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Avaliação de softwares para o ensino de línguas: foco na compreensão oral

Documento informativo

Rômulo Francisco de Souza AVALIAÇÃO DE SOFTWARES PARA O ENSINO DE LÍNGUAS: FOCO NA COMPREENSÃO ORAL Rômulo Francisco de Souza AVALIAÇÃO DE SOFTWARES PARA O ENSINO DE LÍNGUAS: FOCO NA COMPREENSÃO ORAL Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Lingüísticos como requisito Parcial para a obtenção do título de mestre em Lingüística. Área de Concentração: Lingüística Aplicada. Orientadora: Profa. Dra. Vera Menezes de Oliveira e Paiva Co-Orientador: Prof. Dr. Clarindo Pereira da Silva e Pádua Lúcia Isaías Belo Horizonte Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Letras 2007 RESUMO Esta dissertação tem como objetivo apresentar os resultados de uma avaliação somativa de softwares destinados ao ensino de italiano, a saber: Q-express, Talk to me: italiano, Dentro L´italiano e Italicon. O foco da avaliação está nos aspectos relativos ao ensino da compreensão oral. Tenta-se responder se esses softwares apresentam condições para auxiliar o aluno no aprendizado de italiano, de modo que consiga se inserir em interações face a face, como prometido em seus títulos ou descritivos. Parte-se do princípio de que a compreensão oral é condição sine qua non para o sucesso nesse tipo de interação. Para a avaliação dos softwares, propõe-se uma lista de checagem que poderá ser utilizada tanto em avaliações somativas, quanto formativas. Espera-se, com isso, instrumentalizar lingüistas, ou professores de línguas, que se propõem ao trabalho de consultoria pedagógica em processos de desenvolvimento de softwares destinados ao ensino de línguas. ABSTRACT The aim of this dissertation is to present the outcomes of a summative valuation on software dedicated to the Italian teaching, namely: Q-express, Talk to me: italiano, Dentro L´italiano e Italicon. The focus of the evaluation is on the aspects related to the teaching of oral comprehension. There is an attempt in order to answer if these courses are helping the student in the Italian learning process, in a way that he/she may be able to engage in face to face interaction, as promised in their titles or descriptives. We consider the principle that the oral comprehension is a sine qua non condition for the success in this kind of interaction. For the software evaluation, we propose a check list that could be used as much in summative valuations as in the formative ones. We hope that this research can help linguists or language teachers that are involved in the job of pedagogical consultancy related to the process of software development for the teaching of languages. “Não sois máquina, homem é que sois.” Charles Chaplin AGRADECIMENTOS Às professoras Carla Coscarelli e Delaine Cafiero, cuja simplicidade, sabedoria, confiança, postura de inclusão e coragem de ensinar, “sem marras”, tornaram possível este trabalho. À professora Vera Menezes, cuja competência, disponibilidade e humanidade seguirão sempre comigo em meu ser e fazer professor; pela motivação e pela coragem da orientação. Ao professor Clarindo Isaías, cuja competência, tranqüilidade, acessibilidade, receptividade e paciência são para mim modelo de vida pessoal e acadêmica, por ter me guiado nos caminhos da informática. À Lourdes da Silva, sem a qual este texto não teria saído com cara de dissertação, pelo carinho, disponibilidade e simplicidade de sempre. Aos meus pais, Maria Silva e Paulo Eustáquio de Souza, pela sustentação. Ao Tempo Rei, que relativiza as verdades e faz aflorar a alma das coisas. SUMÁRIO INTRODUÇÃO CAPÍTULO 1 Compreensão Oral 1.1 A natureza da CO 1.2 Dificuldades na CO em língua estrangeira 1.3 Habilidades 1.4 Ensino de compreensão oral 1.5 Atividades de pré-escuta, escuta e pós-escuta 1.6 Feedbacks: genérico, situado e estratégico. CAPÍTULO 2 Metodologia de pesquisa 2.1 Metodologia 2.2 Lista de checagem 2.3 Critérios de escolha dos softwares CAPÍTULO 3 Descrição e avaliação dos softwares 3.1 Descrição dos softwares 3.2 Resultados da avaliação CONCLUSÕES REFERÊNCIAS APÊNDICE A: LISTA DE CHECAGEM PREENCHIDA – PARTE A APÊNDICE B: LISTA DE CHECAGEM PREENCHIDA – PARTE B APÊNDICE C: ATIVIDADE I DIRITTI DI TUTTI: TRANSCRIÇÃO DO TEXTO BASE APÊNDICE D: ATIVIDADE LE PROFESSIONI: TRANSCRIÇÃO DO TEXTO BASE 8 15 15 22 29 31 35 38 41 41 41 45 45 75 91 103 105 109 111 112 8 INTRODUÇÃO Durante minha prática como professor de língua italiana, bem como de estudante de italiano, observei que muitos softwares destinados ao ensino de italiano para autodidatas poderiam oferecer recursos mais adequados no sentido de auxiliar o aprendiz no desenvolvimento das habilidades necessárias para a inserção em interações face a face em linguagem oral. Muitos desses softwares não correspondiam minimamente a uma proposta de base comunicativa, ou seja, que visasse ao desenvolvimento de competências comunicativas, mesmo que, às vezes, anunciassem como objetivo o aprendizado de uma língua estrangeira para a comunicação. Nossa pesquisa partiu da constatação dessa demanda por materiais didáticos informatizados mais adequados ao ensino de línguas para a comunicação. De fato, em termos gerais, ela se caracteriza como uma tentativa de checar a veracidade e a qualidade dessa demanda. Em termos específicos, o objetivo foi avaliar softwares de auto-aprendizado de língua italiana como língua estrangeira, tendo por foco de avaliação as técnicas1 disponibilizadas para o ensino da compreensão oral (CO). Essas técnicas, informatizadas nos softwares que formaram o corpus da pesquisa, foram avaliadas a partir de uma lista de checagem cujos itens apontam características que julgamos serem necessárias a um software que tem como objetivo ensinar a compreensão de textos orais em situações de interação face a face. Para a concepção da pesquisa, partimos do pressuposto de que softwares que se propõem a ensinar uma língua estrangeira para autodidatas deveriam fornecer subsídios suficientes para que o aprendiz desenvolvesse as habilidades necessárias para conseguir se inserir em uma interação oral face a face, ou seja, em uma conversa nessa língua. Focalizamos nossas atenções na compreensão oral, já que tal habilidade é condição sine qua non para que um indivíduo participe com sucesso em uma conversa em linguagem oral (ROST, 1994). A pesquisa que empreendemos teve, portanto, como meta geral, avaliar as técnicas de ensino de compreensão oral – automatizadas em softwares para 1 Brown (2001) define o termo técnica como qualquer exercício, atividade ou tarefa usada em sala de aula de línguas com o intuito de realizar objetivos pedagógicos. 9 o auto-aprendizado de italiano como língua estrangeira – no que tange à oportunidade de desenvolvimento das habilidades necessárias para a compreensão de textos orais em interações face a face. Visando a operacionalidade da pesquisa, essa meta geral foi segmentada nas seguintes etapas: Identificação das técnicas relativas a CO disponibilizadas nos softwares do nosso corpus. Análise e avaliação das técnicas relativas ao ensino de CO disponibilizadas nos softwares de nosso corpus de acordo com a lista de checagem proposta no capítulo 5 desta dissertação. Sugestão (quando necessário) de adaptações às técnicas de CO disponibilizadas nos softwares – que visem contemplar o desenvolvimento dessa habilidade de maneira mais eficaz, tendo como referência os itens da lista de checagem. Além dessas etapas de trabalho, tentamos responder se os softwares que compõem o nosso corpus apresentavam oportunidades para que o aprendiz desenvolvesse habilidades relativas à CO, necessárias para que possa se inserir em uma interação face a face/conversa na língua alvo. Em termos específicos, as perguntas que nos orientaram foram: 1) Quais técnicas de ensino relativas à CO estão disponibilizadas no software? 2) As atividades de CO são especificas ou estão integradas em outras atividades? 3) Os itens da lista de checagem estão contemplados? Se sim, quais? Em que medida? 4) Considerando os itens da lista de checagem, podem ser sugeridas modificações? Quais? Em termo práticos, nossos produtos de pesquisa - a saber: nossa lista de checagem e os resultados de nossa análise de produtos concorrentes podem ser aplicados em processos de desenvolvimento de softwares 10 educacionais dedicados ao ensino de línguas estrangeiras2 (S.E.D.E.L.E). Essa demanda de ordem prática, ligada ao desenvolvimento de softwares, apresenta-se também como justificativa para nossos esforços de pesquisa. Para uma melhor compreensão dessa aplicação prática, gostaríamos de discorrer, em linhas gerais, nos parágrafos seguintes, sobre alguns conceitos e procedimentos básico da engenharia de software, a saber: processo; requisito; e subprocesso de determinação de requisitos3. Softwares são desenvolvidos através de processos. Em linhas gerais, segundo Paula Filho (2003), um processo pode ser definido como “um conjunto de passos parcialmente ordenados, constituídos por atividades, métodos, práticas e transformações, usado para atingir uma meta” (PAULA FILHO, 2003, p. 11). Ainda segundo o autor, essa meta geralmente está associada a um ou mais resultados concretos, que seriam o produto do processo. A partir de uma visão mais ampla, ou seja, do ciclo de vida de um software, Paula Filho (2003, p. 11) lembra que “processos podem ser definidos para atividades como desenvolvimento, manutenção, aquisição e contratação de software”. Gostaríamos de ressaltar que, dentre essas possibilidades, nossa pesquisa se apresenta como uma tentativa de apoio ao primeiro item citado por esse autor, ou seja, os processos de desenvolvimento. Um fator determinante em processos é a utilização de insumos (documentos, especificações, listas de diretrizes etc), e, segundo Paula Filho (2003, p. 11) “um processo é definido quando tem documentação que detalha: o que é feito (produto), quando (passos), por quem (agentes), as coisas que usa (insumos) e as coisas que produz”. A partir dessa constatação, podemos definir, em termos práticos, o papel de nossa pesquisa em processos de desenvolvimento de S.E.D.E.L.E. De fato, nossa lista de checagem constitui-se como conjunto de diretrizes que poderão ser utilizadas em determinados momentos do processo de desenvolvimento de S.E.D.E.L.E, ou seja, podemos considerá-la como insumo para tais processos. Como será visto mais adiante, as diretrizes podem ser potencialmente utilizadas, por exemplo, na fase de 2 “O software educacional é todo aquele que pode ser usado para algum objetivo educacional, por docentes ou alunos, qualquer que seja a natureza ou finalidade para a qual tenha sido criado” (GARCIA, 2001, p. 18 apud ATHAYDE, 2003, p. 15). 3 Processos podem ser divididos em subprocessos de determinação de requisitos, análise, desenho, implementação e testes (PAULA FILHO, 2003). Interessa-nos, nesse momento, apenas o subprocesso de determinação de requisitos. 11 levantamento de requisitos do software. Os resultados da análise apresentados nesta dissertação configuram também um importante documento referencial para a fase de levantamento de requisitos, que podem ser concebidos, por sua vez, como o resultado de uma análise de produtos concorrentes. Ressaltamos que esse tipo de análise é também bastante comum no processo de desenvolvimento de softwares. Pádua (2005), por exemplo, disserta sobre a importância da análise de produtos concorrentes para a engenharia de usabilidade do software e explica que tal análise tem como objetivo observar os pontos positivos e negativos de softwares congêneres, no que diz respeito à usabilidade, com o intuito de implementar melhorias no novo produto, exatamente em termos de usabilidade. Analogamente, os resultados de nossa análise, poderão servir como fonte de consulta para desenvolvedores e consultores que buscam melhorias no aspecto pedagógico do software que estiverem desenvolvendo. Segundo Paula Filho (2003), requisitos são características, funções, restrições, ou outras propriedades que precisam ser fornecidas, atendidas ou encontradas no software para que as necessidades do usuário sejam satisfeitas (FIORINI et al.4 1999 apud MALHEIROS JÚNIOR, [s.d.]). Os requisitos, portanto, são características que definem os critérios de aceitação do produto (PAULA FILHO, 2003). No que diz respeito a softwares, os requisitos podem ser divididos em requisitos funcionais e não-funcionais (PAULA FILHO 2003). Os requisitos, ou características funcionais seriam as funções ou comportamentos que um software deve ser capaz de executar (PAULA FILHO, 2003; MALHEIROS JÚNIOR, [s.d.]). Os requisitos não-funcionais, segundo Paula Filho (2003), são aqueles que quantificam determinados aspectos desse comportamento. Os requisitos não-funcionais estão relacionados com as características de qualidade, como confiabilidade, usabilidade, eficiência, manutenibilidade e portabilidade (ISO 9126). A partir dessa concepção de requisito, consideramos nossa lista de checagem como uma possível fonte de requisitos para o desenvolvimento de S.E.D.E.L.E, mais especificadamente, consideramos a 4 FIORINI, Soeli T et al. Engenharia de Software com CMM. 1.ed. Rio de Janeiro: Brasport, 1998 . 12 mesma uma fonte de requisitos especializada no apoio ao desenvolvimento do aspecto relativo à compreensão oral (CO) do software. O levantamento de requisitos é uma etapa fundamental do processo de desenvolvimento de um software. É nessa etapa que o desenvolvedor busca compreender quais as necessidades que o software deverá contemplar. Nesse momento é imprescindível entender bem o negócio cujas atividades o programa vai automatizar. Acreditamos que quanto mais informações a equipe de desenvolvimento tiver a respeito do negócio, mais oportunidades essa equipe terá de fazer um levantamento de requisitos eficiente, ou seja, que corresponda às necessidades do cliente.5 Na etapa de levantamento de requisitos, os desenvolvedores podem contar com o auxílio de consultores especialistas no domínio do negócio que o software irá informatizar. Ao desenvolver um programa para atender a um escritório de contabilidade, por exemplo, o desenvolvedor poderá ter a colaboração de um contador para auxiliá-lo no levantamento das necessidades e características do negócio de contabilidade. Da mesma forma, um lingüista poderá auxiliar no levantamento de requisitos para um programa especializado no ensino de línguas. Como acenado anteriormente, é também comum a utilização de documentos como fonte de levantamento de requisitos. Documentos que prescrevem um formato padrão para impressão de relatórios ou notas fiscais de uma empresa, por exemplo, deverão ser considerados no momento de se levantar requisitos de um software para esta empresa. Nesse caso, as regras descritas nesses documentos serão os próprios requisitos para o sistema em desenvolvimento. A partir dessa visão geral sobre a tarefa de levantamento de requisitos, podemos discutir de que maneira diretrizes de cunho pedagógico (como a lista de checagem que apresentamos) poderão ser utilizadas na tentativa de identificar requisitos ligados ao aspecto pedagógico do software e, conseqüentemente, na tentativa de conferir qualidade pedagógica a esse produto. Essa utilização pode ser vista pelo prisma de vários atores envolvidos 5 Vale ressaltar que o nosso negócio é o ensino de línguas estrangeiras e que consideramos clientes, aqui, aqueles cuja necessidade é a de desenvolver softwares para o ensino de línguas estrangeiras visando a comunicação 13 no processo. Interessa-nos, nesse momento, considerar apenas dois deles: o consultor (lingüista aplicado) e o desenvolvedor (leigo na área de ensino de línguas). O lingüista aplicado, ao auxiliar no levantamento de requisitos, poderá lançar mão de diretrizes pedagógicas como uma forma de guiar o seu trabalho, ou até mesmo seus estudos para a consultoria que irá fornecer. O desenvolvedor, por sua vez, terá a sua disposição um documento introdutório a respeito do negócio de ensino de línguas. Esse documento lhe poderá ser útil pelo menos em dois aspectos: familiaridade com o negócio e previsão de requisitos funcionais. Ora, por um lado o desenvolvedor poderá se familiarizar com o assunto, tendo uma prévia dos requisitos pedagógicos com os quais irá trabalhar. Por outro lado, a partir da lista, ele poderá detectar também a necessidade de requisitos funcionais. Ele poderá, por exemplo, observar a importância da utilização de multimedia, ou seja, o seu papel central nesse tipo de atividade, e, a partir daí, estabelecer valores ou requisitos funcionais ligados a sua execução. Em suma, consideramos nossos produtos de pesquisa como insumo para o levantamento de requisitos pedagógicos durante o desenvolvimento de S.E.D.E.L.E para a comunicação. A presente dissertação está dividida em três capítulos. No primeiro capítulo, discorremos sobre a natureza da CO, dificuldades na CO em língua estrangeira, e também alguns aspectos relativos ao ensino de CO. Concluímos que a CO é um processo ativo, complexo, de natureza interativa e construtiva. Vimos que as dificuldades enfrentadas na tentativa de CO em língua estrangeira podem ser de natureza variável e que estas não afetam todos os aprendizes com a mesma intensidade, sendo papel do material didático – assim como de todo o esforço pedagógico – auxiliar o aprendiz a tomar consciência de suas próprias dificuldades e aprender a superá-las. Discutimos o conceito de habilidade e apresentamos uma lista de micro-habilidades que, segundo Brown (2001), são necessárias para o sucesso na CO Com base em Coscarelli (2002), apud Souza (2005), vimos que habilidades são as demandas físicas e cognitivas que uma atividade exige do indivíduo. Esse conceito está relacionado ao saber “fazer algo”. Baseados em Underwood (1994), discorremos sobre a organização da atividade de CO em pré-escuta, escuta e 14 pós-escuta. Além disso, de acordo com o pensamento de Brown (2001) e Capra (2005), discutimos algumas Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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