Feedback

Gênero e velhice: a violência familiar contra a mulher idosa em Vitória (ES), 2010-2012

Documento informativo

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL DAS RELAÇÕES POLÍTICAS LUCIANA SILVEIRA GÊNERO, VELHICE E GERAÇÃO: A VIOLÊNCIA FAMILIAR CONTRA A MULHER IDOSA EM VITÓRIA (ES), 2010-2012. VITÓRIA 2015 LUCIANA SILVEIRA GÊNERO, VELHICE E GERAÇÃO: A VIOLÊNCIA FAMILIAR CONTRA A MULHER IDOSA EM VITÓRIA (ES), 2010-2012. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História, do Centro de Ciências Humanas e Naturais da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em História, na área de concentração História Social das Relações Políticas. Orientadora: Professora Doutora Maria Beatriz Nader. VITÓRIA 2015 LUCIANA SILVEIRA GÊNERO, VELHICE E GERAÇÃO: A VIOLÊNCIA FAMILIAR CONTRA A MULHER IDOSA EM VITÓRIA (ES), 2010-2012. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História, do Centro de Ciências Humanas e Naturais da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em História, na área de concentração História Social das Relações Políticas. Aprovada em 17 de abril de 2015. COMISSÃO EXAMINADORA Profª. Drª. Maria Beatriz Nader Universidade Federal do Espírito Santo Orientadora Prof. Dr. Sebastião Pimentel Franco Universidade Federal do Espírito Santo Prof.ª Drª. Ana Maria Marques Universidade Federal do Mato Grosso Prof.ª Drª. Sônia Maria da Costa Barreto Faculdade Vale do Cricaré À memória de Anatil de Almeida, a vó Bebé, meu exemplo de força e solidariedade. AGRADECIMENTOS À Maria Beatriz Nader, que de professora passou à orientadora, mãe e amiga. Já são quase sete anos de “casamento” e eu não poderia ter escolhido parceira melhor. Obrigada pela oportunidade de aprender e crescer com você, seu conhecimento foi valioso para a construção deste trabalho. Agradeço ao Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas (PPGHIS), aos seus professores e aos profissionais da secretaria, que entregam-se com afinco às atividades em sala de aula e nos auxiliam com as burocracias da vida acadêmica. À Agência de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES) pelo apoio financeiro durante os vinte e quatro meses de Mestrado, sem o qual não seria possível investir a dedicação necessária ao desenvolvimento da pesquisa. Ao professor Geraldo Antonio Soares e à professora Sônia Maria da Costa Barreto que participaram da minha banca de qualificação, a última presente também na minha banca de defesa de Mestrado. Ao professor Sebastião Pimentel Franco e à professora Ana Maria Marques por terem aceito gentilmente o convite para a banca de defesa. À Marlene, minha mãe e maior defensora, por estar ao meu lado e me dar forças em todos os momentos. Com o seu apoio, o caminho torna-se menos tortuoso. Ao Gilberto por sempre torcer e vibrar por mim. Ao meu irmão, Octávio, pelas conversas e caronas providenciais. Ao Marcelo, pelo companheirismo, incentivo, por compreender as minhas ausências e tornar nossos momentos juntos os melhores possíveis. Aos colegas de turma na graduação, Carol, Fabio, Francesco, Tiago, que transformaram-se em amigos que levarei para sempre comigo, independente da distância e do tempo. À Tatiana e Helmar pelas tardes e noites de descanso regadas à risadas, desabafos e petiscos, essenciais para recobrar o fôlego com a pesquisa. Aos amigos do Mestrado e do Laboratório de Estudos de Gênero, Poder e Violência da UFES, Alex, Jacqueline, Mirela, João, Danielle e Renata Alves, por compartilharem comigo a paixão pela História das Relações de Gênero e por acreditarem na necessidade de um mundo mais igualitário. “É o homem inteiro que é preciso refazer, são todas as relações entre os homens que é preciso recriar, se quisermos que a condição do velho seja aceitável”. Simone de Beauvoir RESUMO Este trabalho pretende analisar a violência familiar contra a mulher idosa, especialmente a praticada pelos filhos(as) e netos(as), na cidade de Vitória (ES), enquanto expressão das construções sociais acerca do gênero e da velhice e das relações entre as gerações. Para tanto, foram utilizados como fontes os boletins de ocorrência registrados pela Delegacia de Atendimento e Proteção à Pessoa Idosa (DAPPI), localizada em Vitória (ES), em seus dois primeiros anos de existência, de dezembro de 2010 a dezembro de 2012. A partir da transcrição dos dados presentes nos boletins de ocorrência da DAPPI buscou-se recuperar o perfil sócio-demográfico das vítimas e dos autores(as), bem como as motivações apresentadas no relato do fato. Apesar da presença de fatores estruturais, tal como o vício em álcool e drogas, nos casos analisados, acredita-se que a violência contra as mulheres idosas deve ser compreendida, sobretudo, a partir das categorias de gênero e de geração. Sendo assim, as mulheres idosas são vítimas, em primeiro lugar, das desigualdades construídas e perpetradas pelo patriarcado, que tendem a colocar o homem numa posição de poder em relação à mulher. E é importante destacar uma relação de poder não só do cônjuge em relação à esposa ou do pai em relação às filhas, mas também do filho e neto em relação à mãe ou avó. Tendo em vista a manutenção dos papéis sociais de dominação-submissão o patriarcado legitima a violência contra mulheres. Além disso, as mulheres idosas são vítimas das desigualdades geracionais, que produzem uma hierarquia semelhante a presente nas relações de gênero no que diz respeito à idade. Por fim, assiste-se à construção de uma imagem negativa da velhice, que a associa à improdutividade, decadência, dependência e fragilidade. Tal imagem potencializa a vulnerabilidade à violência experimentada pela mulher durante toda a sua vida. Palavras-chave: Gênero; Velhice; Geração; Violência; Vitória. ABSTRACT This work intends to analyze domestic violence against the elderly woman, especially practiced by children and grandchildren, in the city of Vitória (ES), as an expression of social constructions about the genre and of old age and intergenerational relations. To do so, were used as sources of police reports recorded by the Station of Care and Protection to the Elderly Person (DAPPI), located in Vitória (ES), in their first two years of existence, December 2010 to December 2012. From the transcript of the data present in the police report DAPPI sought to retrieve the socio-demographic profile of the victims and authors as well as the motivations presented in the report of the fact. Despite the presence of structural factors, such as alcohol and drug addiction, in the cases analysed, it is believed that violence against older women must be understood, especially, from the categories of gender and generations. Thus, older women are victims, firstly, built and inequalities perpetrated by patriarchy, which tend to put the man in a position of power in relation to the woman. And it is important to highlight a relationship of power not just of the spouse in relation to the wife or father in relation to daughters, but also the children and grandchildren regarding the mother or grandmother. With a view to the maintenance of the social roles of dominationsubmission patriarchy legitimizes violence against women. In addition, older women are victims of generational inequalities, producing a hierarchy similar to present gender relations with regard to age. Finally, there is the building of a negative image of old age, which associates the poorness, decadence, dependence and fragility. This image enhances vulnerability to violence experienced by women throughout her life. Keywords: Gender; Old Age; Generation; Violence; Vitória. LISTA DE SIGLAS DAPPI – Delegacia de Atendimento e Proteção à Pessoa Idosa DEAM – Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher PNI – Política Nacional do Idoso EI – Estatuto do Idoso IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística HIV – Human Immunodeficiency Virus PMV- Prefeitura Municipal de Vitória CEDDPI – Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa COMID – Conselho Municipal do Idoso CCTI – Centros de Convivência para a Terceira Idade NISPI – Núcleo de Integração Social para Pessoas Idosas CRAI – Centro de Referência de Atendimento ao Idoso CREAS – Centros de Referência Especializados de Assistência Social NUCAVI – Núcleo Contra a Violência ao Idoso NUPATI – Núcleo de Proteção e Atendimento à Terceira Idade JECrims – Juizados Especiais Cíveis e Criminais LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Evolução da população residente em Vitória – 1960-2000.86 Tabela 2 – População residente em Vitória por faixa etária. 2000 a 2010.87 Tabela 3 – Número de boletins por município. Dezembro de 2010 a dezembro de 2012.99 Tabela 4 – Sexo das vítimas que recorrem à DAPPI. Vitória, dezembro de 2010 a dezembro de 2012.100 Tabela 5 – População idosa no município de Vitória por faixa etária e sexo. 2010.101 Tabela 6 – Idade das mulheres que recorrem à DAPPI. Vitória, dezembro de 2010 a dezembro de 2012.104 Tabela 7 – Estado civil das mulheres que recorrem à DAPPI. Vitória, dezembro de 2010 a dezembro de 2012.105 Tabela 8 – Profissão das mulheres que recorrem à DAPPI. Vitória, dezembro de 2010 a dezembro de 2012.106 Tabela 9 – Local de residência das mulheres que recorrem à DAPPI por região administrativa. Vitória, dezembro de 2010 a dezembro de 2012.108 Tabela 10 – Tipos de violência dos quais as mulheres idosas são vítimas. Vitória, dezembro de 2010 a dezembro de 2012.111 Tabela 11 – Vínculo entre a vítima e o autor. Vitória, dezembro de 2010 a dezembro de 2012.116 Tabela 12 – Relação dos agressores/as com as vítimas em Salvador, 20062008.117 Tabela 13 – Idade dos(as) filhos(as) e netos(as) autores(as). Vitória, dezembro de 2010 a dezembro de 2012.118 Tabela 14 – Local de residência dos(as) filhos(as) e netos(as) autores(as) por região administrativa. Vitória, dezembro de 2010 a dezembro de 2012.120 Tabela 15 – Sexo dos(as) filhos(as) e netos(as) autores(as). Vitória, dezembro de 2010 a dezembro de 2012.126 LISTA DE FOTOGRAFIAS Fotografia 1 – Fachada do prédio da Chefatura de Polícia Civil do Estado do Espírito Santo.93 Fotografia 2 – Detalhe da porta de entrada da Delegacia de Atendimento e Proteção à Pessoa Idosa (DAPPI) de Vitória (ES).94 SUMÁRIO INTRODUÇÃO.15 I GÊNERO, PATRIARCADO E PAPEL SOCIAL: CATEGORIAS PARA A ANÁLISE DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER.23 1.1 A CATEGORIA GÊNERO À LUZ DOS ESTUDOS FEMINISTAS.23 1.2 PATRIARCADO: O REGIME DE DOMINAÇÃO DAS MULHERES PELOS HOMENS.38 1.2.1 Os papéis sociais de gênero sob a égide do patriarcado.51 1.2.2 A violência de gênero institucionalizada e legitimada pelo patriarcado.56 II GÊNERO E VELHICE: ELEMENTOS QUE FUNDAMENTAM PRÁTICAS VIOLENTAS ENTRE GERAÇÕES.60 2.1 QUEBRANDO A CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO: O ENVELHECIMENTO EM DEBATE.60 2.2 A VELHICE FEMININA SOB A PERSPECTIVA DE GÊNERO E A VIOLÊNCIA GERACIONAL CONTRA MULHERES IDOSAS.76 III GÊNERO, VELHICE E VIOLÊNCIA: O CASO DE VITÓRIA (ES) .85 3.1 DESCRIÇÃO DO CAMPO DE PESQUISA: ESTRUTURA FÍSICA, RECURSOS HUMANOS E MATERIAIS.92 3.2 DESCRIÇÃO E TRANSCRIÇÃO DAS FONTES DE PESQUISA.95 3.3 PERFIL SÓCIO-DEMOGRÁFICO DAS MULHERES QUE PROCURAM PELA DELEGACIA DE ATENDIMENTO E PROTEÇÃO À PESSOA IDOSA (DAPPI) DE VITÓRIA (ES).97 3.4 TIPOS DE VIOLÊNCIA DOS QUAIS AS MULHERES IDOSAS SÃO VÍTIMAS EM VITÓRIA (ES).109 3.5 REVENDO HISTÓRIAS DE VIOLÊNCIA, LENDO RELATOS.113 3.5.1 Gerações em conflito.115 3.5.2 A coabitação e a re-coabitação de gerações.119 3.5.3 A dependência econômica.122 3.5.4 Os papéis sociais femininos em questão.124 3.5.5 O consumo de álcool e drogas.127 3.6 O COTIDIANO NA DELEGACIA, OBSERVAÇOES DA PESQUISADORA.128 CONSIDERAÇÕES FINAIS.133 REFERÊNCIAS.139 ANEXOS.147 INTRODUÇÃO 15 A proposta da dissertação é analisar a violência familiar contra a mulher idosa, especialmente a praticada pelos filhos (as) e netos (as), na cidade de Vitória (ES). Para tanto, foram utilizados os boletins de ocorrência registrados pela Delegacia de Atendimento e Proteção à Pessoa Idosa (DAPPI), localizada em Vitória (ES), em seus dois primeiros anos de existência, de dezembro de 2010 a dezembro de 2012. O recorte cronológico da dissertação ora apresentada tem como limites a inauguração da referida Delegacia e o ano de elaboração do projeto de pesquisa. Considera-se que, com a inauguração da mesma, os casos de abusos contra idosos(as) tiveram maior visibilidade, sendo frequentes notícias nos jornais locais a respeito, o que explica recorrer-se a ela como campo de estudos. O trabalho integra um conjunto de pesquisas desenvolvidas pelo Laboratório de Estudos de Gênero, Poder e Violência da Universidade Federal do Espírito Santo (LEG-UFES), coordenado pela professora Maria Beatriz Nader, que promove um mapeamento da violência contra a mulher em Vitória, tendo como base as fontes policiais. O interesse pelo tema surgiu quando, em novembro de 2011, o Jornal A Tribuna, em reportagem com a delegada Wania Braga, responsável pela DAPPI, noticiou que, em apenas um ano, foram registradas 450 ocorrências, sendo que, em 300 delas, as vítimas eram mulheres. “Elas têm um sentimento de fraternidade, de cuidado, que é natural delas, e acabam se envolvendo mais que os homens nos problemas dos filhos e netos com as drogas”1 (grifo nosso), argumentou a delegada ao salientar que uma das formas predominantes de violência contra a mulher idosa é a violência familiar. Ainda que fatores de ordem estrutural, tal como o vício em álcool e drogas2, estejam presente nos casos analisados, eles por si só não dão conta de explicar a motivação de tanta violência contra as mulheres idosas. Questiona-se também o argumento 1 MAIA, Ruhani. Trezentas mulheres agredidas. A Tribuna, Vitória, p. 20, 24 nov. 2011. 2 A expressão “álcool e drogas” é utilizada no trabalho tal qual é utilizada no discurso policial dirigido à mídia, no discurso policial presente no relato do boletim, na literatura sobre o tema e nas políticas públicas, a exemplo da Política Nacional a Atenção Integral a Usuários de Álcool e outras Drogas, de 2003. Isso não implica, entretanto, desconsiderar o álcool como um tipo de droga, mas apenas diferenciá-lo como uma droga de caráter lícito. 16 apresentado por Wania Braga de um suposto sentimento de fraternidade e de cuidado pertencente à identidade feminina. Desse modo, as estatísticas chamam a atenção, mas a fala da delegada para explicar tal fenômeno, o dobro de denúncias em que a vítimas são mulheres e não homens, é que de fato se tornou o ponto de partida para se pensar a hipótese do trabalho, que é a de que a violência praticada por informada); i) casos de violência - agressor (cônjuge; familiares; outros; não informado); - local da ocorrência (residência; via pública; local de trabalho; escola; outros locais; não informado); - tipo de violência (psicológica; moral; física; tortura; patrimonial; sexual; outras; não informado); j) motivo para permanecer na situação de violência (dependência financeira; medo; amor; outros; separação; não informado); k) sentimentos em relação ao agressor (raiva; pena; tristeza; amor; medo; outros; não informados); e l) encaminhamento, considerando-se as diversas instituições (CREAS; DEAM; Conselho Tutelar; Centro de Referência de Atendimento à Mulher – CRAM –; hospital; CRAS; Ministério Público; Defensoria Pública; casas de abrigo; Instituto Médico Legal [IML]; DEPCA; outros segmentos; não informado). Os dados foram coletados e digitados dupla- mente, em planilha Excel, e logo importados para análise estatística pelo programa Epi Info versão 7. Os resultados foram descritos na forma de frequências absolutas. 552 Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília, 24(3):551-558, jul-set 2015 Milena Silva Costa e colaboradoras O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos do Hospital Universitário Alcides Carneiro/Universidade Federal de Campina Grande, sob o Parecer nº 278.035. Resultados No período de julho de 2010 a outubro de 2012, foram registrados 80 casos de violência contra a mulher no CRAM de Cajazeiras. Observou-se que 52 dessas mulheres se encontravam na faixa etária entre 15 e 40 anos, 44 apresentavam até 7 anos de estudo, 24 eram ‘do lar’, 47 eram casadas, 23 tinham tempo de convivência com seu cônjuge entre 9 e 18 anos, 69 afirmavam ter filhos e destas, 55 tinham filhos menores de idade (Tabela 1). Em relação ao agressor, 33 mulheres foram agredidas pelo cônjuge e 50 dos casos ocorreram em sua própria residência. A principal forma de violência foi a psicológica (n=64). Os motivos para permanecer com o agressor não foram informados por 38 mulheres; entretanto, 15 referiram sua dependência financeira como a principal razão para conviver com o agressor e 13 afirmaram nutrir sentimento de raiva por ele (Tabela 2). As vítimas foram encaminhadas para instituições como CREAS (n=26), DEAM (n=24), Conselho Tutelar (n=15) e Centro de Referência de Atendimento à Mulher (n=10) (Tabela 3). Dados importantes de algumas mulheres não foram registrados em parte das fichas de atendimento, como, por exemplo, profissão (n=24), tempo de convivência com o cônjuge (n=29) e faixa etária dos filhos (n=15) (Tabela 1), além da relação com o agressor (n=14), local de ocorrência da violência (n=18), sentimentos em relação ao agressor (n=27) (Tabela 2), e locais de encaminhamentos (n=18) (Tabela 3). Discussão No presente estudo, evidenciou-se que, entre as vítimas atendidas, a maioria era jovem, de baixa escolaridade, casada e do lar. O principal agressor foi o próprio cônjuge, agente destacado da violência psicológica em seu domicílio. Muitas das mulheres eram dependentes financeiramente dos parceiros, não dispondo de renda própria. As mulheres em idade reprodutiva foram as principais vítimas. O baixo grau de instrução desfavorece a melhor qualificação profissional motivando, em algumas situações, o desemprego.7 Há, também, casos em que a mulher deixa os estudos para cuidar da família, passando a depender economicamente do marido, o que pode aumentar sua vulnerabilidade e dificultar o rompimento do ciclo de violência.5 Apesar de o histórico da violência apontar o cônjuge como seu principal perpetrador, a maioria das vítimas encontrava-se casada e com tempo de convivência duradouro, o que reforça a percepção da dificuldade da mulher em romper situações de violência doméstica, especialmente quando têm filhos menores de idade,8 como revelou o presente estudo. A tentativa desse rompimento pela mulher pode provocar a não aceitação da separação pelo cônjuge e desencadear um ciclo contínuo de violências.9 No presente estudo, a maior parte das vítimas foi agredida no próprio lar, de onde se espera um ambiente afetuoso, de acolhimento e refúgio contra a violência externa. Contudo, para essas mulheres, seu domicílio passou a ser residência do medo, tensão e agressões em razão das constantes ameaças a que estavam expostas. O lar passa a ser o local mais perigoso para mulheres agredidas por maridos ou companheiros, e a dependência afetiva, familiar e financeira dificulta a formalização de denúncias e, por conseguinte, a conclusão do processo violento.9 A violência mais prevalente foi a psicológica, geralmente a primeira a acontecer quando causada por um ente familiar da vítima, tornando-se contínua, embora menos percebida pela sociedade porque a mais divulgada pelos meios de comunicação é a violência sexual. Neste estudo, os demais tipos destacados foram a violência moral e a física. Tais dados assemelham-se aos evidenciados noutro estudo, em que as mulheres foram acometidas, simultaneamente, por mais de um tipo de violência, com prevalência das violências psicológica (62%), física (54%) e moral (50%).8 As razões referidas pelas mulheres para permanecerem em relação conjugal violenta estavam ligadas à dependência financeira, não obstante expressarem sentimentos negativos relacionados ao agressor, como raiva, pena, tristeza, medo, indignação, desprezo, repúdio, revolta. Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília, 24(3):551-558, jul-set 2015 553 Violência contra a mulher em Cajazeiras-PB, Brasil Tabela 1 – Perfil social e demográfico das mulheres vítimas de violência (n=80) no município de Cajazeiras, estado da Paraíba. Brasil, 2010 a 2012 Variáveis Faixa etária (em anos) 15-40 41-60 >60 Escolaridade (em anos de estudo) ≤7 ≥8 Não informada Profissão Do lar Agricultora Aposentada Diarista Desempregada Outras profissões Não informada Remuneração Sim Não Não informada Estado civil Casada Solteira Divorciada Viúva Não informado Tempo de convivência com o cônjuge 7 meses a 8 anos 9-18 anos 20-35 anos Não informado Filhos Sim Não Não informados Faixa etária dos filhos (em anos) ≤18 >18 Não informada N 52 24 4 44 32 4 24 8 4 2 2 16 24 14 18 48 47 15 9 4 5 16 23 12 29 69 9 2 55 10 15 554 Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília, 24(3):551-558, jul-set 2015 Milena Silva Costa e colaboradoras Tabela 2 – Distribuição dos casos notificados de violência à mulher (n=80) segundo agressor, local da ocorrência, tipo de violência, motivo para permanecer nessa situação e sentimentos em relação ao agressor no município de Cajazeiras, estado da Paraíba. Brasil, 2010 a 2012 Variáveis Agressor Cônjuge Familiares Outros Não informado Local da ocorrência Residência Via pública Local de trabalho Escola Outros locais Não informado Tipo de violênciaa Psicológica Moral Física Tortura Patrimonial Sexual Outras Não informado Motivo para permanecer na situação Dependência Financeira Medo Amor Outros Separação Não informado Sentimentos em relação ao agressor Raiva Pena Tristeza Amor Medo Outros Não informados a) Um único caso notificado pode apresentar mais de um tipo de violência N 33 19 14 14 50 3 2 1 6 18 64 47 37 17 17 1 7 5 15 8 5 11 3 38 13 10 8 5 4 13 27 Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília, 24(3):551-558, jul-set 2015 555 Violência contra a mulher em Cajazeiras-PB, Brasil Tabela 3 – Distribuição dos encaminhamentos da mulher vítima de violência (N=80) no município de Cajazeiras, estado da Paraíba. Brasil, 2010 a 2012 Encaminhamentos a Centro de Referência Especializado da Assistência Social (CREAS) Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM) Conselho Tutelar Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) Hospital Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) Ministério Público Defensoria Pública Casas de abrigo Instituto Médico Legal (IML) Delegacia de Proteção da Criança e do Adolescente (DEPCA) Outros segmentos Não informado a) Um único caso notificado pode ter mais de um tipo de encaminhamento,para serviços diferentes. N 26 24 15 10 3 3 2 2 2 1 1 13 18 Ao analisar dados semelhantes, outro estudo8 identificou que os motivos pelos quais as mulheres permaneciam na relação de violência eram: (i) dependência financeira, emocional e afetiva do companheiro, (ii) medo de perder os filhos, (iii) exposição ao escândalo diante dos amigos e familiares, (iv) culpa por não conseguir manter o relacionamento, (v) incapacidade profissional para sobreviver por si e finalmente, (vi) as próprias ameaças feitas pelos agressores. Considera-se que para enfrentar a violência contra a mulher, são necessárias ações conjuntas da sociedade, políticas públicas e serviços com esse objetivo. Conforme a Lei no 11.340/06, Lei Maria da Penha, a mulher vítima de violência deverá contar com o apoio institucional de uma equipe multidisciplinar, composta por profissionais especializados das áreas da Saúde, psicossocial e jurídica, responsáveis pelo desenvolvimento de trabalhos de orientação e prevenção, e pelos casados de união estável para verificar se existia diferença estatística frente à violência, fato que, neste estudo, não foi significativo. Em relação ao dia e ao horário da agressão, o número maior de casos ocorreu no período noturno e nos finais de semana, período em que o agressor fica mais tempo no domicílio. Os dados concordam com outro estudo em que se encontrou maior frequência da violência entre casais nos finais de semana, no período das 12h às 00h para todas as idades e relações da vítima com o autor21. A agressão física foi o maior motivo da denúncia, porém, muitas vezes, a agressão psicológica não é reconhecida pela vítima como violência. Para que ocorra a agressão física de fato, primeiro o agressor ameaça a vítima ou comete outro tipo de violência psicológica, que é o início do “ciclo de violência”. No entanto, a violência psicológica doméstica é negligenciada e as mulheres denunciam com pouca frequência13. Percebe-se que, das denúncias cujo motivo foi a agressão física, 51,3% apresentaram lesões aparentes. Nem toda agressão física leva à lesão corporal, porém causa danos psicológicos à vítima e aos familiares que a presenciam, principalmente os filhos. A violência presenciada na infância ou na adolescência tem grande importância na estruturação do psiquismo humano, além de aumentar a probabilidade de sofrer depressão, ansiedade, transtornos de conduta e atrasos no desenvolvimento cognitivo22. Os companheiros foram os grandes responsáveis pela violência doméstica contra a mulher (49%). Esse resultado pode ser explicado por estudos6,20 que mostram que os papéis sociais impostos a homens e mulheres, reforçados pela cultura patriarcal, estão presentes nos comportamentos violentos e que mulheres afirmam que as esposas devem obedecer a seus maridos mesmo sem concordar com eles, além de saber que o agressor não se intimida com a presença de terceiros nos episódios de violência6. Estudo demostra que algumas mulheres consideram o casamento como o mais importante lugar que poderiam ocupar, mesmo sofrendo agressões23. Ressalta-se o grande número de agressores que compreenderam os ex-companheiros e ex-namorados das vítimas (35%), fato preocupante, pois, apesar da separação, o homem continua a agredi-la. Esses dados concordam com outro estudo, em que 32% dos casos já haviam ocorrido à ruptura da relação, temporária ou definitiva, porém não se afastou o perigo da violência6. A violência sexual foi o tipo de agressão com o menor índice encontrado; no entanto, quando ocorre no âmbito domiciliar ou entre o casal, não é percebida como violência. CONCLUSÃO Ao estudar a violência sob a ótica dos documentos de BO, passamos a ter noção de outro formato de atendimento que difere da assistência prestada pela enfermagem nos serviços de saúde. 430 Cad. Saúde Colet., 2013, Rio de Janeiro, 21 (4): 425-31 Perfil da violência doméstica e familiar contra a mulher em um município de Minas Gerais, Brasil. No entanto, essa convivência com os dados do BO demonstra que a dificuldade que temos de abordar a mulher vítima de violência dentro dos serviços aparece também nos dados do BO, pois muitos dados são preenchidos incorretamente, principalmente em relação ao agressor. Isso e a mudança no formato do sistema de denúncias, que passaram a ser informatizadas a partir de outubro de 2011, foram fatos limitantes do estudo, pois não foi possível manipular o novo sistema, apenas as ocorrências impressas, dificultando-se o acesso. Os dados encontrados pelos BOs demostram que a violência está distribuída por todo o município e complementam estudo anterior sobre as áreas cobertas pela Estratégia de Saúde da Família que lidam diretamente com a população. A proximidade dos profissionais de saúde com a clientela das áreas de abrangência da ESF possibilita a identificação das situações de violência nas suas diversas formas. A agressão doméstica contra a mulher afeta a saúde de todos os familiares em vários aspectos, não somente nas lesões provocadas no físico da vítima. Interferir precocemente no ciclo de violência previne maiores danos aos envolvidos. Acredita-se que conhecer a violência do município permitirá a busca de novas práticas sociais e que esses dados facilitarão ações de saúde e as sociais pelos diversos órgãos municipais, dentre eles, o Centro de Reabilitação de Assistência à Saúde, o Conselho Municipal da Mulher e o Comitê de Violência Municipal. Referências 1. Granja E, Medrado B. Homens, violência de gênero e atenção integral em saúde. Rev Psicologia e Sociedade. 2009;21(1):25-34. 2. Silva MA, Falbo Neto GH, Figueiroa JN, Cabral Filho JE. Contra a mulher: prevalência e fatores associados em pacientes de um serviço público de saúde no Nordeste brasileiro. Cad Saúde Pública. 2010;26(2):264-72. 3. Ferrante FG. Violência contra mulher: a percepção dos médicos das Unidades Básicas de Saúde de Ribeirão Preto, São Paulo [tese]. Ribeirão Preto (SP): Universidade de São Paulo; 2008. 4. Santos SM. Da delegacia da mulher à Lei Maria da Penha: absorção/ tradução de demandas feministas pelo Estado [Internet]. Revista Crítica de Ciências Sociais. 2010;89:153-70 [Cited 2011 Feb 11]. Available from: http://www.ces.uc.pt/ficheiros2/files/gender%20workshopRCCS_89_ Cecilia_Santos.pdf 5. Brasil. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Dispõe sobre mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Brasília: Diário Oficial da União; 2006. 6. Melo ZM, Silva DM, Caldas MT. Violência Intrafamiliar: crime contra a mulher na área metropolitana do Recife. Psicol Estud. 2009;14(1):111-9. 7. D’Oliveira AFPL, Schraiber LB, Hanada H, Durand J. Atenção integral à saúde de mulheres em situação de violência de gênero: uma alternativa para a Atenção Primária em Saúde. Ciênc Saúde Colet. 2009;14(4):1037-50. 8. Fonseca RMGS, Leal AERB, Skubs T, Guedes RN, Egry EY. Violência doméstica contra a mulher na visão do Agente Comunitário de Saúde. Rev Latino-Am Enfermagem. 2009;17(6):45-51. 9. Brasil. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Brasília: Diário Oficial da União; 1990. 10. Okabe I, Fonseca RMGS. Violência contra a mulher: contribuições e limitações do sistema de informação. Rev Esc Enferm USP. 2009;43(2):453-8. 11. Brasil. Decreto-Lei 3.689, de 3 de outubro de 1941. Dispõe sobre o Código de Processo Penal Brasileiro [Internet]. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. 1941 out 3 [Cited 2011 May 15]. Available from: http://www.amperj.org.br/store/legislacao/codigos/ cpp_L3689.pdf 12. Brasil. Ministério do Trabalho e do Emprego. Secretaria de Políticas Públicas de Emprego. Classificação Brasileira de Ocupações. 3ª edição. Brasília; 2010. 13. Silva LL, Coelho EBS, Caponi SNC. Violência silenciosa: violência psicológica como condição da violência física doméstica. Interface (Botucatu). 2007;11(21):93-103. 14. Deeke LP, Boing AF, Oliveira WF, Coelho EBS. A dinâmica da violência doméstica: uma análise a partir dos discursos da mulher agredida e de seu parceiro. Rev Saúde Soc. 2009;18(2):248-58. 15. Jong LC, Sadala MLA, Tanaka ACD. Desistindo da denúncia ao agressor: relato de mulheres vítimas de violência doméstica. Rev Esc Enferm USP. 2008;42(4):774-51. 16. Schraiber LB, D’OliveiraI AFPL, França Junior I, Diniz S, Portella AP, Ludermir AB, et al. Prevalência da violência contra a mulher por parceiro íntimo em regiões do Brasil. Rev Saúde Pública. 2007;41(5):797-807. 17. Brasil. Ministério da Saúde. Sistema de Informação de Atenção Básica – SIAB [Internet]. Brasil 2012. [Cited 2012 July 4]. Available from: http:// tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?siab/cnv/siabfMG.def 18. Torres MA. Violência contra a mulher no município de Alfenas – MG [Monografia]. Alfenas (MG): Universidade Federal de Alfenas; 2009. 19. World Health Organization. World report on violence and health [Internet]. Geneva; 2002 (WHO Report). [Cited 2012 June 28]. Available from: http://www. who.int/violence_injury_prevention/violence/world_report/en/index.html 20. Moura LBA, Gandolfi L, Vasconcelos AMN, Pratesi R. Violências contra mulheres por parceiro íntimo em área urbana economicamente vulnerável, Brasília, DF. Rev Saúde Pública. 2009;43(6):944-53. 21. Dossi AP, Saliba O, Garbin CAS, Garbin AJI. Perfil epidemiológico da violência física intrafamiliar: agressões denunciadas em um município do Estado de São Paulo, Brasil, entre 2001 e 2005. Cad Saúde Pública. 2008;24(8):1939-52. 22. Silva MA, Falbo Neto GHF, Cabral Filho JEC. Maus tratos na infância de mulheres vítimas de violência. Psicol Estud. 2009;14(1):121-7. 23. Souto CMRS, Braga VAB. Vivências da vida conjugal: posicionamento das mulheres. Rev Bras Enferm. 2009;62(5):670-4. Recebido em: 14/08/2012 Aprovado em: 10/12/2013 Cad. Saúde Colet., 2013, Rio de Janeiro, 21 (4): 425-31 431
Gênero e velhice: a violência familiar contra a mulher idosa em Vitória (ES), 2010-2012
RECENT ACTIVITIES

Autor

Documento similar

Tags

Gênero e velhice: a violência familiar contra a mulher idosa em Vitória (ES), 2010-2012

Livre