartilhada entre as pessoas quanto ao problema que desejam resolver. Acrescenta que esse problema deve ser de interesse público, ou seja, deve ser posicionado não como sendo do âmbito privado daquele conjunto de pessoas, mas no âmbito coletivo. E a responsabilidade compartilhada, ou seja, a corresponsabilidade, em relação aos temas públicos só pode ser alcançada por uma 57    série de transações entre esses sujeitos, capazes de produzir certos acordos e construir vínculos grupais. A comunicação configura-se, assim, como um processo importante para a problematização das questões e para a implicação de diversos públicos nestes problemas e para a visibilidade dos assuntos tidos como de relevância mais geral e de interesse público. Para Henriques (2012, p.7), a visibilidade e a constituição de públicos são fatores essenciais para explicar as condições sob as quais se forma o caráter público dos processos mobilizadores. Deve ser entendida como um recurso essencial para que os sujeitos possam se engajar em discussões públicas, propor questões e posicionar seus interesses quanto aos temas debatidos. A necessidade de propagar suas ideias, de divulgar sua causa, de preparar seus argumentos para inserir-se nos debates correntes ou mesmo para iniciar discussões ausentes da esfera pública induz a que estes grupos busquem estrategicamente alguma forma de visibilidade. Porém observa Henriques que a situação de visibilidade não pode ser tomada per se, pois sempre se dirige a alguém. Ela se dirige tanto ao próprio grupo mobilizado quanto a outros grupos, o que equivale dizer que se dirige a públicos. Esse fato a torna condicionada, portanto, pelos aspectos que definem esses agrupamentos como públicos e, de início, pelo que se presume sejam seus interesses comuns. Partindo deste principio não se pode olhar para a visibilidade como um fator único no processo de mobilização é preciso olhar para a formação de públicos, é necessário que uma questão, inicialmente percebida em âmbitos privados, ganhe ampla visibilidade para os públicos e, com isso, possa ser discutida como algo que (mesmo que de modo presumido) leva em conta o interesse de todos. (HENRIQUES 2012, p.7) Nesta perspectiva, a mobilização social corresponde, assim, a uma movimentação estratégica dos públicos com o intuito de não apenas se posicionarem (como públicos), mas também de conquistarem engajamento de outras pessoas, fazer alianças com outros públicos e tentar obter maior potência. Numa sociedade democrática onde as comunidades e as organizações se empenhem numa interação constante com vista a uma convivência pacífica, cada segmento tem um papel a cumprir na gestão dos recursos hídricos. A comunicação neste processo assumese como fulcral para o alcance tanto dos objetivos organizacionais como dos das comunidades. Como advogam Toro e Werneck (1996, p.5) toda a mobilização social é um ato de comunicação, pois envolve o compartilhamento de discursos, visões e informações. Por isso, os processos de mobilização podem ser compreendidos como processos comunicativos. Toro e Werneck (1995, p.37-58) afirmam que todo o processo mobilizador deve explicitar os seus propósitos, para tal elencam os seguintes elementos 58    como chave para o alcance do objetivo preconizado no ato mobilizador: (.) (1) a Formulação de um Imaginário a explicitação de seu propósito. Esse propósito está diretamente ligado à qualidade da participação que será alcançada; (.) (2) Atores, de acordo com estes o processo de mobilização social tem início quando uma pessoa, um grupo ou uma instituição decide iniciar um movimento no sentido de compartilhar um imaginário e o esforço para alcançá-lo; (.) (3) Produtor Social, que é a pessoa ou instituição que tem a capacidade de criar condições econômicas, institucionais, técnicas e profissionais para que um processo de mobilização ocorra; (.) (4) O Reeditor Social, é uma “pessoa que tem público próprio”, que é reconhecido Reviews. 23, (1): 2008 SCHOLZ, U., SCHÜZ, B., ZIEGELMANN, J. P., LIPPKE, S., & SCHWARZER, R. (Beyond behavioural intentions: Planning mediates between intentions and physical activity. British Journal of Health Psychology, 13, 479-494. 2008. SCHRAMM, F. R. “A Autonomia Difícil” Bioética 6 (1): 27-37. 1998 SCHRAMM FR , A moralidade da prática de pesquisa nas ciências sociais: aspectos epistemológicos e bioéticos Ciênc. saúde coletiva vol.9 no.3 Rio de Janeiro July/Sept. 2004 SCHRAMM, F.R.; PALACIOS, M.; REGO, S. O Modelo bioético principialista para a análise da moralidade da pesquisa cientifica envolvendo seres humanos ainda é satisfatório? Cienc. saúde coletiva, v. 13, n. 2, p. 361-370, 2008. SCHWARZER, R. 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Acesso em : 05 outubro 2012 107 APÊNDICES E ANEXOS --------------------------------------------------------------- 108 10 APÊNDICES APENDICE I- TERMO DE CONSCENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS ESCOLA DE ENFERMAGEM TERMO DE CONCENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO PARTICIPAÇÃO EM GRUPOS FOCAIS E ATIVIDADES EDUCACIONAIS Nós estamos te convidando para estar nesta pesquisa porque estamos tentando aprender mais sobre infecções por vermes em pessoas que vivem em sua área. Nós estamos tentando descobrir se a sua comunidade é um bom lugar para testes de novos produtos para impedir que as pessoas fiquem infectadas com vermes. Você participa somente se concordar. Se você não quiser estar nesta pesquisa, não deve participar. Ninguém ficará chateado com você se não quiser participar ou mesmo se mudar de idéia mais tarde e quiser sair da pesquisa. Se você concordar em estar na pesquisa, nós iremos perguntar a você algumas coisas sobre a sua saúde e o que você sabe sobre vermes e sobre pesquisa. Este processo irá levar cerca de 1 hora. Em um outro momento nós pediremos a vocês para formarem pequenos grupos para nos darem conselhos de como melhorar o modo como fazemos pesquisa na sua comunidade, para pesquisas no futuro. Estas discussões de grupo irão durar cerca de 2 horas. Se você concordar em estar nesta pesquisa, você poderá aprender mais sobre vermes e saúde durante estas pequenas sessões de grupo. Nesta fase da pesquisa o risco que você corre é de ficar constrangido durante as entrevistas ou grupos. Para diminuir estes riscos nós faremos nossos encontros em local que você se sinta mais a vontade. Na sua casa ou na sede da clínica. Todas as informações que nós coletarmos sobre você durante esta pesquisa, serão mantidas em sigilo por nós. Por favor, faça qualquer pergunta que tiver sobre a pesquisa. Se tiver mais tarde uma pergunta que não possa ser pensada agora, você pode contatar para uma das pessoas da equipe da pesquisa. 109 Eu li e discuti este termo de consentimento e o entendi. Minhas perguntas foram respondidas. Eu concordo livremente em tomar parte desta pesquisa. Nome voluntário:__________________________________________________ _______________________________ Assinatura/Impressão digital _____________ Data _____________________________ Nome do pesquisador __________________________ Assinatura pesquisador o voluntário pode ler? Sim Não _________________________________________ Nome da testemunha (por favor, em letra de forma) __________________________________________ Assinatura/ Data 110 APENDICE II QUESTIONÁRIO- QSC Dados Sócio-demográficos Nome:_____________________________________________ _____________________________ ___ Sexo: F M Idade: ___ ___ anos ID: ______ Casa:______Região: --------------------- Data: _____ / _______ / _______ Entrevistador: ____________________________ Escolaridade: Analfabeto Ensino fundament al Ensino Médio Percepção do Risco Questão 1) Você têm grandes chance s de ser infectado por vermes. Superior Questão 2) Se você pegar vermes pode sentir fraqueza. Questão 3) Se comparar você com uma pessoa do seu sexo e da sua idade que mora em Belo Horizonte, o seu ri sco de ser contaminado por vermes é maior. Questão 4) Se você estiver doente e não tratar, a doença pode piorar. 111 Questão 5) Se você pegar vermes pode ter anemia. Questão 6) Se pegar vermes você pode ter mais disposi ção para trabalhar. Questão 7) Se você mudar seus hábitos de vida pode diminuir sua chance de ter vermes. Questão 8) As verminose s não são doenças perigosa s porque são faci lmente tratadas. Questão 9) Você pode ter vermes e não sentir nada. 112 Expectativa s com a participação numa pesqui sa futura de um alimento funcional Questão 10) Ca so concorde em participar da pesqui sa, você acha que obterá benefícios. Questão 11) Ca so concorde em participar da pesqui sa, você acha que não terá mais vermes. Questão 12) Caso concorde em participar da pesqui sa, você acha que poderá ajudar a sua comunidade a combater o verme do amarelão. Questão 13) Caso concorde em participar da pesqui sa , você acha que terá tratamento para outra s doença s. Questão 14) Você acha que perderá muito tempo do seu dia, ca so concorde em participar da pesqui sa. 113 Questão 15) Participar da pesqui sa pode trazer alguma doença para você. Auto-eficácia de Ação Questão 16) Ca so concorde em participar da pesqui sa, você acha que terá disposição de participar de todas as reuniões em grupo. Questão 17) Ca so concorde em participar da pesqui sa, você pretende realizar as atividades mesmo se seus familiares não estiverem participando da pesqui sa. Questão 18) Você está certo de que precisará se esforçar, caso participe da pesqui sa. Questão 19) Ca so a pesqui sa comece na próxima semana, você concordará em participar. 114 Questão 20) Você sente que preci sa se preparar melhor, antes de concordar em participar da pesqui sa. Auto-eficácia de Manutenção Questão 21) Ca so concorde em participar, você está certo que continuará na pesquisa mesmo que não perceba melhora no seu estado de saúde. Questão 22) Ca so concorde em participar da pesqui sa, você pretende permanecer mesmo que ela ocupe seu tempo. Questão 23) Ca so concorde em participar da pesqui sa, você pretende permanecer me smo que ela afete sua rotina de trabalho. Questão 24) Ca so concorde em participar da pesqui sa, você acha que conseguirá permanecer até o final. 115 Auto-eficácia de Recuperação Questão 25) Ca so concorde participar, você pretende continuar na pesqui sa mesmo que esqueça de realizar alguma das atividades propostas. Questão 26) Ca so concorde participar, você está certo que pode continuar na pe squi sa, mesmo que falhe em realizar alguma das atividades proposta s. Questão 27) Ca so concorde participar, se existir dificuldade s você tentará resolve -las para permanecer na pesqui sa. Planejamento Questão 28) Ca so concorde em participar da pesqui sa, você tem planos de quando realizar as atividades propostas. 116 Questão 29) Ca so concorde em participar da pesqui sa, você já tem planos de como realizar as atividades propostas. Questão 30) Ca so concorde em participar, você tem planos do que mudar na sua rotina para conseguir realizar as atividades proposta s da pesqui sa. Questão 31) Ca so concorde em participar da pesqui sa, você tem planos de ir na s reuniões ou vi sita s proposta s, mesmo que elas ocorram nos finais de semana. 11- ANEXOS ANEXO I- PARECER COEP UFMG 117
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Ingressou : 2016-12-29

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