Feedback

Estudo do conteúdo de calor e suas influências sobre variáveis limnológicas em reservatórios de abastecimento de água

Documento informativo

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SANEAMENTO, MEIO AMBIENTE E RECURSOS HÍDRICOS ESTUDO DO CONTEÚDO DE CALOR E SUAS INFLUÊNCIAS SOBRE VARIÁVEIS LIMNOLÓGICAS EM RESERVATÓRIOS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA Tales Heliodoro Viana Belo Horizonte 2009 Estudo do conteúdo de calor e suas influências sobre variáveis limnológicas em reservatórios de abastecimento de água Tales Heliodoro Viana Tales Heliodoro Viana Estudo do conteúdo de calor e suas influências sobre variáveis limnológicas em reservatórios de abastecimento de água. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pósgraduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito final à obtenção do título de Doutor em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Área de concentração: Saneamento Linha de pesquisa: Limnologia Orientador: Eduardo von Sperling Belo Horizonte Escola de Engenharia da UFMG 2009 Página com as assinaturas dos membros da banca examinadora, fornecida pelo Colegiado do Programa AGRADECIMENTOS A Companhia de Saneamento de Minas Gerais pelo apoio e meios fornecidos na execução deste trabalho; Ao Eng.Valter Vilela Cunha pelo apoio e incentivo, da mesma forma aos amigos Ronaldo de Luca Ferraz Gonçalves e Jorge Sadala e em especial aos colegas e amigos da Divisão de Recursos Hídricos, e a Biol. Andressa Drumond e aos estagiários Luana, Alysson, e Mariana; Aos colegas, coletores, Tec. químicos, Biólogos, que tão abnegadamente fazem as amostragens nos reservatórios, em especial ao Arlindo; ao Fernando Jardim e ao Adilson pelo enorme apoio e força nos momentos difíceis e na retomada do caminho; Aos amigos do ICB-UFMG, Biol.Prof. Dr. Marcos Callisto, Biol. Josy , Biol. Adriana, Biol. Dr. José Fernandes B.Neto. Ao André, Bruno e Guilherme pela inestimável ajuda na análise estatística e a amiga Sílvia pelas dicas na estatística. Aos colegas e professores do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Escola de Engenharia da UFMG, cujo incentivo e apoio constante foram decisivos a cada momento. Ao meu orientador Dr. Eduardo Von Sperling pelo incentivo, apoio e entusiasmo. Aos meus amigos, aos colegas de trabalho. Aos meus pais. Ao meu filho, também biólogo, Filipe, pelo apoio, incentivo, exemplo, carinho e ajuda. A Maria Eugênia, pelo estímulo e pela paciência nos momentos difíceis e principalmente pelo profundo amor e respeito que a mim devotou e por tudo de bom que em mim plantou e semeou em cada dia de nossa vida em comum. E à vida, expressão maior da própria natureza. Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG i As leis naturais não são forças externas às coisas, mas representam a harmonia e o movimento inerente às próprias coisas. I Ching. Se o caminho que apontamos parecer excessivamente árduo, mesmo assim pode ser descoberto. Se fácil fosse, como poderia ser negligenciado por tanta gente? Todas as coisas boas de fato são difíceis, quão raras. Spinosa – Ética ( adaptação) Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG ii RESUMO Este trabalho resgatou e produziu séries históricas de parâmetros físicos, químicos e biológicos da qualidade das águas em seis reservatórios construídos para o abastecimento público, no estado de Minas Gerais, Brasil. Retrata a evolução de alguns destes parâmetros, calcula os conteúdos de calor bem como o comportamento térmico destes reservatórios, informando a atual situação de calor e da qualidade das águas represadas. Os reservatórios estudados foram construídos entre as décadas de 1960 e 1990. Vargem das Flores ao final dos anos 60, Serra Azul (na região do alto São Francisco) e Juramento (na região do médio São Francisco) no início dos 80 e Rio Manso ao final desta. Ao final da década de 90 foram construídos os reservatórios do Ribeirão (Medina) e o do Soberbo (Pedra Azul), na região do médio Jequitinhonha no semi-árido mineiro. Foram executadas medições de temperatura nos perfis verticais das águas durante as coletas de rotina e coletas de 24 horas (nictemerais), calculados os conteúdos de calor de cada um dos reservatórios. Foi sugerido um modelo conceitual simplificado de funcionamento dos fluxos dos diversos materiais e da energia do hipolímnio e epilímnio. O modelo informa os fluxos de nutrientes e substâncias como sendo regulados pelos padrões de temperatura e calor. A evolução temporal dos padrões de comportamento térmico e suas influências sobre os biótopos em estudo foram discutidas. Foram recuperados os dados relacionados à qualidade das águas, nos seus aspectos físicos e químicos mais relevantes e hidrobiológicos. Os parâmetros morfométricos destas estruturas foram calculados e utilizados na avaliação das condições atuais e a influência das estruturas de engenharia dos barramentos na qualidade das águas. Foram obtidas correlações positivas entre o conteúdo de calor dos reservatórios e as variáveis limnológicas avaliadas. Foi observado que, no reservatório onde o uso da descarga de fundo é eficaz, há modificações nos conteúdos de calor e consequentemente nas populações fitoplanctônicas. Sugere-se que haja uma diminuição do tempo de residência hidráulica em cada reservatório de abastecimento, não captação das águas no corpo dos lagos e sim a jusante, após a passagem destas águas por válvulas dispersoras. Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG iii ABSTRACT This work has recovered and produced historical series of physical, chemical and biological water quality parameters in six reservoirs built for public water supply in the state of Minas Gerais, Brazil. It pictures the evolution of some of these parameters, and calculates the heat contents, as well as the thermal behavior of these reservoirs informing the current situation of heat and quality of the dammed waters. The estudied reservoir were built between the decades of 1960 and 1990. Vargem das Flores in the end of the 1960 decade, Serra Azul (in upper São Francisco river valley), and the Juramento (in the medium São Francisco river valley) in the beginning of the 1980 decade, and Rio Manso in the end of this. At the end of the 1990 decade the reservoirs of Ribeirão (in Medina) and Soberbo (in Pedra Azul) were built in the medium Jequitinhonha river valley, in the semi-arid region of Minas Gerais. Temperature measurements in the vertical profiles of the water bodies were carried out during the routine sampling and eventually in 24-hour sampling (diel) and the heat contents in each reservoir were calculated in all the recovered data. A simplified operation conceptual model of the flux of several materials and of energy in the hypolimnion and in the epilimnion was built. The model informs the flux of nutrients and substances as being regulated by patterns of temperature and heat. The evolution in time of thermal patterns and its possible influence over the studied biotopos physiology were discussed. Data related to water quality, in its most important physical and chemical aspects, and hydrobiological data, was recovered. The morphometric parameters of these structures were calculated and the data was used in the evaluation of current conditions and of influence of the engineering structures which compose the dam in the water quality . Positive correlations between the heat content of the reservoirs and the evaluated limnological variables were obtained. It was observed that, in the reservoir where the use of the bottom discharge is efficient, there are changes in the heat content and, consequently, in the phytoplanctonic populations. A reduction in the time of hydraulic residence in each reservoir is suggested, as well as the captation of the water down river from the dam, after its passage by the dispersing valves and not in the water body. Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG iv SUMÁRIO LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS.vi. LISTA DE FIGURAS.vii LISTA DE TABELAS .xii 1 INTRODUÇÃO . 1 2 OBJETIVOS. 4 2.1 OBJETIVO GERAL. 4 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS. 4 3 REVISÃO DA LITERATURA . 5 4 MATERIAL E MÉTODOS. 14 4.1 CARACTERIZAÇÃO GEOGRÁFICA E MORFOMÉTRICA DOS RESERVATÓRIOS . 14 4.1.1 Situação geográfica e informações georeferenciadas dos resertórios estudados.17 4.1.2 Descrição da estrutura hídrológica simplificada dos reservatórios estudados.18 4.1.3 Caracterização morfométrica dos reservatórios.19 4.2 LOCALIZAÇÃO ESPACIAL DOS PONTOS AMOSTRAIS EM CADA RESERVATÓRIO . 25 4.3 ESTRUTURAS DE CAPTAÇÃO DE ÁGUA DOS RESERVATÓRIOS EM ESTUDO . 26 4.4 PLANO DE AMOSTRAGEM DOS RESERVATÓRIOS EM ESTUDO . 29 4.5 PARÂMETROS SELECIONADOS E METODOLOGIA DE AMOSTRAGEM E DE ANÁLISE . 31 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO. .37 5.1 MORFOMETRIA . 37 5.2 PARÂMETROS ANALISADOS . 39 5.2.1 Análises quantitativas da comunidade fitoplanctônica.39 5.2.2 Análises do número de taxa da comunidade fitoplanctônica.45 5.2.3 Análises dos pigmentos fotossintetizantes.49 5.2.3.1 Análises das concentrações de Clorofila a.49 5.2.3.2 Análises das concentrações de Feofitina a.52 5.2.3.3 Análises das relações entre as concentrações de Clorofila a e Feofitina a.55 5.2.4 Análises dos parâmetros físicos e físico-químicos dos reservatórios estudados .58 5.2.5 Análises dos parâmetros funcionais e construtivos dos reservatórios estudados.70 5.2.6 Sugestão de modelo conceitual de funcionamento dos reservatórios estudados.73 5.2.7 Análises das temperaturas médias epilimnéticas e hipolimnéticas dos reservatórios estudados.76 5.2.8 Discussão sobre as resistências térmicas relativas (RTR) dos reservatórios estudados.80 5.2.9 Análise dos Índices de tropicalidade dos reservatórios estudados.81 5.3.0 Avaliações nictemerais dos conteúdos de calor e temperaturas dos reservatórios estudados.82 5.3.1 Análises dos conteúdos de calor dos reservatórios estudados.88 5.3.2 Estatística analítica dos parâmetros limnológicos estudados dos reservatórios de Vargem das Flores, Serra Azul, Rio Manso e Juramento.95 6 CONCLUSÕES. 110 7 RECOMENDAÇÕES. 113 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. 115 9 ANEXOS.118 9.1 Cronograma de amostragem contendo data e número de cada amostragem nos reservatórios estudados(Anexo).119 Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG v LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS anm - altura em relação ao nível do mar Cal – caloria Cl a – Clorofila a Fe a – Feofitina a JU – Reservatório do Juramento em Juramento (MG) Kcal – quilocaloria OD – Oxigênio dissolvido RM – Reservatório do Rio Manso em Brumadinho (MG) RMBH – Região Metropolitana de Belo Horizonte RI – Reservatório do Ribeirão em Medina (MG) RTR – Resistência Térmica Relativa SA – Reservatório do Serra Azul em Juatuba (MG) SB – Reservatório do Soberbo em Pedra Azul (MG) Secchi – Medida de leitura do disco de Secchi TDH – Tempo de detenção hidráulica VF – Reservatório de Vargem das Flores em Betim / Contagem (MG) Sinonímia: Vargem das Flores e Várzea das Flores Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG vi LISTA DE FIGURAS Figura 3.1 – Tempos de detenção hidráulica em relação ao tipo de estrutura física. 8 Figura 4.1– Localização geográfica de cada reservatório no estado de Minas Gerais. 15 Figura 4.2 – Cotas altimétricas dos reservatórios em estudo. 16 Figura 4.3.a – Áreas dos reservatórios em km2 ao nível das ogivas dos vertedouros.22 Figura 4.3.b – Volumes dos reservatórios em m3 ao nível das ogivas dos vertedouros.22 Figura 4.3.c – Desenvolvimento dos volumes dos reservatórios ao nível das ogivas dos vertedouros.22 Figura 4.3.d – Profundidades máximas, médias e relativas dos reservatórios ao nível das ogivas dos vertedouros.23 Figura 4.3.e – Comprimentos máximos dos reservatórios ao nível das ogivas dos vertedouros .23 Figura 4.3.f – Larguras máximas e médias dos reservatórios ao nível das ogivas dos vertedouros.23 Figura 4.3.g – Perímetros dos reservatórios ao nível das ogivas dos vertedouros.24 Figura 4.3.h – Desenvolvimentos dos perímetros dos reservatórios ao nível das ogivas dos vertedouros.24 Figura 4.4 – Indicação do ponto amostral, E1, ponto limnológico.25 Figura 4.5 – Estrutura básica de captação utilizada em cada reservatório estudado.26 Figura 5.1 - Variação da concentração de organismos fito planctônicos por mL em 136 amostras na estação principal do reservatório de Vargem das Flores entre 1984 e 2005.40 Figura 5.2 - Variação da concentração de organismos fito planctônicos por mL em 108 amostras na estação principal do reservatório do Serra Azul entre 1981 e 2005.40 Figura 5.3 - Variação da concentração de organismos fito planctônicos por mL em 97 amostras na estação principal do reservatório do Rio Manso entre 1989 e 2005.41 Figura 5.4 - Variação da concentração de organismos fito planctônicos por mL em 108 amostras na estação principal do reservatório do Juramento entre 1985 e 2005.41 Figura 5.5 - Variação da concentração de organismos fito planctônicos por mL em 16 amostras na estação principal do reservatório do Ribeirão entre 1999 e 2005.41 Figura 5.6 - Variação da concentração de organismos fito planctônicos por mL em 16 amostras na estação principal do reservatório do Soberbo entre 1999 e 2005.42 Figura 5.7 - Variação do número de taxa de organismos fito planctônicos identificados em 138 amostras na estação principal do reservatório de Vargem das Flores entre 1982 e 2005.46 Figura 5.8 - Variação do número de taxa de organismos fito planctônicos identificados em 152 amostras na estação Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. Baccarani M, Cortes J, Pane F et al. Chronic myeloid leukemia: an update of concepts and management recommendations of European LeukemiaNet. J Clin Oncol 2009; 27: 6041–6051. 6 | Marcolino et al. Downloaded from annonc.oxfordjournals.org at Universidade Federal de Minas Gerais on February 10, 2011 Annals of Oncology original article 3. Blackstein ME, Blay JY, Corless C et al. Gastrointestinal stromal tumours: consensus statement on diagnosis and treatment. Can J Gastroenterol 2006; 20: 157–163. 4. Vandyke K, Fitter S, Dewar AL et al. Dysregulation of bone remodelling by imatinib mesylate. Blood 2010; 115: 766–774. 5. Kitiyakara C, Atichartakarn V. Renal failure associated with a specific inhibitor of BCR-ABL tyrosine kinase, STI 571. Nephrol Dial Transplant 2002; 17: 685–687. 6. Foringer JR, Verani RR, Tjia VM et al. Acute renal failure secondary to imatinib mesylate treatment in prostate cancer. Ann Pharmacother 2005; 39: 2136–2138. 7. Pinder EM, Atwal GS, Ayantunde AA et al. Tumour lysis syndrome occurring in a patient with metastatic gastrointestinal stromal tumour treated with glivec (imatinib mesylate, Gleevec, STI571). Sarcoma 2007; 2007: 82012. 8. Al-Kali A, Farooq S, Tfayli A. Tumor lysis syndrome after starting treatment with Gleevec in a patient with chronic myelogenous leukemia. J Clin Pharm Ther 2009; 34: 607–610. 9. Pou M, Saval N, Vera M et al. Acute renal failure secondary to imatinib mesylate treatment in chronic myeloid leukemia. Leuk Lymphoma 2003; 44: 1239–1241. 10. Vora A, Bhutani M, Sharma A, Raina V. Severe tumor lysis syndrome during treatment with STI 571 in a patient with chronic myelogenous leukemia accelerated phase. Ann Oncol 2002; 13: 1833–1834. 11. Naughton CA. Drug-induced nephrotoxicity. Am Fam Physician 2008; 78: 743–750. 12. Gafter-Gvili A, Ram R, Gafter U et al. Renal failure associated with tyrosine kinase inhibitors—case report and review of the literature. Leuk Res 2010; 34: 123–127. 13. Kelly RJ, Billemont B, Rixe O. Renal toxicity of targeted therapies. Target Oncol 2009; 4: 121–133. 14. Takikita-Suzuki M, Haneda M, Sasahara M et al. Activation of Src kinase in platelet-derived growth factor-B-dependent tubular regeneration after acute ischemic renal injury. Am J Pathol 2003; 163: 277–286. 15. O’Brien SG, Guilhot F, Larson RA et al. Imatinib compared with interferon and low-dose cytarabine for newly diagnosed chronic-phase chronic myeloid leukemia. N Engl J Med 2003; 348: 994–1004. 16. Hochhaus A, O’Brien SG, Guilhot F et al. Six-year follow-up of patients receiving imatinib for the first-line treatment of chronic myeloid leukemia. Leukemia 2009; 23: 1054–1061. 17. Druker BJ, Sawyers CL, Kantarjian H et al. Activity of a specific inhibitor of the BCR-ABL tyrosine kinase in the blast crisis of chronic myeloid leukemia and acute lymphoblastic leukemia with the Philadelphia chromosome. N Engl J Med 2001; 344: 1038–1042. 18. National Kidney Foundation. K/DOQI clinical practice guidelines for chronic kidney disease: evaluation, classification, and stratification. Am J Kidney Dis 2002; 39: S1–S266. 19. Coresh J, Byrd-Holt D, Astor BC et al. Chronic kidney disease awareness, prevalence, and trends among U.S. adults, 1999 to 2000. J Am Soc Nephrol 2005; 16: 180–188. 20. Ribeiro AL, Marcolino MS, Bittencourt HN et al. An evaluation of the cardiotoxicity of imatinib mesylate. Leuk Res 2008; 32: 1809–1814. 21. Calhoun DA, Jones D, Textor S et al. Resistant hypertension: diagnosis, evaluation, and treatment: a scientific statement from the American Heart Association Professional Education Committee of the Council for High Blood Pressure Research. Circulation 2008; 117: e510–e526. 22. Soares AA, Eyff TF, Campani RB et al. Glomerular filtration rate measurement and prediction equations. Clin Chem Lab Med 2009; 47: 1023–1032. 23. Mehta RL, Kellum JA, Shah SV et al. Acute kidney injury network: report of an initiative to improve outcomes in acute kidney injury. Crit Care 2007; 11: R31. 24. Levey AS, Stevens LA, Schmid CH et al. A new equation to estimate glomerular filtration rate. Ann Intern Med 2009; 150: 604–612. 25. Bash LD, Coresh J, Kottgen A et al. Defining incident chronic kidney disease in the research setting: the ARIC Study. Am J Epidemiol 2009; 170: 414–424. 26. Sokal JE, Cox EB, Baccarani M et al. Prognostic discrimination in ‘‘good-risk’’ chronic granulocytic leukemia. Blood 1984; 63: 789–799. 27. Cairo MS, Bishop M. Tumour lysis syndrome: new therapeutic strategies and classification. Br J Haematol 2004; 127: 3–11. 28. Lindeman RD, Tobin J, Shock NW. Longitudinal studies on the rate of decline in renal function with age. J Am Geriatr Soc 1985; 33: 278–285. 29. O’Brien S, Berman E, Borghaei H et al. National Comprehensive Cancer Networkâ (NCCN) Practice Guidelines in Oncologyä: Chronic Myelogenous Leukemia Version 2.2010. JNCCN 2009; 7: 984–1023. 30. Martin JE, Sheaff MT. Renal ageing. J Pathol 2007; 211: 198–205. 31. Wetzels JF, Kiemeney LA, Swinkels DW et al. Age- and gender-specific reference values of estimated GFR in Caucasians: the Nijmegen Biomedical Study. Kidney Int 2007; 72: 632–637. 32. Lechner J, Malloth N, Seppi T et al. IFN-alpha induces barrier destabilization and apoptosis in renal proximal tubular epithelium. Am J Physiol Cell Physiol 2008; 294: C153–C160. 33. Vuky J, Isacson C, Fotoohi M et al. Phase II trial of imatinib (Gleevec) in patients with metastatic renal cell carcinoma. Invest New Drugs 2006; 24: 85–88. 34. Ozkurt S, Temiz G, Acikalin MF, Soydan M. Acute renal failure under dasatinib therapy. Ren Fail 2010; 32: 147–149. 35. Shemesh O, Golbetz H, Kriss JP, Myers BD. Limitations of creatinine as a filtration marker in glomerulopathic patients. Kidney Int 1985; 28: 830–838. 36. Launay-Vacher V, Oudard S, Janus N et al. Prevalence of renal insufficiency in cancer patients and implications for anticancer drug management: the renal insufficiency and anticancer medications (IRMA) study. Cancer 2007; 110: 1376–1384. 37. Demetri GD. Structural reengineering of imatinib to decrease cardiac risk in cancer therapy. J Clin Invest 2007; 117: 3650–3653. 38. Vega-Ruiz A, Cortes JE, Sever M et al. Phase II study of imatinib mesylate as therapy for patients with systemic mastocytosis. Leuk Res 2009; 33: 1481–1484. 39. David M, Cross NC, Burgstaller S et al. Durable responses to imatinib in patients with PDGFRB fusion gene-positive and BCR-ABL-negative chronic myeloproliferative disorders. Blood 2007; 109: 61–64. 40. Gotlib J, Cools J, Malone JM et al. The FIP1L1-PDGFRalpha fusion tyrosine kinase in hypereosinophilic syndrome and chronic eosinophilic leukemia: implications for diagnosis, classification, and management. Blood 2004; 103: 2879–2891. doi:10.1093/annonc/mdq715 | 7
Estudo do conteúdo de calor e suas influências sobre variáveis limnológicas em reservatórios de abastecimento de água
RECENT ACTIVITIES

Autor

Documento similar

Tags

Estudo do conteúdo de calor e suas influências sobre variáveis limnológicas em reservatórios de abastecimento de água

Livre