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Leituras de professores de pedagogia de instituições particulares de ensino superior em Belo Horizonte e algumas implicações nas suas práticas docentes

Documento informativo

Elaine Maria da Cunha Morais Leituras de professores de Pedagogia de instituições particulares de ensino superior em Belo Horizonte e algumas implicações nas suas práticas docentes Belo Horizonte Faculdade de Educação da UFMG 2014 Elaine Maria da Cunha Morais Leituras de professores de Pedagogia de instituições particulares de ensino superior em Belo Horizonte e algumas implicações nas suas práticas docentes Tese apresentada ao Programa de PósGraduação Conhecimento e Inclusão Social em Educação, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Educação. Linha de pesquisa: Educação e Linguagem Orientadora: Profa Dra Maria das Graças Rodrigues Paulino Belo Horizonte Faculdade de Educação da UFMG 2014 2 Banca examinadora constituída pelos seguintes professores: _________________________________________________ Profª Drª Maria das Graças Rodrigues Paulino – FaE/UFMG – Orientadora _________________________________________________ Profª Drª Cristina Maria Rosa – UFPEL _________________________________________________ Prof. Dr. Hércules Tolêdo Corrêa – UFOP _________________________________________________ Profª Drª Maria Zélia Versiani Machado – FaE/UFMG _________________________________________________ Profª Drª Maria Lúcia Castanheira – FaE/UFMG ________________________________________________ Profª Drª Marta Passos Pinheiro – CEFET/MG (suplente) _ ________________________________________________ Profª. Drª. Isabel Cristina Alves da Silva Frade - FaE/UFMG (suplente) Belo Horizonte, 30 de julho de 2014 3 Dedico este trabalho aos meus filhos Lucas, Isabela, Felipe e Carolina e ao meu marido Carlos Alberto, que são o alicerce que me sustenta e me faz dar sentido a todos os desafios que tenho enfrentado ao longo da minha vida. 4 AGRADECIMENTOS Ao longo dos anos de envolvimento com a produção deste trabalho, não estive só. Muitas pessoas, a seu modo e a seu jeito, me ajudaram a construir esta história de formação. Por isso, deixo aqui registrado os meus agradecimentos: Agradeço, principalmente, a Deus, que dá sentido a minha vida e a tudo o que eu faço. A Ele toda honra e toda a glória. À minha orientadora, Profª Maria das Graças Rodrigues Paulino, pelo incentivo, confiança e valiosas contribuições. Aos meus filhos Lucas, Isabela, Felipe e Carolina, por me darem inspiração para tudo o que eu faço. Ao Carlos Alberto, meu marido, que me apoiou durante todo o período desta pesquisa. Aos meus pais, que me deram a vida e o exemplo de luta e perseverança. A todos os componentes da banca, que se dispuseram a contribuir com este trabalho. A todos professores da equipe do CEALE que me proporcionaram diferentes experiências durante a minha formação. Aos companheiros do GPELL, com os quais pude aprender e compartilhar conhecimentos sobre a formação de leitores literários. Às amigas Daniela, Bruna, Cristiane, Fernanda, Flávia, Mariana e Paula, companheiras de longa jornada, que me ouviram e apoiaram nas horas que precisei. À Cidinha, que abriu as portas para que eu ingressasse na pós-graduação e que sempre foi para mim um exemplo de pesquisadora. Aos professores das instituições particulares de ensino superior, que abriram as portas de sua intimidade, revelando parte do seu universo pessoal e profissional. Às turmas pesquisadas, pela receptividade e disponibilidade com as quais me acolheram. Ao meu amigo Bernardo, que me ajudou no tratamento dos dados dessa pesquisa. Às amigas da secretaria da pós-graduação, Rose e Daniele, que sempre foram solícitas e acolhedoras quando precisei recorrer a elas. A todos os amigos e familiares, que me deram força nas horas difíceis e torceram pela minha vitória. 5 RESUMO Buscando aproximar-se do universo cultural constituído pelas leituras de professores de Pedagogia da rede privada de ensino de Belo Horizonte, em suas trajetórias de formação como leitores e em sua ação cotidiana como docentes, este estudo tenta analisar características pessoais e sociais dessas leituras, e ainda verificar a forma de sua socialização com os alunos. Assim, a finalidade deste estudo foi obter uma maior proximidade científica com relação à formação e ação dos formadores de novos professores das séries iniciais advindos da rede particular e que constituem um grupo majoritário na Capital, se comparados aos egressos de instituições públicas. Tentou-se, por isso, contextualizar as práticas de leitura num sentido mais amplo do ponto de vista social. Para dar consistência às discussões propostas, foram tomado como base o horizonte de interesse da história cultural, segundo os trabalhos desenvolvidos por Roger Chartier, e a perspectiva sociológica da leitura, de acordo com os estudos de Bernard Lahire e de Pierre Bourdieu. Quanto aos procedimentos metodológicos, realizou-se o exame das práticas de leitura, dos discursos e das representações dos professores, inscritos no viés das pesquisas sociológicas mais recentes sobre leitura, que consideram fundamentais os aspectos quantitativos, assim como os aspectos qualitativos. Tentou-se também uma abordagem antropológica que permite um olhar diferenciado para os sujeitos, sua história e os contextos nos quais estão inseridos, possibilitando a análise da heterogeneidade e das diversidades socioculturais. Para tanto, foram utilizadas substancialmente, como instrumentos de pesquisa, entrevistas semiestruturadas com os docentes. Posteriormente, essa visão foi ampliada pela observação direta da sala de aula, as anotações de campo, a aplicação de um questionário aos alunos das turmas observadas e a análise do plano de ensino de algumas disciplinas. A partir de uma seleção preliminar da grande massa de dados disponíveis, o primeiro capítulo da tese descreve o percurso teóricometodológico adotado para a realização desta pesquisa. O segundo capítulo caracteriza sociologicamente o grupo pesquisado, evidenciando os indicadores sociodemográficos, educacionais, econômicos, sociais, culturais, ocupacionais e de trajetória profissional. Ainda foi analisado o letramento desses professores, tanto o acadêmico quanto o literário, considerando a relação com os gêneros textuais e os hábitos e formas de leitura. No terceiro capítulo, são apresentados os fragmentos de memória de práticas de leitura dos professores, envolvendo a formação de leitores na infância, as interferências da família e da escola nessa formação, o período de vida em que leram mais e as leituras mais marcantes. O quarto capítulo discute o perfil dos alunos do curso de Pedagogia, mostrando a realidade conflituosa da leitura no meio universitário atual. No quinto capítulo, são analisados os eventos e as práticas de letramento que acontecem nas salas de aula, destacando-se as falas dos professores sobre a interferência das suas leituras no seu trabalho docente; as retomadas das leituras indicadas para os alunos nos planos de ensino; as relações que eles e os alunos estabelecem com os textos nos eventos de letramento; a forma como ampliam esse universo de leitura, reportando a outras experiências leitoras vividas por eles. Ao final, são apresentadas algumas considerações, mais indagativas do que afirmativas, apontando questões a serem pesquisadas e aprofundadas. Palavras-chave: Leitura; Letramento; Formação de leitores; Ensino de leitura e Pedagogia. 6 ABSTRACT Seeking to approach the cultural universe of readings from Pedagogy teachers of private schools in Belo Horizonte, in the course of their training as readers and in their everyday actions as teachers, this study attempts to analyze personal and social characteristics of these readings, and also check the way of their socializing with students. Thus, the purpose of this study was to obtain greater scientific proximity related to the formation and action of trainers of new basic education teachers coming from private schools that are a majority in the capital, compared to graduates from public institutions. Therefore, was attempted to contextualize the reading practices in a broader sense the social point of view. To give substance to the proposed discussions, was taken as a basis the horizon of interest of cultural history, according to the work done by Roger Chartier, and the sociological perspective of reading, according to studies of Lahire Bernard and Pierre Bourdieu. Regarding methodological procedures, we conducted the examination of reading practices, discourses and representations of teachers enrolled in the most recent sociological research on reading, who consider quantitative aspects fundamental, as well as qualitative aspects bias. It was also tried an anthropological approach that allows a different look for the subject, its history and the contexts in which they are inserted, allowing the analysis of heterogeneity and socio-cultural diversities. For this purpose, we used substantially, as research tools, semi-structured interviews with teachers. Later, this view was extended by direct observation of classroom, field notes, the application of a questionnaire to students in observed classes and the analysis of the teaching of some subjects plan. From a preliminary selection from lots of data available, the first chapter of the thesis describes the theoretical and methodological approach adopted for this research. The second chapter features the group studied sociologically, showing the demographic, educational, economic, social, cultural, occupational and professional life indicators. Yet, were analyzed the of literacy these teachers, both academic and literary, considering the relationship with the textual genres and habits and ways of reading. Are presented, in the third chapter, fragments of reading practices memorys of teachers, involving the formation of readers in childhood, interference of the family and school in this training, the period of life in which more and read the most striking readings are presented in the third chapter. The fourth chapter discusses the profile of the students of Pedagogy, showing the conflicting reality of reading in the current university environment. In the fifth chapter, we analyze the events and literacy practices that take place in classrooms, highlighting the teachers' statements about the interference of their readings in their teaching; the resumption of readings for students in the syllabus; the relationships they establish with the students and the texts in literacy events; how to expand the universe of reading, reporting to other readers experiences they lived. Finally, we present some considerations, more interrogative than affirmative, pointing questions to be researched and detailed. Keywords: Reading; literacy; Formation of readers; Teaching Reading and Pedagogy. 7 RESUMEN Búsqueda un acercamiento al universo cultural de las lecturas de los maestros de Pedagogía de las escuelas privadas en Belo Horizonte, en el curso de su formación como lectores y en sus acciones cotidianas como profesores, este estudio trata de analizar las características personales y sociales de estas lecturas, y compruebe también la forma de su socialización con los estudiantes. Por lo tanto, el propósito de este estudio fue obtener una mayor proximidad científica con respecto a la formación y la acción de formación de nuevos professores de la educación básica procedentes de las escuelas privadas, que son la mayoría en la capital, en comparación con los graduados de las instituciones públicas. Se ha intentado, por lo tanto, contextualizar las prácticas de lectura en un sentido más amplio del punto de vista social. Para dar contenido a las propuestas de discusiones se tomaron como base el horizonte de interés de la historia cultural, de acuerdo con el trabajo realizado por Roger Chartier, y la perspectiva sociológica de la lectura, de acuerdo con estudios Lahire Bernard y Pierre Bourdieu. En cuanto a los procedimientos metodológicos, llevamos a cabo el examen de las prácticas de lectura, los discursos y las representaciones de los profesores que participaron en el estudio sociológico más reciente en la lectura, que consideran aspectos cuantitativos fundamentales, así como los prejuicios de los aspectos cualitativos. También probamos un enfoque antropológico que permite una mirada diferente para el sujeto, su historia y los contextos en los que se insertan, lo que permite el análisis de la heterogeneidad y de las diversidades socioculturales. Para este fin, hemos utilizado esencialmente como herramientas de investigación, entrevistas semi-estructuradas con los maestros. Más tarde, esta visión se extendió por la observación directa de la clase, las notas de campo, la aplicación de un cuestionario a los estudiantes en las clases observadas y el análisis de la enseñanza de algún plan temas. A partir de una selección preliminar de la gran masa de datos disponibles, el primer capítulo de la tesis se describe el enfoque teórico y metodológico adoptado para esta investigación. El segundo capítulo caracteriza sociológicamente el grupo estudiado, mostrando los indicadores de vida, demográficos, educativos, económicos, sociales, culturales, laborales y profesionales. También se analizó la literacidad de estos maestros, académicas y literarias, teniendo en cuenta la relación con los géneros textuales y los hábitos y formas de lectura. Se presentan en el tercer capítulo, fragmentos de la memoria de las prácticas de lectura de los maestros, que incluyan la formación de lectores en la infancia, la interferencia de la familia y la escuela en esta formación, el período de vida en que más y leer las lecturas más sorprendentes. El cuarto capítulo analiza el perfil de los estudiantes de Pedagogía, mostrando la realidad conflictiva de la lectura en el entorno universitario actual. En el quinto capítulo, se analizan los acontecimientos y las prácticas de literacidad que tienen lugar en las aulas, destacando las declaraciones de los profesores sobre la interferencia de sus lecturas en su enseñanza; la hoja de vida de las lecturas de los estudiantes en el programa de estudios; las relaciones que establecen con los alumnos y los textos en los eventos de literacidad; la forma de ampliar el universo de la lectura, la presentación de informes a otros lectores experiencias para ellos. Finalmente, se presentan algunas consideraciones más indagativas que afirmativas, señalando cuestiones a ser investigadas y detalladas. Palabras clave: Lectura; Literacidad; La formación de lectores; La enseñanza de la lectura y Pedagogía. 8 LISTA DE GRÁFICOS GRÁFICO 1 - Evolução do número de matrículas (presencial e a distância) por categoria administrativa – Brasil - 2001-2012 . 18 GRÁFICO 2 - Evolução da matrícula na Educação Superior de graduação por grau acadêmico do curso – Brasil - 2012 . 19 GRÁFICO 3 - Distribuição da matrícula de graduação presencial por turno e categoria administrativa da instituição - Brasil - 2012 . 19 GRÁFICO 4 - Distribuição dos docentes por regime de trabalho, segundo a categoria administrativa da instituição - Brasil - 2012 . 21 GRÁFICO 5 - Evolução da participação percentual da titulação docente por categoria administrativa (pública e privada) – Brasil – 2001/2010 . 22 GRÁFICO 6 - Índice Geral de Cursos (IGC) 2011 das instituições públicas e privadas do Ensino Superior . 23 GRÁFICO 7 - Conceito Preliminar de Curso (CPC) 2011 das instituições públicas e privadas do Ensino Superior . 24 GRÁFICO 8 - Conceito Geral do ENADE 2011 . 24 GRÁFICO 9 - Indicadores sociodemográficos – Sexo . 52 GRÁFICO 10 - Indicadores sociodemográficos – Idade . 52 GRÁFICO 11 - Indicadores sociodemográficos – Estado civil . 53 GRÁFICO 12 - Indicadores sociodemográficos – Local de origem . 53 GRÁFICO 13 - Indicadores educacionais - Escolaridade do pai . 54 GRÁFICO 14 - Indicadores educacionais - Escolaridade da mãe . 55 GRÁFICO 15 - Indicadores educacionais - Tipo de instituição onde cursaram a graduação 57 GRÁFICO 16 - Indicadores educacionais – Tempo de formado . 57 GRÁFICO 17 - Indicadores educacionais – Pós-Graduação . 58 GRÁFICO 18 - Indicadores econômicos, sociais e culturais – Classe social em que nasceu 59 GRÁFICO 19 - Indicadores econômicos, sociais e culturais – Classe social em que se encontra . 60 9 GRÁFICO 20 - Indicadores econômicos, sociais e culturais – Atividades predominantes nas horas livres . 60 GRÁFICO 21 - Indicadores econômicos, sociais e culturais – Atividades culturais . 61 GRÁFICO 22 - Indicadores econômicos, sociais e culturais – Frequência com que desenvolve atividades culturais Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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